sáb 16 out 2021
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Se for pago é melhor?

Fonte: noticiasdonorte.publ.cv

Antes de ser alvo de um debate moralista, a prostituição se revela num confronto entre as esferas pública e privada. Até onde a sociedade pode intervir na suposta liberdade individual? Sabemos que as ações individuais são pertinentes, desde que não interfiram nos direitos de outros. Assim, a escolha de vender o sexo deveria ser uma opção referente ao indivíduo, já que diz respeito somente a quem está presente no momento, e não a todo um corpo social.

Frente a isso, um pensamento de algum cunho feminista argumentaria que a prostituição é reflexo de uma sociedade patriarcal. As mulheres estariam vendendo seus corpos por não terem tido uma alternativa, foram submetidas a um sistema de exploração. Mas sabemos que muitos homens também se prostituem – a demanda é grande. Conhecemos, também, casos de pessoas que escolheram manter uma vida sexual remunerada, exercitando sua liberdade de ação. Como Lola Benvenutti, a jovem graduada em Letras, evidenciada pelo seu blog em que relata suas experiências como profissional do sexo.

Sob o olhar social, o sexo pago pode ser reprimido por não ser fruto de um afeto entre os envolvidos. Eles se encontram para satisfazer um desejo – algo efêmero – e para receber por isso. Numa perspectiva delimitada pela falta de relação afetiva, o sexo casual e o sexo remunerado não seriam muito diferentes. Em ambos os casos, os participantes são maiores de idade e conscientes de suas escolhas.

A prostituição talvez ainda seja tão atacada pela sociedade porque rompe com muitas expectativas sociais em relação ao amor. Trata-se de um relacionamento entre homem e mulher, mulher e mulher ou homem e homem com desprendimento emocional. Pode até ser uma espécie de “amor instantâneo”. No momento, vale o que o corpo sentir.

Nesse sentido, a obra do cartunista Chester Brown, “Pagando por sexo”, relata o mundo da prostituição como algo que deveria ser tratado com naturalidade. Na graphic novel, o autor conta suas experiências com prostitutas e como a vergonha que elas têm provém do mundo externo. Na profissão delas – como tantas outras – muitos gostam do que fazem, mas existem aqueles que não.

Claro que a prostituição tem seu lado obscuro, a sua face exploratória. Menores de idade submetidos a um mundo sexual imposto por adultos. Obviamente, muitas vezes, a porta de entrada para essa atividade é forçada, representando uma repressão, um atentado à juventude, ao corpo, à liberdade. Porém, isso não exclui quem escolheu a profissão por vontade própria, por simplesmente gostar de sexo e poder receber com ele.

O sexo pago é uma resposta ao amor-romance, a esse amor idealizado que nos bombardeia nas novelas e nos filmes. Ele assusta porque nos despe de nossa ingenuidade aparente, coloca-nos em contato com nossos desejos individuais. Num tipo de relação assim, não há a preocupação de fazer durar, de se adaptar ao outro. É um relacionamento em sentido único.  Em geral, o amor-romance é supervalorizado. Aceitar que a relação sexual pode ser remunerada não cessa aquela que é proveniente desse amor.

Se falta amor no sexo com prostitutas e prostitutos, isso também acontece em todas as outras esferas da vida, nos pequenos e grandes gestos. Falta amor para entender o outro, assim como para aceitar a falta de amor.

 Confira nosso outro artigo sobre o assunto: https://jornalcomunicacao.ufpr.br/materia-15471.html

Confira também nossa  entrevista com Lola Benvenutti: https://jornalcomunicacao.ufpr.br/materia-14774.html

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