qui 21 out 2021
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Teatro com Mãos e fios

O teatro de bonecos engloba uma variedade de técnicas e estilos diferentes de representação. Sejam sombras chinesas, marionetes, fantoches, recursos multimídia, bonecos de luva ou manipulação livre, o gênero é marcado pela reinvenção. Isso se mostra em sua trajetória. Se antes era possível marcar uma temporada lotada em escolas e viver somente disso, hoje, se não fosse pelo incentivo cultural, dificilmente o teatro de bonecos se sustentaria.

Bonecos da Cia. Manoel Kobachuk
(Foto: Bruno Vieira)

“As companhias só sobrevivem com o apoio do governo com licitações, editais da Fundação Cultural, e coisas assim. Porque se você for montar espetáculo pra ir vender em escolinha você tá perdido” aponta Alejandro Domingues, 47. Alejandro é bonequeiro e ator pela companhia de teatro Manoel Kobachuk desde 1998. Antes já havia trabalhado durante três anos com Kobachuk, em 85, no ápice de sua carreira.

Domingues, ainda, ressalta a proximidade entre o teatro de bonecos e o teatro convencional, com atores. “A única diferença é que o bonequeiro não usa seu corpo, mas usa suas mãos, ele dá vida a um personagem que é um boneco de luva”, ressalta “mas um boneco, num espaço teatral dele, num cenário, tem que ser regido pelas regras do teatro.”

Mas enquanto uns sempre tiveram paixão pelo teatro de bonecos e já começaram nesse ramo, como Alejandro, outros sobreviventes dessa arte têm uma história diferente. Exemplo disso é a bonequeira e atriz de longa data, Olga Romero. Argentina, nascida na província de Córdoba, diz sempre ter se interessado, desde pequena, por artes em geral, especialmente as que envolviam atuação. A princípio sonhava em ser atriz de cinema e acabou caindo de paraquedas, por necessidade de trabalho, no elenco dos Títeres de Córdoba. “No começo eu não gostava muito, porque eu queria ficar na frente do palco fazendo minhas interpretações”, relembra Olga “foi assim que eu comecei com os bonecos, e é uma coisa que foi aos poucos me pegando”.

O incômodo era compartilhado pelo seu marido, também estudioso de teatro, que tinha raiz no tradicionalismo do teatro de bonecos. “Eu não queria ir atrás de um pano e ficar só mexendo os bonequinhos”, diz, rindo, Olga. O casal, com base em seus estudos de grandes nomes como Bertold Brecht e Samuel Beckett, aliando seus conhecimentos de outras técnicas como a mímica, experimentou e desenvolveu um estilo próprio.

Olga, depois de passar por grandes companhias como a Gralha Azul, há 22 anos tem preferência por fazer espetáculos solos, e diz não sentir mais as diferenças entre o teatro convencional e o de bonecos. “Mas também nunca deixo de ser atriz”, completa.

 

Da relação de fio e mão

Apesar das diferenças, algo em comum a vários bonequeiros é o fato de que eles mesmos constroem seus bonecos. São cria e criador, mas não partilham a mesma relação. Alejandro Domingues é exemplo de um relacionamento mais prático. “Eu pessoalmente não me apego, sou daqueles que desmonta bonecos e remonta pra fazer outros personagens” diz “em último caso a gente faz um boneco novo, mas tentamos guardar o mínimo possível”.

Mas se Alejandro é assim, ele mesmo repara que outros se afeiçoam demais aos seus bonecos, não conseguindo desmontá-los ou se desfazer deles de alguma forma. Olga Romero se aproxima mais desse perfil. Apesar de não chegar ao extremo de trabalhar com os mesmo personagens repetidas vezes só para não jogá-los fora.

“Eu tenho 22 espetáculos guardados na minha casa, são malas e malas e caixotes que não dá mais pra entrar e eu não consigo me desfazer”, comenta. Porém ela nega que a sua afeição seja algo que se assemelhe a uma relação maternal. O seu sentimentalismo provém da história de cada boneco e pela arte que eles representam. “Não é relação de filho e mãe, eu amo a arte que está contida neles”, finaliza.

Olga Romero em sua última peça “Leopoldo e a Montanha de Livros”
(Foto: Bruno Vieira)
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