sáb 16 out 2021
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Super-poder do racismo é a invisibilidade

Miles Morales é o primeiro homem-aranha negro e existem expectativas de que um dia estreie nos cinemas (Foto: Reprodução)
Miles Morales é o primeiro homem-aranha negro e existem expectativas de que um dia estreie nos cinemas (Foto: Reprodução)

O novo homem-aranha é negro. Sim, o personagem que substitui Peter Parker dos quadrinhos, é Miles Morales um rapaz negro e latino. Entretanto, a representatividade para por aí. Na nova sequência de filmes do Homem Aranha, o ator escolhido é – pela terceira vez seguida – um ator branco. A negativa não é em relação ao talento do ator escolhido, mas pelos 15 anos de Aranha nas telas do cinema seguindo o padrão físico de atores: brancos. Existem argumentos que dirão que há super-heróis negros e por isso não é necessário descaracterizar outro. Mas quantos heróis negros listaremos, além do Super Choque e do Lanterna Verde? É um grande descompasso se comparar com a lista dos heróis brancos.

Esse é um dos problemas causados pelo racismo escondido nas nossas ações e falas. Racismo não é apenas o ato de agredir física ou verbalmente uma pessoa de minoria étnica, é também colocá-la em segundo plano, como vemos nesses casos. Várias pesquisas já foram feitas nesse campo, mas gosto de destacar a principal e umas das mais chocantes, o “Teste da Boneca“, realizado por Kenneth e Mamie Clark em 1940. O teste mostra que crianças apontam uma boneca branca como mais bonita e bondosa do que a boneca negra. Em 2005, Kiri Davis realizou o estudo novamente e chegou a resultados muito parecidos no documentário “A Girl Like Me” em que 15 das 21 crianças preferiam a boneca branca. Isso acontece porque parte do desenvolvimento das crianças é observar e aprender com o mundo a sua volta. É uma associação cerebral comum, feita por todos. Porém, isso não torna a mudança desnecessária, pois uma sociedade racista gera crianças racistas e quem formará a próxima geração são essas mesmas crianças.

Na mídia brasileira isso não é diferente. Segundo dados de 2013 do PNAD (Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios), mais de 50% da população brasileira é negra e ainda assim a novela ‘’Amor a vida’’ foi ao ar na Globo sem nenhum negro no elenco. Raramente a mídia representa a sociedade de todas as formas e quando tenta o estranhamento vem em seguida, munido de discursos de ódio, como aconteceu com a jornalista Maju Coutinho que foi vítima de diversos comentários racistas por ter se tornado a moça do tempo do Jornal Nacional.

Diretor do clipe de Taylor Swift diz que haviam negros nas filmagens, mas que raramente mostra os rostos da equipe (Foto: Reprodução)
Diretor do clipe de Taylor Swift diz que haviam negros nas filmagens, mas que raramente mostra os rostos da equipe em seus vídeos (Foto: Reprodução)

No final de agosto, a cantora Taylor Swift lançou o clipe da música “Wildest Dream” que foi filmado na África. A história se passa na gravação de um filme da década de 1950 em uma localidade não revelada do continente africano e envolve Taylor como atriz principal e outro ator contracenando com ela. Por incrível que pareça, o clipe não tem nenhum negro. Esse fato gerou diversas críticas a cantora pela falta de representatividade. O diretor do filme tentou se explicar dizendo que poderiam ser acusados de “imprecisão histórica”, visto que na época retratada negros não eram representados.

O mundo é mais diversificado em 2015. Posições aceitas décadas atrás não devem ser defendidas sob a bandeira de fidelidade. Um quadrinho ou vídeo, produzidos na década de 60 nos Estados Unidos, sem onde negros elencados, são compreensíveis pela situação social e histórica do país. Contudo, é impossível continuarmos pregando as mesmas falas do passado

A batalha é travada aos poucos e com algumas vitórias, como a de Viola Davis, primeira mulher negra a vencer o Emmy e Michael B. Jordan como Tocha-Humana negro.  Também existem derrotas, infelizmente numerosas, como as vistas em jornais, clipes de músicas, filmes e séries. Frente a isso, devemos lutar para que a representatividade dos negros cresça para podermos sonhar com o fim do racismo.

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