sáb 20 abr 2024
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Ser ou não ser? – A construção de identidade coletiva e individual na vivência de pessoas com deficiência

O dilema universal de “ser ou não ser” assume outras dimensões na vida das pessoas com deficiência, onde a identidade individual se entrelaça com uma jornada coletiva

Peça Hamlet – La Plaza

Por Ana Caroline Salmória, Clarissa Freiberger, Murilo Bernardon, Lívia Betim e Vincenzo Pizzaghello

O questionamento existencial do clássico shakespeariano Hamlet ganhou novo sentido na abertura do 31 Festival de Curitiba, em 28 de março de 2023, em uma releitura do grupo peruano La Plaza. Pela primeira vez, apenas artistas com síndrome de down ocuparam o palco da principal mostra do Festival, Lúcia Camargo, e emocionaram o público diverso no evento referência em artes cênicas no Brasil.

Logo no início, os personagens – encenando eles próprios – dão o tom do espetáculo. O grupo avisa que suas falas podem ser pausadas e até causarem um certo estranhamento. Não é por falta de preparo ou intimidade com o texto, mas um outro jeito de transmitir a mensagem da obra. “Isso pode ser considerado uma questão de acessibilidade comunicacional, em que você avisa para o público o que vai acontecer”, explica o sociólogo Marco Antonio Gavério, “por exemplo, numa analogia, quando você avisa em um filme de que aquilo é uma ficção.” Para ele, essa é uma estratégia de comunicação que tem crescido nos últimos tempos em produções culturais, não só para temas ligados à deficiência. 

Dirigida por Chela De Ferrari, os nove atores já percorreram as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro e países como Espanha e Chile, além do recente tour na Europa com a peça. No Guaíra, em Curitiba, as duas apresentações tiveram ingressos esgotados. Para além de uma peça inclusiva, com intérpretes de libras e traduções simultâneas para o português, Hamlet do Teatro La Plaza é uma ponte entre a arte e a neurodiversidade. A apresentação utiliza de ferramentas pop, como o rap, para trazer à tona assuntos complexos, como sexualidade, morte, traição, estigma e preconceito. Ao mesmo tempo, coloca em evidência o poder de ser quem se é. Desta vez, o destaque está na potencialidade de fazer arte com um cromossomo a mais. 

Ao mesmo tempo que diverte, Hamlet do Teatro La Plaza provoca espanto. Para alguns espectadores, o beijo demorado de Ofélia e Hamlet, por exemplo, pode ter sido o primeiro ato de expressão sexual de pessoas com síndrome de down – que sempre tiveram sua sexualidade negada.

Entre o demoníaco e o angelical 

A figura do anjo e do demônio são uma linguagem metafórica usada em algumas pesquisas para enquadrar pessoas com síndrome de down em dois pólos: de um lado o “angelical”, completamente rarefeito das dimensões do desejo sexual e dos laços afetivos, sejam amorosos ou de amizade. Na outra extremidade, há o polo “demoníaco”. Em geral, o demônio é considerado como uma figura extremamente lasciva, que suscita desejos proibidos – que não podem ser pensados e praticados. 

Essa visão leva à negação e repressão da expressão de sexualidade desse grupo. Em muitos casos, como exposto na versão de Hamlet, adolescentes e adultos com down são vistos por familiares e amigos como eternas crianças. Marco Antonio Gavério traz a análise das organizações familiares que costumam colocar essas pessoas como aquelas que sempre vão ser cuidadas pela família. Em alguns momentos, há a negação de senso de responsabilidade desse grupo.

Além disso, para o pesquisador, essa é uma indagação complexa. Visto que o cuidado está, na maioria das vezes, relacionado com a rede de afeto dos indivíduos, sejam pessoas com deficiência, idosos ou com comorbidades.  Gavério também argumenta que a privatização do cuidado é ampla na nossa sociedade.  E, como um grupo que demanda relações de cuidado, a família, principalmente no Brasil, se torna um ponto importante na rede de apoio e de assistência. Desse modo, é também a família que regula a expressão de sexualidade no cotidiano dessas pessoas, o que gera uma tensão entre sexualidade e cuidado.  

O documentário “Yes, we fuck” (2015), segundo Gavério, é uma obra que ilustra essa dinâmica. O longa, produzido por uma ação de ativistas espanhóis, aborda a dependência e a infantilização de pessoas com diversidades funcionais e como a sexualidade pode ser usada como ato político. O filme apresenta, em formato de depoimentos, histórias de pessoas com vários tipos de deficiência e com outras identificações políticas, de dissidência sexual e de gêneros — todos são colocados como deficientes, em uma linguagem provocativa.  

O único grupo que não dá seu depoimento próprio é o de pessoas com Síndrome de Down. Quem fala sobre a sexualidade por eles no documentário são os pais. Enquanto estão acompanhados pelos responsáveis, “não há a possibilidade de, como um indivíduo, como uma pessoa, falar sobre seus desejos, frustrações sexuais, romances e afetos, sem a mediação familiar”, descreve o sociólogo. 

No doutorado, recentemente, Gavério pesquisou detalhadamente a reabilitação, os tratamentos reabilitadores para algumas deficiências, e sua relação com algumas políticas públicas atuais no Brasil. Ele também debateu o documentário com outra pesquisadora e roteirista e, segundo ele, essa cena pode ser considerada conservadora, mas, ao mesmo tempo, é uma conquista para pesquisadores e ativistas espanhóis por mostrar a tensão cotidiana de pessoas com deficiência – que, muitas vezes, tem seus desejos medicalizados, patologizados ou sublimados. Com isso, a família, algumas vezes, passa pelo papel de “mediador”.

A situação documentada no longa acontece em via de regra com a maioria dos indivíduos que, por algum motivo, necessitam de cuidado pessoal extensivo. “Pessoas que, assim como eu, precisam, por exemplo, de outras pessoas para tomar banho, ir pra cama, voltar para cadeira, sair de casa, ou seja, que necessitam de um cuidado corporal de outra pessoa a longo prazo”, explica. Dessa forma, as relações de cuidado também envolvem relações de poder e violência – mesmo que não sejam manifestadas ou reconhecidas. Gavério sinaliza: “Obviamente, o cuidado também possibilita várias coisas positivas. É o que permite, por exemplo, tomar banho, descansar, tomar remédio. Mas também envolvem relações humanas. Uma hora o cuidador não está muito bem. Uma hora a pessoa que está sendo cuidada não está com muita paciência.”, cita como exemplo.

Desde como sair da cama até a realização de uma atividade do dia a dia, ou como a ida para o trabalho, o cuidado é uma preocupação diária na maior parte da vida de pessoas com deficiência.  Assim como na peça Hamlet, aqui, Gavério relembra da questão do aviso como uma necessidade de visibilidade: “mas às vezes essa visibilidade é uma exigência do outro, porque você tem medo do que o outro vai dizer pra você. Na verdade, muitas vezes, nós temos medo da vergonha que o outro vai sentir por estar nos vendo. É a vergonha do outro que exige que nós avisemos sobre o que vamos fazer.” 

 O aviso também pode se estender a outras relações, como na relação entre diferentes gêneros, sexualidade ou inter-raciais, em que “alguns polos dessas relações sempre são colocados como aqueles que devem se explicar”. Para ele, nessa dinâmica, o indivíduo que se vê na obrigação de avisar aparece como o “neutro”. No entanto, essa neutralidade também é uma expressão de identidade. 

Ritual de Transição

A autopercepção da deficiência é um processo definido como um ritual permanente para Eber da Silva Santos. Ele encontrou na dança um espaço de reabilitação e de busca pelo autoconhecimento. “É uma dança fora de um padrão, não tem um vocabulário fixo como o balé ou a dança de salão, que têm suas exigências específicas”, conta o mestre em antropologia, “na dança contemporânea a linguagem é mais aberta, não há um padrão definido para o corpo e para o movimento. Você pode criar seus próprios movimentos e investigar a partir das suas próprias possibilidades. 

Para ele, a dança contemporânea não implica na adaptação de pessoas com deficiência no senso comum. Ela por si só é adaptável a qualquer corpo. “Não estamos fazendo releituras ou adaptações de outras linguagens, estamos abertos a diferentes formas de criação. Nesse sentido, a dança contemporânea permite essa inclusão em outros contextos, que já são mais limitados nesse aspecto.” 

Ao mesmo passo, muitos artistas com deficiência buscam ser reconhecidos como artistas e criadores em si mesmos no qual a dança contemporânea abre espaço, “Pode ser um corpo cadeirante, um corpo que usa bengala, enfim, qualquer pessoa que esteja disposta a criar com seu próprio corpo em um ambiente contemporâneo. Não estamos fazendo releituras ou adaptações de outras linguagens, estamos abertos a diferentes formas de criação. Nesse sentido, a dança contemporânea permite essa inclusão em outros contextos, que já são mais limitados nesse aspecto.” 

Eber também pesquisa as especificidades do corpo com deficiência nas comunidades quilombolas, onde a ideia de pertencimento está relacionada com um sistema de parentesco e um universo cosmológico, ao contrário da perspectiva individualista do ocidente. Nesse contexto, as pessoas não são definidas pelas formações corporais ou fisiológicas, mas pelo seu lugar no grupo e nas relações de parentesco. A deficiência não leva à perda de lugar social.

Ao contrário do contexto individualizado em que a deficiência é vista como algo carregado pelo indivíduo, nas comunidades quilombolas há uma solidariedade coletiva, onde as pessoas se veem como parte de um grupo. Embora termos pejorativos como “aleijado” sejam utilizados, a pessoa com deficiência ainda participa ativamente da vida social, ocupando seu lugar no parentesco e sendo integrada à comunidade. 

Dentro da sociedade ocidental, predomina o modelo biomédico que considera o corpo como uma estrutura física autônoma, e a deficiência é interpretada como uma categoria criada pela medicina. Nas comunidades quilombolas, não há uma noção específica de deficiência, mas sim a compreensão de que as pessoas possuem diferentes níveis de dificuldade para realizar atividades.

Na sociedade capitalista, a ocupação que exercemos no mundo do trabalho determina quem somos. Eber destaca o capacitismo – que se refere à discriminação e ao preconceito contra pessoas com deficiência – especialmente no contexto do trabalho, onde a produtividade é totalmente valorizada, enquanto pessoas com deficiência como improdutivas.

Ao mesmo passo, a inclusão desse grupo no mercado de trabalho enfrenta desafios que variam de acordo com cada segmento. O movimento das pessoas com deficiência enfatiza a importância da voz e participação dos indivíduos, inclusive daqueles com limitações mais severas. Embora o ideal de independência seja valorizado, ele confronta a realidade de que nem todos os indivíduos poderão alcançar plena independência, mesmo com a acessibilidade garantida. Isso levanta questões éticas e redefine a noção de humanidade baseada na independência e na capacidade produtiva.

Uma construção histórica

A percepção contemporânea de identidade surge ao longo do século XX com as tentativas de criação de identidades nacionais. De acordo com o pesquisador Marco Antonio Gavério, no processo de unificação territorial nas nações modernas, surge a necessidade da formação de uma ideia de identidade – que unisse todas as diferenças, inclusive linguísticos, em agrupamento, com intenções políticas e de exercício de poder. É o caso das unificações alemãs e italianas, por exemplo, entre o final do século XVIII e começo do século XX, que permanecem até os dias de hoje. 

Outro exemplo, mais atual, é o conflito entre Rússia e Ucrânia, em que a questão identitária das duas nações estão constantemente presentes. Depois do fim da União Soviética, ambos países compostos por variados costumes, línguas, dialetos, em algum momento de suas histórias, se tornam mais homogêneos. Entretanto, a homogeneidade, para Gavério, permite a existência da diferença, da heterogeneidade, ligada à identidade. Ou seja, a identidade também pode ser definida como aquilo que nos distancia do outro.

Para ele, se transportarmos esse aspecto mais político de identidade, que ao longo do século XX se pulveriza nas questões políticas, podemos chegar na constituição da figura da pessoa com deficiência. “Hoje se fala bastante de “pessoa com deficiência”, exatamente esse termo, porém é um termo que só passa a ser gestado a partir dos anos 1980”, afirma. 

É nesse período que, segundo o sociólogo, há uma mudança muito grande nas concepções e nas formas de se referir às pessoas com deficiência — uma mudança recente. As expressões comuns entre os anos 1970 e 1980 eram “deficiente”, “inválido”, “aleijado”, ou outros termos, como “retardado” e “defeituoso”, que eram termos que davam identificação a um tipo específico de pessoas. A partir dos anos 1980, quando outras formas de ver a deficiência entram em parte da cena pública — midiáticas e científicas — pessoas com deficiência também passam a ser consideradas como seres humanos, criando uma certa concepção de humanidade. 

No ocidente, começamos a pensar enquanto coletividade e a tratar de algumas questões não pensadas anteriormente para esse grupo. O pesquisador afirma também que o próprio movimento de pessoas com deficientes – que ganharam força no Brasil e no mundo a partir do final dos anos 1960 – influenciou essa construção de identidade do grupo. “ Não à toa, muitos dos ativistas e das ativistas que até hoje são expoentes, digamos assim, de um pensamento crítico com relação à deficiência, eram pessoas que estavam em casos de reabilitação, em hospitais em asilos, pessoas que necessitavam de muitos cuidados, para tomar banho, para ir no banheiro, para sair de casa, para fazer as coisas mais cotidianas”, explica. 

A construção de identidade perpassa também pela tentativa de acessar os serviços básicos, ora reivindicando assistência pública, ora denunciando a elitização de determinados tipos de cuidados profissionais. Foram através dessas lutas por acesso à saúde lutas, moradia, educação, lazer, trabalho – tentativas de se inserir no mundo considerado “normal” – que as críticas, inclusive a esse próprio mundo normalizado, eclodiram dos movimentos de pessoas com deficiência. 

“Há cada vez mais uma pontuação de que é necessário não somente especificar e olhar exatamente para deficiência, como uma diferença natural ou como uma uma diferença culturalmente visível, mas também olhar para esses modos de acesso a algumas questões, como o acesso à educação e à saúde, e o que isso tem a ver com algumas questões que não são somente dificuldades individuais de se acessar esses espaços, mas são questões às vezes de como essas próprias dimensões se organizam que estruturam.” 

O meio artístico é um dos espaços que tem sido bastante também disputado por artistas, produtores, roteiristas e diretores com deficiência. Para Gavério, “essa é uma questão também interessante de a gente pensar: quem produz atualmente as representações sobre deficiência no mundo contemporâneo?”

Cultura em coletivo

O acesso à cultura é uma peça-chave na formação identitária. Aulas de teatro, musicalização e capoeira, por exemplo, permitem a construção de um senso de pertencimento dos grupos sociais. É nesse sentido que o Coletivo Inclusão, uma associação sem fins lucrativos que busca promover a inclusão de pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade social, atua através de atividades culturais, esportivas, educacionais e de assistência social. 

Desde 2014, a iniciativa atua em parceria com a APAEs. Hoje, a ação se estende por Apaes de Curitiba e da Região Metropolitana – sendo uma na Fazenda Rio Grande, duas em São José dos Pinhas, uma em Mandirituba e duas na capital. Também há ações no Complexo de Saúde Pequeno Cotolengo e no Instituto Paranaense de Cegos. Uma vez por semana, estudantes de diversas idades experienciam as potencialidades criativas e de criação com o próprio corpo e a expressão individual e coletiva. No final do ano, as aulas resultam em apresentações no Festival de Artes Integradas da Pessoa com Deficiência. Neste ano o festival pretende ampliar os dias de apresentação e suas parcerias com outras instituições. “A intenção é fazer com que cada vez mais as pessoas participem do nosso festival, troquem experiências, e tragam seus trabalhos artríticos, suas linguagens.” Comenta Talita Stec, coordenadora cultural do coletivo. 

Para Talita, as realizações do Coletivo são um reflexo do poder transformador da arte: “Trabalhando aqui no Coletivo, descobri a arte na sua gênese primordial, que é a criação de mundos […] Poder trocar, trazer a sua experiência de vida, e jogar com isso, criar em cima disso, é uma coisa fantástica. Quando a gente tira isso de dentro da sala de aula e oferece para a comunidade, aí sim temos uma grande abertura para inclusão de fato, para que a sociedade em geral conheça a causa da pessoa com deficiência e principalmente conheça as potencialidades, porque todos nós somos capazes e todos temos conteúdos a oferecer.” 

Os benefícios refletem em vários aspectos nas vidas dos estudantes, desde a parte física e a cognitiva. “A gente tem vários retornos de pedagogos que demonstram que muitos alunos conseguem recuperar a autoconfiança, conseguem deixar de serem tão tímidos, começam a se “posturar” mais, conversar mais, ter mais facilidade de sociabilização.” A cultura, para além do lazer, abre novos caminhos subjetivos. É por meio dela que é refletido e pensados as identidades.

Para além de quatro apoios

“A gente consegue fazer a leitura das pessoas através do comportamento do cavalo”. O relato é de Caroline Maria Rossi, gestora do Coletivo Inclusão e Coordenadora do espaço de Equoterapia – uma das atividades desenvolvidas pelo Coletivo Inclusão. Em espaço cedido pelo Jockey Clube, na Fazendo Rio Grande, região metropolitana de Curitiba, os cavalos também são os terapeutas. 

Em contato direto com a natureza, quem pratica equoterapia desenvolve diversas áreas do corpo, como o desenvolvimento neurológico, físico, liberando hormônios e estimulando a confiança. Durante as aulas, o praticante enriquece sua noção corporal ao montar no cavalo, estimulando seu equilíbrio, força muscular e relaxamento, fatores que contribuem para o ganho de autonomia. No aspecto social, com a sensibilidade sensorial e emocional dos cavalos, a equoterapia é uma aliada na socialização e autoestima do praticante. Aqui, além de montadores, as pessoas participam ativamente da sua reabilitação à medida que interagem com o animal.

Segundo a Ande, (Associação Nacional de Equoterapia) a Equoterapia possui quatro programas adaptados para cada necessidade e potencialidade do praticante. A hipoterapia é um programa de reabilitação que, além da prática com o animal, também envolve atividades com psicólogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. A educação/reeducação aborda aspectos educacionais. Neste programa, participam pedagogos, psicopedagogos e educador físico, que atuam em algum transtorno de aprendizado. Já o pré-esportivo e o para-equestre são programas mais avançados, em que o praticante realiza exercícios de hipismo, podendo até participar de competições hípicas. Ambos mantêm também o caráter reabilitacional e educativo.   

Devido aos seus altos custos com os cuidados dos equinos, a equoterapia é um tratamento elitizado. As mensalidades mais baratas giram em média de seiscentos e oitenta reais, para uma sessão de trinta minutos uma vez por semana. Na contrapartida, o Coletivo Inclusão oferece a terapia gratuitamente, “o nosso objetivo é atender o pessoal de baixa renda, todas as pessoas que a gente atende estão em algum tipo de vulnerabilidade social” afirma Rossi. 

A iniciativa começou por meio de um projeto escrito pelo Coletivo para o Ministério da Saúde, que foi aprovado em 2018, e teve a duração de um ano, período em que atendeu oito praticantes. “Quando começamos, não tínhamos estrutura nenhuma. Era um pátio, um mato, uma grama, um cavalo cedido, fisioterapeuta, equitador e é isso.” relembra Caroline. Atualmente, o projeto atende quarenta e nove pessoas, e conta com patrocínio da rede de Postos Pelanda.  

Para melhor atender os praticantes e os equinos, o espaço atualmente está em reestruturação. O novo projeto comporta até cem pessoas e quatro cavalos, com atendimentos de segunda a sábado. Devido ao caráter terapêutico, os cavalos necessitam de uma série de cuidados especializados. O animal funciona como um intermediador entre o praticante e o auxiliador “A gente consegue fazer a leitura das pessoas com deficiência através do comportamento que o cavalo traz pra gente” expõe Caroline. Pensando nisso, o novo espaço do Coletivo conta com um piquete de sete mil metros para que os animais possam ficar soltos na natureza, respeitando seu instinto. “O comportamento de espécie é o que a gente está lutando e buscando aqui. O movimento, a força e a curiosidade desses cavalos são essenciais para que a terapia ocorra com sucesso. É importante que o animal esteja em um momento de bem-estar sempre e constante para que ele possa dar essa resposta pra gente do jeito que a gente precisa”. 

Ao serem bem cuidados os cavalos exercem sua sensibilidade aguçada, e assim sente o praticante e o ajudam a se reorganizar. “A gente usa essa sensibilidade também, não só do movimento tridimensional do cavalo, mas [também porque] muitos dos nossos praticantes não são verbais, então a comunicação é diferente com eles”, explica Caroline. 

Um território linguístico 

Na comunidade surda não existe o consenso de deficiência como “algo que falta”. Para eles, ser surdo é ter cultura própria, com a própria comunicação e expressão, que vai além da formação do aparelho auditivo. “Eles têm orgulho de serem surdos. Existe uma língua, uma questão cultural, é uma aprendizagem visual. Para eles, é mais uma questão social e identitária do que de deficiência, é uma vida normal. Aqui, na verdade, a maioria dos meus funcionários é surda, temos mais surdos do que ouvintes”, afirma a pedagoga Mariana Ravedutti, da escola bilíngue para surdos Ilza Santos, em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba (RMC).

Formada em pedagogia, se especializou na educação especial. Ela fez da educação para surdos sua principal área de atuação, em escola de ensino básico que tem como língua principal a Libras. 

A surdez — não como uma questão fisiológica da falta de audição e sim como identidade — começa no século XX, segundo Gavério: a diferença da língua é o que caracteriza a identidade desse grupo. Ao longo do século passado, as formações de nacionalidade estiveram ligadas a uma formação linguística. A língua que falamos não é uma mera ferramenta de comunicação, simboliza quem somos, o que pensamos, como nos colocamos no mundo — soma-se a isso uma unificação territorial. 

No entanto, a utilização da Libras, que permeia o senso identitário e comunitário de pessoas surdas, não é formada em um território. Gavério explica que não é possível exatamente delimitar hoje um território surdo, um território de pessoas surdas, mas sim um território linguístico, onde a Libras, ou a Língua Americana de Sinais, ou as tentativas de fazer uma língua de sinais que seja globalmente utilizada, constrói pertencimento comunitário, pertencimento identitário.

Além disso, segundo o especialista, pode haver desdobramentos entre as diferenças dentro da própria questão da deficiência. O quanto a comunidade surda faz parte da comunidade das pessoas com deficiência mesmo talvez não se identificando, em outros termos identitários, por exemplo, como a forma em que o Estado que as burocracias governamentais designam e classificam as pessoas. O sociólogo afirma que as pessoas são de fato definidas a partir de se reconhecerem ou não à comunidade surda, mas também são consideradas a partir da sua capacidade física, mental e sensorial. “Toda a produção cultural, artística e política que essa comunidade possui e o engajamento decorrente disso, é muito significativo e paradigmático ao se pensar a identidade”, pontua. 

Esse aspecto específico dos grupos de pessoas surdas é importante também para compreender como outras circunstâncias que poderiam ser consideradas deficiências são vistas de outra maneira. Gavério explica que há uma tensão em relação às próprias definições do que é deficiência: não existe uma língua específica dos cadeirantes, das pessoas que são amputadas, usando exemplos simples. Existe o Sistema Braille de leitura, para as pessoas cegas, mas que não configura uma comunicação alternativa como é o caso das pessoas surdas, segundo o pesquisador.  

O sociólogo ainda afirma que esses são alguns exemplos de como a dimensão da identidade é bastante “movediça”. “Quanto mais a gente começa a olhar para essas questões, daqueles que se dizem ser algo ou dizem não ser alguma coisa, a gente sempre vai aprofundando, achando mais elementos que vão tomando cada vez mais o nosso pensamento”, pondera.  

Eber passou pelo processo de se reconhecer como pessoa deficiente aos 21 anos. Para ele, esse entendimento passou por um ritual: “Acredito que vai além, não se encerra na reabilitação que vivenciei”. Ele explica que, em um primeiro momento, esse ritual “se estende por mais tempo; é lidar com a distorção da minha imagem. Antes eu era considerado uma pessoa normal, e depois, enfim, sou tratado como uma pessoa com deficiência.”

Também relata que o tema de pertencimento deve ir além da simples inclusão na sociedade. Trata-se de fazer parte de algo maior e ter a própria humanidade reconhecida. Para ele, a dança possui um caráter subversivo ao mundo “normalizado”: “A dança tem esse papel de questionar quem sou eu nesse mundo. Não sei se vou descobrir, mas que corpo é esse que tenho? E como esse corpo interage? Cria relações através da dança?”

O ensino bilíngue 

Para Mariana Ravedutti, se comunicar em Libras significa democratizar a informação, desde os meios mais básicos, como os recados do funcionamento da escola: “Tanto os funcionários como as crianças [na escola] são surdos. Eu vou dar um recado no café para os professores, tenho que dar em Libras. E as crianças, é um espaço de convivência delas, é onde elas se encontram, interagem, porque dentro de casa a maioria dos pais não sabe Libras.” 

A escola é um local de fortalecer vínculos, interpessoais e internos: “Eles já se encontram ali, naquele bater de olhos”, conta a pedagoga Ravedutti. O espaço acadêmico também é um refúgio para crianças que não tem dentro de casa a utilização da Libras: “historicamente na escola de surdos, a maioria dos pais são ouvintes. E a maioria não sabe se comunicar com o filho. São coisas rotineiras que a gente vê que os pais não se dão conta, porque eles não se comunicam com os filhos, e a escola oferece cursos de Libras.”

Estimativa veiculada pela Agência Brasil de Comunicação aponta que cerca de dois milhões de pessoas falam Libras no Brasil, número cinco vezes menor do que as mais de 10 milhões de pessoas que integram a comunidade surda no país — dessas, 2,7 milhões são surdas, ainda segundo dados do censo de 2010. Ravedutti comenta como casos de pais e mães não fluentes em Libras podem afetar o crescimento da criança: “Às vezes, a escola é o local onde as crianças vão ter acesso às informações que elas precisam. A conversa, perguntas, porque dentro de casa não há.” 

 A Ilíada em Libras

Jonatas Medeiros – Foto: Gilson Camargo

A Ilíada de Homero é um marco na literatura oral. No entanto, a tradução dos cantos para a Libras dentro da linguagem teatral ainda é pouco comum. A Companhia Iliadahomero e a Fluindo Libras, uma produtora cultural surda especializada na tradução para Libras em cinema e teatro, uniram-se para criar uma nova tradução dessa história ancestral. Jonatas Medeiros interpreta o poema em Libras nos palcos e conta que o processo de tradução da peça levou 10 anos, envolvendo imersão no texto e pesquisas para compreender o corpus linguístico da literatura grega em outro idioma, transmitido não pelo som, mas pelos sinais. A peça é dirigida por Rafaela Robel em parceria com Otávio Camargo. Rafaela é uma referência surda no estado do Paraná, tanto na área de ensino quanto nas militâncias em prol dos direitos surdos. Nos últimos 7 anos, ela tem se envolvido com a arte, em especial na produção da arte surda, incluindo a arte traduzida. O objetivo da companhia é apresentar esse texto para surdos e pensar a tradução de forma dialógica, o que, em consequência disso, dá nova vida ao texto de mais de 2.500 anos. 

Para Jonatas, a adaptação para Libras dos cantos possui uma dupla importância para a comunidade surda. E também é importante para a comunidade ouvinte, ou seja, para pessoas que não utilizam a língua de sinais. Jonatas comenta que “Para as pessoas que não utilizam a língua de sinais, é importante mostrar a visibilidade da língua para os ouvintes e, especialmente, desmistificar a ideia de que a língua de sinais é inferior à língua portuguesa”. Uma crença comum entre pessoas que não têm contato com a Libras e a comunidade surda é acreditar que a língua de sinais é incompleta, com lacunas. Historicamente, a língua de sinais foi marginalizada, considerada inferior às línguas orais e, posteriormente, à tecnologia da escrita. Essa visão se centrava no escrito como a verdade e na língua oral como a única forma de produção de conhecimento. Essa exclusão histórica das línguas de sinais impossibilitou a produção de muitos discursos e narrativas, bem como o acesso dos surdos a diferentes esferas sociais — a língua de sinais só pode se desenvolver nos espaços onde há sujeitos que a utilizam. 

Ao abordar a adaptação da obra “A Ilíada” para a Libras, é importante que os ouvintes reconheçam que a língua de sinais possui potencial acadêmico e literário e que é capaz de trabalhar com textos complexos. Para a comunidade surda, segundo Jonatas, a importância dessa adaptação vai além da valorização da língua de sinais: “É uma oportunidade de apresentar um novo repertório e promover a produção linguística em língua de sinais. É uma chance de explorar a mitologia grega, um campo pouco debatido nas línguas de sinais, especialmente no contexto educacional. A mitologia grega permeia a educação transversalmente, em diferentes disciplinas e fases de aprendizagem, com referências constantes.” Para ele, criar esse repertório em língua de sinais enriquece a língua e amplia a produção literária surda, o que provoca um impacto direto na formação de intérpretes e na educação de surdos, com o desenvolvimento de materiais e traduções, especialmente no âmbito educacional.

A língua dentro da comunidade surda possui importância do ponto de vista do elo, pois é capaz de unir essas pessoas e torná-las uma comunidade linguística e cultural. A língua em si é o que une diferentes identidades, é o que produz uma conexão de pertencimento a uma comunidade. Ela possibilita a estruturação do conhecimento e das ideias. 

De acordo com Jonatas, “acessar a língua é ter qualidade de vida”, mas faz a ressalva de que nem todos os surdos falam a língua de sinais,  embora todos devessem ter o direito de acessá-la. “Afinal, elogiamos a ideia de bilinguismo. Nas línguas orais, uma pessoa que fala português e inglês é prestigiada, é considerada poliglota. Então, por que negar a língua de sinais às pessoas surdas ou negar a língua de sinais para os ouvintes aprenderem?”, argumenta o artista.

Jonatas afirma, por fim, que as línguas condicionam nossa percepção do mundo, ou seja, quanto mais línguas, mais versões sobre a realidade existem a partir de uma determinada cultura. A língua é um ponto de identidade coletiva que interfere nas identidades individuais, e a individualidade interfere no macro e o macro interfere no micro.

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