seg 18 out 2021
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Um Jornal com a voz do Povo

 

Jornal “A Laje” é produzido pelo Movimento Nacional da População de Rua com auxílio de alunos da UFPR

 

A voz do Povo da rua. Mais que um slogan, essa é a função do jornal A Laje, produzido pelo Movimento Nacional de População de Rua (MNPR) em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação Popular da UFPR (Ncep). No mês de novembro, a publicação fez dois anos de existência, sempre defendendo a população de rua e lutando para a conscientização da sociedade em geral sobre as pessoas que vivem nessa condição. Denúncias, eventos do movimento, histórias de moradores de rua, textos e desenhos produzidos pelos próprios moradores fazem parte das edições. Ao todo, já foram impressos vinte jornais.

Em reuniões semanais, na sede do Centro Estadual de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua e Catadores de Materiais Recicláveis (MNPR), pessoas em situação de rua se reúnem para discutir pautas, dividir tarefas, coletar depoimentos e escrever material em conjunto. Muitos textos são desenvolvidos pelos próprios moradores de ruas. Já a produção, diagramação e reportagem são responsabilidades dos estudantes de jornalismo participantes do Ncep. A impressão é realizada de forma gratuita pelo sindicato parceiro do movimento. Ao todo são 1000 cópias por mês distribuídas pelos moradores de rua nas principais praças da cidade. “Queríamos representar essa população. A ideia é que a rua falasse”, revela o coordenador Nacional do MNPR no Paraná, Leonildo Monteiro.

Nos dois anos do projeto, muitas reportagens pautaram a grande mídia e promoveram mudanças positivas nos serviços ofertados à população de rua. Na 7ª edição, em maio de 2011, a matéria “S.O.S FAS” denunciou a má condição da sopa servida no albergue da Fundação de Ação Social (FAS). Na sequência, o contrato da empresa que fornecia alimentação foi cancelado e a Fundação contratou outra empresa. 

A Laje é a maneira que essa população tem de se expressar, em meio a uma sociedade que não vê suas necessidades e direitos”, diz uma das participantes do Ncep, Giulia Fontes.

Temas como conquistas do Movimento, informações como locais que oferecem comida e abrigo, histórias de quem superou a rua e colunas fixas fazem parte do conteúdo do jornal, entre elas: Entendendo (o) Direito, que explica alguma lei em palavras mais simples; Arte da Rua, uma seção para divulgação do trabalho de um artista da população de rua; e Se liga aí, meu irmão!, um espaço para opinião sobre assuntos polêmicos.

Denúncias sobre maus-tratos sofridos por policiais também são destaque na Laje. “Muitos moradores de rua sentem-se mais protegidos. Eles enxergam o jornal como um instrumento de lutas pelos seus direitos”, conta a membra do Ncep e integrante da equipe organizadora da Laje há cerca de um ano e meio, Francielly Schram. Para o coordenador municipal do MNPR, Frank Silva, o jornal é um instrumento de transformação social. “Não esperamos de braços cruzados a morte chegar, buscamos uma melhor condição de vida e o jornal é o único meio para conseguirmos isso. Conseguir respeito da sociedade e políticas públicas efetivas”, revela Frank, que continua em situação de rua.

Próximos passos do jornal

Uma intenção do Ncep é diminuir a atuação no projeto para que os próprios moradores de rua produzam integralmente o jornal. No entanto, a precariedade de recursos como computadores e falta de periodicidade dos participantes em situação de rua dificultam a capacitação das pessoas em situação de rua.

Com a nova sede, esta dificuldade pode reduzir-se e a criação do site (www.jornalalaje.moradoresderua.org.br) é mais um instrumento para matérias mais robustas e que agreguem um público diferente da população de rua, que auxilie na erradicação de violência e maus serviços a essa população. “Acredito que é uma forma de diminuir o preconceito que ainda ronda a sociedade, da pessoa em situação de rua como vagabunda, ladra e drogada. Podemos contar histórias e mostrar que, na rua, existem diversos talentos e pessoas que não tiveram oportunidades”, comenta Francielly.

Carlos Umberto, o pulga, membro do MNPR, contou que um projeto do jornal é circular além da região central e manter um diálogo mais certeiro com a população de rua. “A Laje é um jornal com a cara dos moradores e, por isso, precisa ter a nossa língua. Para isso, precisamos estar envolvidos e participar de todos os processos”, finaliza.

 

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