sáb 23 out 2021
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Sim ou não às cotas, eis a questão

Em 2005, a Universidade Federal do Paraná viveu um momento decisivo. Foi neste ano que a instituição adotou o sistema de cotas raciais e sociais, uma ação afirmativa que tinha como objetivo dar mais oportunidades a negros e estudantes carentes advindos do sistema público de ensino de cursarem a universidade pública.
O primeiro vestibular com cotas ocorreu no fim do mesmo ano e, logo após a divulgação dos resultados, dezenas de estudantes entraram com ações na Justiça contra a Universidade. Segundo a linha de raciocí­nio da defesa desses alunos, o sistema fere um princí­pio constitucional, o de que todos os cidadãos brasileiros são iguais e têm direito às mesmas oportunidades, no caso, competirem de “igual para igual” por uma vaga na universidade pública. Além disso, afirmavam que tal método fere o princí­pio de meritocracia, e de que uma geração não deveria pagar pelos erros de gerações anteriores e pela pouca atenção que o Estado brasileiro dedica à educação. Afirmavam ainda que não havia legislação sobre o tema e que a universidade não tinha o poder de criar leis por conta própria.
Desde a implantação das cotas, mais de 100 estudantes entraram com liminar na Justiça contra a UFPR pedindo a revisão do vestibular. Entre os processos que já foram concluí­dos, a instituição não perdeu nenhum e, atualmente, não há novos processos questionando as cotas raciais, apenas as sociais.

O caso que ganhou a mí­dia

O caso mais famoso de uma ação contra a UFPR partiu da estudante de direito Elis Wandpapp Ceccato, que prestou vestibular para o curso de Direito no mesmo ano em que a universidade adotou as cotas. Sua pontuação foi superior à do terceiro colocado em cotas sociais, mas ela não foi aprovada. Elis decidiu então entrar com uma liminar na Justiça para que pudesse se matricular, enquanto começou o mesmo curso em uma faculdade particular de Curitiba.
No iní­cio desse ano, a estudante obteve decisão favorável, que obriga a UFPR a matriculá-la no curso sem que outro aluno precise ceder a vaga, o que causou um impasse. A universidade recorreu e o caso agora está sendo julgado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª região, em Porto Alegre. Em ações semelhantes movidas por alunos que se sentiram prejudicados pelas cotas, o TRF de Porto Alegre sempre deu ganho de causa às universidades, como foi o caso de uma ação coletiva movida por alunos contra a UFSC, em que a instituição de ensino superior catarinense ganhou a causa.

Livro

Três anos após o primeiro vestibular sob esse sistema, dois professores da UFPR, a advogada Dora Lúcia de Lima Bertúlio e o sociólogo Paulo Vinicius Baptista da Silva, e o advogado Evandro Charles Piza Duarte, tendo em mãos dados com o perfil de estudantes cotistas raciais e sobre a experiência da universidade no assunto, lançaram o livro “Cotas Raciais no Ensino Superior: entre o polí­tico e o jurí­dico”.
A obra traz artigos de especialistas e traça um perfil histórico, polí­tico e social do negro na sociedade brasileira, além de defender em suas páginas a importância de se criarem meios para que o negro tenha acesso ao ensino superior público e de qualidade. Segundo Paulo Vinicius Baptista da Silva, o objetivo do processo não é apenas colocar esse estudante na universidade, mas dar a ele condições de ascender socialmente. De acordo com ele, muitas dessas pessoas são as primeiras de suas famí­lias a cursar um ensino superior, e essa oportunidade de obter um diploma e empregos melhores dará a ele condições de melhorar efetivamente a sua vida e a de seus familiares.
Para explicar do que se trata a obra, que foi lançada no dia 23 de abril no Prédio Histórico da Santos Andrade, o Comunicação esteve presente no lançamento do livro e conversou também com Dora Lúcia Bertúlio. A professora discorreu sobre o que pensam os pesquisadores e professores que auxiliaram a universidade a adotar as ações afirmativas, e que continuam, junto ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da UFPR, uma campanha para que o estudante negro não só tenha acesso à universidade mas para que se mantenha dentro dela e tenha sua história e seus costumes mais estudados e valorizados pela academia.

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ENTREVISTA

Comunicação: Por que a UFPR decidiu adotar o sistema de cotas?
Dora Lúcia de Lima Bertúlio: Nós fizemos vários estudos. Desde 2001, o Estado brasileiro se comprometeu a implantar a polí­tica de ações afirmativas para diminuir o impacto do racismo na sociedade. Nesse perí­odo, a comunidade negra organizada já estava tentando, de alguma forma, fazer propostas de ações afirmativas no ensino superior, e a partir daí­ é que as reflexões foram crescendo. Em 2003, a UERJ adota o primeiro sistema de cotas e várias outras universidades começam a fazer estudos internos; e foi assim que começou na UFPR. Por certo que são pessoas militantes, e tanto o movimento negro quanto o movimento dos diretos humanos é que fizeram as primeiras pesquisas para que a universidade recebesse esse tipo de discussão e a incluí­sse na agenda. Foi a partir daí­ que esse debate foi sendo desenvolvido.

Comunicação: As idéias de cotas sociais e raciais vieram juntas?
Dora Lúcia: A primeira idéia foi a das cotas raciais. Toda a discussão tinha a ver com polí­ticas contra o racismo, que fossem impactantes e dessem à sociedade brasileira a possibilidade da reverter o quadro de racismo nacional. Nessa discussão, percebeu-se que algumas outras questões são tão prementes quanto a do negro. Além disso, há uma rejeição da sociedade com relação à população negra e é preciso acordos e alianças para se ter algum tipo de ganho.
A primeira aliança vislumbrada foi a questão das escolas públicas. Ela é um dos entraves ao entrar na faculdade. Um dos problemas é a falta de interação da escola pública de ensino fundamental e médio com a universidade. Nós usamos esses dois argumentos para propor à universidade a necessidade de que as escolas públicas também fossem contempladas com o processo, que ele desse conta de trazer os melhores do ensino público para a universidade, ao invés de ela buscar somente aqueles que tivessem treinamentos para o vestibular. Esse foi um ponto fundamental que usamos junto com a questão da população negra, que era o racismo.

Comunicação: O sistema de cotas expressa que 20% das vagas serão destinadas a negros, e 20%, a estudantes de escolas públicas. Com base em quais números referentes à população do Paraná foi possí­vel chegar a esse cálculo?
Dora Lúcia: 20% é só um número razoável. Não há relação com o número da população, nem com a vantagem ou desvantagem. Com relação à população negra, nós somos 45% do total. Fazer uma proporção de 45% é suicí­dio porque você mal consegue fazer uma proposta, ainda mais com percentual tão alto.
Então, fizemos o cálculo a partir daquilo que representa. Se pegarmos cursos como Agronomia, Direito, o que os 20% representam dá um percentual possí­vel de sensibilizar. Há possibilidade de sensibilizar alguém usando um curso de 100 vagas, em que 20 sejam reservadas. É mais fácil e há maior possibilidade de se trabalhar com esses números.
Mesmo quando se pensava nisso, a gente sempre imaginou que, em termos de realidade, para quem não tinha nada, 20% seria um percentual padrão aceitável. Há estados em que há de se ter mais de 20%, como na Bahia, que tem 80% da população negra. Mas no Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina há de haver um limite mí­nimo, que faça algum tipo de impacto. Não é porque em Santa Catarina o número de negros é baixa, que o número de cotas será de 5%, porque esse número é nada, não causa impacto. Então, deve-se pensar no todo e no particular, e fazer a união. Foi assim foi que chegamos ao número de 20%.

Comunicação: O procurador da República Davy Lincoln Rocha afirmou que “a reserva de vagas é caridade com o chapéu dos outros”. A ideologia das cotas é tirar de uns para dar para outros? Como ficam essas pessoas que perdem o direito à vaga?
Dora Lúcia: Em primeiro lugar, não sei de quem é o chapéu que ele está falando. Em segundo, caridade tem na igreja. Polí­ticas públicas não são caridosas. Projeto de casas populares não é caridade. É saber que a sociedade tem uma série de dificuldades. Quando se vive em sociedade deve-se fazer e agir como ser social, pensando em coletividade, quais questões se reservam para o individuo e quais se devem ceder para a coletividade. O que vai ser bom ou ruim não é a discussão. O importante é se o coletivo sai ganhando ou perdendo e, nesse caso, ele não sai perdendo.

Comunicação: A UFPR apóia e patrocina outras ações que visam à inclusão, como a promoção de cursinhos comunitários gratuitos para estudantes negros e carentes?
Dora Lúcia: É um conjunto de ações para dar conta do recado, caso contrário, não há êxito. Essas ações não são da universidade, são parcerias dela com organizações não-governamentais. Há várias ONGs que têm interesse, que possuem professores e voluntários e promovem cursos gratuitos mas eles não têm espaço. A universidade então faz convênio, nós cedemos espaço com toda a infra-estrutura e eles promovem o cursinho. Com isso, há um ganho significativo, o número de pessoas que entram para a universidade por meio desses projetos é bastante alto.

Comunicação: O vestibular da UFPR é dividido em duas fases. Por que apenas na segunda fase há a divisão entre cotistas e não-cotistas?

Dora Lúcia: A questão é pensar qual é a capacidade que a universidade busca e qual discussão foi feita. Nós fizemos vários estudos sobre vestibular e o que ele pretende, o que a instituição de ensino pretende. Nós vimos que há um número muito grande de candidatos para poucas vagas, e é preciso apertar a seleção, para que haja qualidade. Hoje nós temos um sistema de ensino superior falido e quando vêm as cotas, as pessoas se sentem restringidas, porque já era pouco e fica menos ainda. Mas fica menos para quem? Só se for para o branco, porque tem bastante para todo mundo. Por isso é um argumento confuso. Portanto, quando pensamos no melhor processo, vimos que não é possí­vel receber alunos que não têm condições de continuar. O processo da primeira fase é exatamente para nivelar. Todos que passam na primeira fase podem concluir o curso, conhecimento eles têm para isso. Na segunda fase é que acontecerá a seleção pelo número de vagas e aí­ entram as ações afirmativas.

Comunicação: Como evitar casos como aquele em que um rapaz foi declarado negro e teve direito a concorrer a uma vaga pelo sistema de cotas, e seu irmão gêmeo não, caso ocorrido na UnB? Declarar alguém negro, ou não, não é um processo subjetivo e sujeito a erros e preconceitos? Na UFPR, quem decide quem pode concorrer às cotas e quem não pode?
Dora Lúcia: Nós fazemos as entrevistas com as pessoas. Já aconteceram casos de um entrar e outro não, porque numa famí­lia mista pode ter um irmão negro e outro branco. No caso deles foi diferente. Na UnB, as inscrições são ou eram feitas no local. Não pode ser por internet. E quando a pessoa vai fazer a matrí­cula é tirada uma fotografia. Por aquela foto uma comissão seleciona quem é e quem não é negro. Mas na fotografia, dependendo da iluminação e outros fatores, pode não transparecer que a pessoa é negra mesmo sendo. E esses que não passam pela comissão são mandados para uma entrevista. No caso desses gêmeos, um passou por foto e outro pela entrevista.

Comunicação: Qual a diferença entre o sistema utilizado por universidades como a UEL, em que apenas negros de escolas públicas podem entrar nas cotas, e o sistema usado pela UFPR, em que há cotas para alunos de escolas públicas e cotas para negros, independentemente de terem estudado em escola pública?
A diferença é que a maioria das universidades, exceto UNB e UFPR, tem efetivamente vagas para negros enquanto as outras têm cotas para escola pública e, dentro dessas cotas, percentual para negros. Acredito que a melhor forma é ser restritivo para a população negra, mas já é melhor do que nada.

Comunicação: Mas nesse caso não há uma vantagem do negro de escola privada para o negro de escola pública?
Dora Lúcia: O problema não é só o estudo. Racismo é questão de comportamento, então há racismo em escola particular e escola pública. Quando se fala em escola pública, se fala em menor e maior qualidade de ensino. Enquanto para o negro são duas coisas: uma é a questão da qualidade, mas na escola privada o racismo vai existir da mesma forma, por isso as cotas especiais, para duas restrições.

Comunicação: Algumas universidades, como a Universidade de São Paulo (USP), adotaram um sistema diferenciado, o de um bônus de até 12% no vestibular da instituição para estudantes egressos de escolas públicas, além de prever a criação de uma prova que atesta a qualidade de ensino da rede estadual e confere pontos às escola e estudantes de maior desempenho. Essa não é uma alternativa mais sólida e menos polêmica do que as cotas?
Dora Lúcia: Não acho, porque os bônus são de impacto muito reduzido. Até hoje, a USP não explicou quantos entram pelo bônus, muito pelo contrário. No último informe do MEC ( Ministério da Educação), ela disse que o número de estudantes de escola pública caiu de 2006 para 2007. Eu não sei dizer qual o impacto disso, se o bônus pode ou não influir, mas quando se faz reserva de vagas, elas efetivamente colocam as pessoas na universidade. Não é probabilidade, é realidade. Para a situação brasileira, não cabe adotar paliativos, o bônus é paliativo e as cotas são um processo de maior resultado.

Comunicação: A assessoria da universidade afirma que a UFPR não tem mais sofrido processos que questionam a validade das cotas raciais, apenas das sociais. Isso significa que a sociedade paranaense está vendo com melhores olhos esse sistema ou é apenas resignação frente ao fato de que as cotas vieram pra ficar na UFPR? E quanto ao caso da estudante Elis Wandepap Cecatto, que não conseguiu se matricular em direito devido ao sistema de cotas e entrou na justiça?
Dora Lúcia: No primeiro ano, nós tivemos 78 ações, 11 delas ganharam aqui, mas perderam em Porto Alegre. A ação dessa menina é de 2005 e só saiu em 2008. A sentença saiu positiva para ela, mas o Tribunal disse que temos razão, ou seja, as ações da Universidade com cotas são constitucionais, legais, apropriadas, e cumprem um objetivo de acordo com a Constituição.

Comunicação: A universidade já se deparou com casos de alunos que sofreram discriminação racial ou de outro tipo por serem cotistas? O que fazer para evitar que isso aconteça?
Dora Lúcia: Isso sempre acontece, mas nunca é relatado oficialmente. Há relatos, mas de situações que ocorrem no cotidiano, principalmente com professores. Entre eles, há muitos que são racistas, que são contra as cotas e maltratam os alunos. O pessoal que é cotista relata, mas eles nunca dizem quem foi por medo de retaliação, especialmente por parte dos professores. Nós abrimos o 0800 para denúncias desse tipo, mas não recebemos nada oficial. O que a universidade tem como desafio é fazer campanhas para diminuir isso.

Comunicação: É real o medo de muitos alunos e estudiosos de que o profissional venha a sofrer discriminação no mercado de trabalho por ter sido cotista na universidade? Isso acontece ou tem chances de acontecer?
Dora Lúcia: Só se for por ser negro, e nesse caso ele sofre com ou sem cotas. Até hoje os negros sofrem, mas pelo menos daqui para frente, gostarí­amos que fosse diferente. Nós pretendemos que o preconceito diminua, mas isso não quer dizer que vai diminuir. Na Odontologia da UFPR, há algum tempo, um professor disse que depois das discussões de cotas é que ele descobriu porque o pessoal pobre que vai tratar dos dentes não quer ser tratado por africanos. Ele achava que era questão de gosto, mas não é. Até as cotas, praticamente os únicos negros dessa área eram africanos. Ou seja, a própria pobreza tem preconceito.

Comunicação: Qual é o perfil do cotista na UFPR? São pessoas que trabalham, precisam ajudar os pais no sustento da casa?
Dora Lúcia: A maioria trabalha, muitos já são donos de famí­lia. Os sociais, via de regra, têm um enorme poder aquisitivo, mais do que a concorrência geral. Há perfis de pessoas mais pobres, aquelas pobrezas extremas, que acontecem com ou sem cotistas. Há pessoas extremamente pobres tanto na concorrência geral quanto nas cotas. Sempre tiveram esses casos, por isso existe a casa do estudante, num processo do movimento estudantil para dar assistência estudantil. Era um número pequeno e com as cotas ficou maior. Nos cotistas sociais tem uma confusão porque se ele fez Escola Técnica, pode ser cotista social, e se estudou numa escola de um bairro qualquer também pode ser. É meio confuso, porque a escola técnica oferece um estudo melhor, mas a perfeição não existe.
Com relação à população negra, também. Muitos alunos negros têm mãe que é empregada e o patrão paga a escola do filho. Por isso não vale a pena fazer cotas para negros apenas de escolas públicas, porque há um número significativo de pessoas nessa situação. A maioria dos negros que tem estudo hoje em dia é porque recebeu ajuda do patrão. Muita gente investe nos empregados porque vê que a criança tem potencial. Isso é bem comum.

Comunicação: Depois de entrar na UFPR, quais os auxí­lios que esse aluno recebe da universidade? Há programas que ajudam o aluno a se sustentar durante o curso?
Dora Lúcia: Há bem poucos. Com a implantação das cotas, as bolsas aumentaram em mais de 30%. A Fundação Araucária atualmente dá bolsas para cotistas sociais e negros. A Funpar também tem um número de bolsas. Portanto, com as cotas, nós temos um número bem maior. Há também alguns projetos, programas de desenvolvimento, para atender melhor os estudantes, porque se sabe que já cotistas. Até mesmo no RU é possí­vel conseguir isenção, caso a pessoa comprove que não pode pagar.
Há ainda a implantação de um maior número de livros na biblioteca para poder atender a esses estudantes, que não podem comprar os livros de jeito algum. São questões que a universidade está aprendendo, não está perfeito, mas ela está aprendendo. Mesmo porque esse sistema de cotas é recente e todos estão procurando um ponto de consenso, o que seria mais interessante para o bem-estar do estudante.

Comunicação: A UFPR já sofreu ou percebe algum tipo de pressão das escolas particulares por ter adotado o sistema de cotas sociais?
Dora Lúcia: Há bastante. Aqui entre nós não houve esse tipo de processo porque tivemos um promotor que se colocou à frente em 2005 numa ação da Procuradoria da república. Mas em Florianópolis a própria associação das escolas entrou na justiça contra a universidade, há inclusive uma ação no Supremo (Tribunal Federal) e eles pressionam bastante.
Em Curitiba, o que houve foi que alguns cursinhos abriram bolsa para cotistas. Eles preparam os cotistas para que quando sejam aprovados, eles façam parte do colégio, para manter o ganho na hora de aprovação. Dessa forma o aluno e a escola saem ganhando.

Comunicação: No vestibular de 2007, algumas vagas raciais não chegaram a ser preenchidas, o que fez com que fossem direcionadas aos não-cotistas. Por que, mesmo com essa reserva, as vagas raciais não foram preenchidas? A questão da isenção de taxas, por exemplo, não poderia influenciar esse processo, já que muitas pessoas não se matriculam porque não podem pagar a taxa de inscrição?
Dora Lúcia: Nós não conseguimos preencher 50% das vagas. Isso significa que precisamos fazer campanhas mais autênticas, mais significativas para essa população. Nossas campanhas não chegam nos locais que têm maioria negra.
No caso da isenção, a quantidade também não é coberta. Sempre sobram vagas por falta de comunicação, as pessoas não sabem disso. Muitos não prestam vestibular porque não têm dinheiro, mas na primeira semana de matrí­culas é possí­vel fazer o pedido de isenção, depois há verificação e quando a necessidade é comprovada, o candidato fica isento do pagamento. A isenção é para todos, não tem a ver com cotas, é uma condição econômica.

Comunicação: No vestibular 2007, o número de cotistas sociais diminuiu de 10.248 para 9.029, enquanto que o número de cotistas raciais triplicou, chegando a 1.874. O que esses números significam e porque o número de cotistas sociais caiu?
Dora Lúcia: São processos. Há anos em que há 44 mil inscrições no geral, ou então 42 ou 46 mil. Não há explicação além disso.

Comunicação: Os defensores das cotas afirmam que exigir melhor qualidade da educação ao invés de defender as ações afirmativas é um pensamento enganoso, pois a melhoria da educação é algo a ser feito a médio e longo prazos, enquanto que o jovem negro e/ou pobre não pode esperar. Mas, mesmo que essa assertiva seja válida, ao mesmo tempo em que implantam as cotas, o governo vem trabalhando por medidas mais efetivas e de longo prazo, para que mais para frente as cotas não sejam necessárias?
Dora Lúcia: As polí­ticas educacionais brasileiras são péssimas com ou sem cotas. A discussão das cotas abriu novos horizontes no MEC para tentar reverter esse quadro. Campanhas contra o analfabetismo, da bolsa-escola agora estão aparecendo. Eles descobrem o Brasil, como se já não tivesse sido descoberto anteriormente. Quando começamos com essa discussão, várias polí­ticas do próprio MEC começaram a se preocupar com a má qualidade, ao contrário do que se dizia. O que acontece é que eles agora dão mais atenção à má qualidade de ensino.
O propósito é que as cotas sejam temporárias. Uma das coisas interessantes do processo é que ele vai formar alunos cotistas e haverá profissionais que tiveram o programa como responsável por sua formação. O que se espera é que pelo menos um número desses profissionais, quando estiverem no mercado de trabalho, pense nisso e sejam atuantes e conscientes de seu papel social.

Comunicação: Qual programa é mais efetivo, ProUni ou cotas? O primeiro coloca mais alunos no ensino superior, mas pode colaborar com o fortalecimento das instituições de ensino privadas, o segundo dá acesso a muitas pessoas a um ensino de qualidade e tradicional, mas é polêmico e nunca poderá dar conta de todo o contingente de negros e pobres que continuam à margem da educação superior.
Dora Lúcia: As cotas são mais efetivas, porque o aluno pode ter o melhor ensino, que está dentro da área pública. Com o ProUni, a população negra e pobre é jogada nas faculdades privadas e grande parte tem uma qualidade aquém da pública. Eu respeito o ProUni, acredito que ele ajuda muito, mas o processo pressupõe que os de menor qualidade existem para os pobres usarem, e ainda com ajuda do governo.

Comunicação: E como é a experiência com cotas para indí­genas? Que cenário os números apontam?
Dora Lúcia: Não são cotas, são vagas. Isso significa que não tiram das vagas, é vaga a mais. É um processo como o intercâmbio, por isso há um número mais reduzido, até porque a população é mais reduzida e mesmo assim é preciso pensar numa revisão, porque esse ano tivemos 7 vagas e mais de 100 candidatos. Há uma demanda, mas não sei se há discussão sobre isso.

Comunicação: Até quando o sistema das cotas será mantido na UFPR?
Dora Lúcia: Espera-se que seja mantido até 2014, é o que foi proposto no projeto. Depois, é preciso fazer uma avaliação. Mas creio que se quisermos modificar a estrutura de vida das pessoas, são necessários pelo menos 20 anos.

O Comunicação também conversou com algumas pessoas para saber sua opinião sobre o sistema de cotas:

Yalorixá Yá Gunan Dalzira Maria Aparecida, da Associação Cultural Omo Aye

Acredito que não precisarí­amos das cotas se o Brasil realmente fosse uma democracia racial. Nós não precisarí­amos disso após 500 anos, mas não há outro jeito, uma vez que não houve uma reparação. Entretanto, embora as cotas não preencham as expectativas dos negros, elas, em certo aspecto, tendem a melhorar o ní­vel acadêmico. Não vai equiparar em 10 anos, isso é impossí­vel, mas já há uma melhora.

Carla Franzin
Cotista social – Ciências Sociais

Eu acho que as cotas são bastante válidas, já que são um meio de se resgatarem todas as desigualdades existentes na sociedade brasileira. Não resolve 100%, aliás, nada resolve totalmente, mas diminui, ameniza a desigualdade.

Neli Gomes
Cotista racial – Ciências Sociais

A principal necessidade das ações afirmativas num no ensino superior é para que se veja a questão racial não como objeto, os outros estudando os negros, mas os negros falando da importância, em todos os ângulos de se trabalhar diversidade brasileira.
A mudança tem que vir de cima para baixo. Quando se tem um número de pessoas negras formadas, elas vão trazer mudanças no trabalho. É preciso ver que o negro é muito mais que samba, futebol, violência. A questão do racismo não é explí­cita. Não dizem “não vou entrar num elevador com um negro”. É mais algo como “não vou estudar, fazer um trabalho sobre negros”. É bem diluí­do, diferentemente dos Estados Unidos ou África do Sul. Aqui é mais por questões econômicas.

Nicolle Stoll Coelho
Estudante do 3º. ano do ensino médio

Mesmo estudando em escola pública, sou contra as cotas, tanto sociais quanto raciais. Creio que com esse sistema algumas pessoas despreparadas entram na faculdade, enquanto outras mais bem preparadas ficam de fora. Além disso, acho que é algo que, de imediato, não vai mudar nada.

Elaine Jéssica dos Santos
Estudante do 3º. ano do ensino médio

Sou a favor das cotas sociais, mas contra as raciais, porque as raciais só aumentam o preconceito. Já as cotas sociais ajudam pelo fato de que o ensino público é bem mais fraco do que o privado.
As cotas não resolvem muito porque ainda assim o número de estudantes de poder aquisitivo alto é bem maior que os de baixa renda.
Eu, mesmo podendo entrar nas cotas tanto raciais quanto sociais, pretendo fazer vestibular pela concorrência geral.

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Livro fala sobre a experiência de três anos da UFPR com o sistema de cotas raciais, e reúne dados sobre o perfil de estudante
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Autores afirmam que mais do que colocar estudante negro na universidade, cotas promovem mobilidade social
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