seg 18 out 2021
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Saída de garagem

Quando se mora em prédio, uma das piores coisas que podem acontecer no dia-a-dia é entrar na garagem ao mesmo tempo em que alguém está saindo. Pronto. É o que basta para começar uma discussão. “Quem sai tem prioridade!”. “Não, quem entra é que tem prioridade!”. Isso pode durar bastante tempo ou até um terceiro chegar para resolver a briga. E nem sempre ele chega logo.

Sinalizador-de-Garagem
Foto: Banco de dados

Enfim. Lá estava eu, voltando da faculdade. Eram umas dez da noite, coisa assim. Enfim, minha mãe, que foi quem me buscou – “Não vou deixar você andar pelo Passeio Público a essa hora!” -, estava descendo para entrar na garagem, quando de repente um carro preto quase bate no nosso, na pressa de sair de lá.

E é o que basta para os julgamentos; afinal, não há nada melhor do que julgar os outros: Onde será que ele vai tão apressadinho há essa hora?! Precisava mesmo? Parece que vai tirar o pai da forca!

Mas e se ele estivesse? Ok, ninguém é mandado à forca oficialmente no Brasil há uns duzentos anos, mas e se ele estivesse, sei lá, indo para o hospital? Todo mundo pode algum dia ter apendicite! Ou então talvez a mulher dele estivesse parindo. Também pode acontecer! A qualquer momento a esposa dele poderia estar em casa e de repente:

– Estourou a bolsa!

Aí é correria pra todo lado: O marido pegando a chave do carro, documento – pra que documento? – e tudo o mais e sai correndo para pegar o elevador, descer até a garagem e levar a mulher para o hospital. Na saída da garagem, quase bate em uma mulher que descia trazendo o filho adolescente – “Sai da frente, mulher!”. E sai. E corre. E derrapa. E passa no sinal vermelho. E é buzinado e buzina de volta. Ai, meu deus, meu filho vai nascer! Enfim chega ao hospital! Quase atropela a catraca e a enfermeira que levava uma velhinha em uma cadeira de rodas. Estaciona de mal jeito, ocupando três vagas.

– Aguenta firme querida! – O homem grita ao sair para abrir a porta traseira – Já, já estamos lá dentro e… Querida?

Não há ninguém no banco traseiro. Pensa em todas as possibilidades do que pode ter acontecido, até se lembrar que ao sair pegou chave, documento e quase tudo o mais – Quase, porque na pressa esqueceu justamente da mulher parindo.

Bom, pelo menos não bateu no nosso carro.

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