qui 21 out 2021
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Um ensaio sobre o desejo

“Deita”, “roupa”, “vai”, “gira”, “me bate”, “diz teu nome”, “me abraça”, “sente”; e um dedo em riste em frente aos lábios selando um segredo incômodo com o público. Essas são as poucas palavras ditas na peça Transgressões da companhia Pia Fraus. Em Transgressões, a sexualidade, o desejo e o instinto humano são mostrados em todas as suas facetas por meio da expressão corporal. Num misto de teatro de bonecos, teatro convencional e balé, os quatro atores da peça se rendem e mergulham um no outro, explorando a natureza do desejo humano.

Não existe uma linearidade na peça. Ela não é uma história com começo, meio e fim, mas sim uma divisão entre vários atos diferentes. A obra trata de tabus e passeia por todas as esferas do desejo reprimido. O desenvolvimento se dá através da relação de dois casais de atores que entram numa cadeia de desejo, repreensão e dominação. Com o auxílio de bonecos, são apresentados os “fantasmas do nosso querer”, os nossos impulsos mais primitivos que escolhemos jogar debaixo do tapete – porque a realidade é bem mais “feia”. São várias as sequências que terminam com um dos personagens colocando o indicador em frente aos lábios como quem pede ao outro pra não dizer nada, para guardar segredo, para deixar desse jeito. Todo mundo sabe, mas ninguém diz.

“Nós buscamos fazer uma junção da expressão do ator com o boneco” – Beto Andretta, diretor da peça
(Foto: Divulgação – Festival de Teatro de Curitiba)

Nesse ponto, a peça dialoga, em alguns aspectos, com o conto “Vísceras” de Chuck Palahniuk. Ambos abordam essa face instintiva e selvagem da existência humana sem pudores, e tornam público a hipocrisia dos que negam e tentam reprimir esse desejo, como se ele não existisse. Todo mundo sente, todo mundo pulsa e vibra, mas o sexo nos tempos atuais é maquiado, é produzido. Transgressões traz à tona justamente a crueza do querer.

Mas até nessa crueza existe um lirismo inegável. O uso inteligente da expressão corporal mantém a sensação de que se está assistindo um balé durante a peça inteira. A dança e a trilha sonora são elementos-chave para a poética da apresentação. Mesmo nos momentos mais pesados e explícitos, é difícil não prender a respiração ao ver os quatro atores dançarem e interagirem entre si num jogo de entrega e submissão. Outro ponto chave que torna Transgressões extremamente peculiar é o uso dos bonecos. Quando entram em cena, os bonecos não são apenas manipulados para que se crie um outro personagem, eles viram uma extensão do corpo dos próprios atores. Chega a ser assombrosa a naturalidade e precisão com a qual os bonecos se movem e como ambos interagem entre si.

A direção da peça é coesa e ousada, e os atores impecáveis em todos os quesitos técnicos, apresentando sempre um preparo físico e psicológico intensos. Afinal, não é exatamente fácil fazer uma peça que aborde o tema da sexualidade de maneira tão franca e que se valha tanto da nudez e situações que, ao menos para boa parte dos atores, tem um “quê” constrangedor. Além disso, a peça não se perde em momentos de “vulgaridade”, o contraponto entre o visceral e o lírico criam um espetáculo balanceado e um fluxo natural na peça, em que tudo que está ali parece extremamente necessário para o argumento da obra.

Há quem torça o nariz para o experimentalismo por julgar que essa alcunha é sinônimo de prepotência e pretensão. Transgressões, por mais experimental que seja, não cai nesse pré-conceito. Aqui se trata de despir-se de todas as embalagens, maquiagens e máscaras para deixar somente a essência. Ao aceitarmos nossas próprias transgressões, nossos próprios desejos reprimidos, nos compreendemos melhor como seres humanos. Ao aceitarmos o que somos, nos tornamos libertos. Somos todos transgressores, no fundo, somos todos livres.

Visão do diretor

Beto Andretta, diretor da companhia Pia Fraus, comenta que, aos 30 anos de existência, a companhia vive um período de renascimento e renovação nas formas de se expressar. Transgressões é a prova viva disso. A peça teve um período de preparação de cinco meses e estreou no Festival de Teatro de Curitiba. Segundo o diretor, a resposta tem sido positiva: “É um espetáculo um pouquinho polêmico mas a maioria do público está curtindo e vivenciando. Mas o importante, independente da concordância ou não com o conteúdo, é a comunicação da emoção que a gente quer passar”.

O conceito da peça surgiu da ideia de fazer um espetáculo voltado para o público adulto no aniversário de 30 anos da Pia Fraus. Segundo Andretta, eles não tinham financiamento para fazer esse espetáculo, somente o acervo de bonecos da companhia. “O que nos motivou era a necessidade de se expressar nesse ponto de vista adulto, tratando da sexualidade”, diz, e completa “a dificuldade gera a criatividade e a gente aceitou o desafio”.

Para essa peça, foram usados bonecos antigos da companhia, alguns datando de 1989, de outros espetáculos. “São bonecos mais velhos que têm muita história, até o titulo Transgressões vem por causa disso. Nós transgredimos até a nossa própria história”, revela Andretta. Mas, segundo o diretor, a ideia era trabalhar não só com os bonecos, mas buscar deixar a expressão corporal como protagonista dentro da peça. Para isso, foi necessário um tipo de intérprete específico para o espetáculo: os quatro atores do elenco têm formação em balé e expressão corporal.

Andretta comenta também que não sente mais diferença ao trabalhar com o público adulto e o público infantil. “Tanto a criança quanto o adulto me interessam muito, no sentido de me expressar para eles”, diz. A Pia Fraus tem um foco especial nos espetáculos infantis, inclusive Transgressões e uma peça para crianças da companhia foram ensaiadas ao mesmo tempo, pelo mesmo elenco, o que foi um desafio para os atores, segundo o diretor. “O intérprete é isso, ele tem que estar preparado para mostrar as vísceras dele enquanto pessoa, se expor, e mostrar sua intimidade e ao mesmo tempo contar uma história super lúdica para crianças, sem trazer nada de lá pra cá e vice-versa”, finaliza.

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