sex 03 abr 2026
HomeCulturaA tradição das refeições em família estão ameaçadas nas grandes cidades?

A tradição das refeições em família estão ameaçadas nas grandes cidades?

A rotina do mundo contemporâneo reconfigura antigos hábitos e pode ameaçar a cultura das refeições em conjunto, impactando a saúde e o vínculo familiar

O encontro familiar à mesa – definido pelo termo comensalidade – reunião que esteve na cultura brasileira por gerações, parece estar se tornando cada vez mais raro nas grandes metrópoles. Dentro do cenário contemporâneo, cuja rotina acelerada exige jornadas de trabalho cada vez mais extensas e implica na diminuição do horário de almoço, a tradição semanal de compartilhar vem diminuindo,  o que gera impactos sociais e psicológicos.

A iniciativa do projeto “The Family Dinner Project”, conduzida pela Universidade de Harvard, comprova por meio da compilação e avaliação de diversas pesquisas científicas que refeições em família são um fator importante capaz de gerar uma melhor saúde nutricional e psicossocial, especialmente para crianças e adolescentes, além de trazer benefícios acadêmicos e emocionais.

Maria Virginia Cremasco, pesquisadora e psicóloga, afirma que essa espécie de troca de laços sociais, configurada como uma divisão solidária da comida e do espaço, favorece a conexão e a comunhão social e destaca o reflexo negativo que o mundo moderno repercute na vida pessoal da população. De acordo com a pesquisadora, o individualismo cada vez mais expressivo acarreta na formação de um “indivíduo mais centrado e isolado, sem capacidade de dividir as suas angústias”, o que causa psicopatologias como a depressão, e sentimentos como a solidão e a tristeza. 

“O individualismo […] acarreta na formação de um indivíduo mais centrado e isolado, sem capacidade de dividir as suas angústias”

Maria Virginia Cremasco

A psicóloga destaca que no caso de adolescentes e crianças o cenário é mais complicado. Segundo ela, aqueles que compartilham desta faixa etária se formam a partir do laço social e do contato com o outro. Para Lucas Bonde, estudante universitário, esses momentos de comensalidade já não são mais costume em sua casa, por isso descobrir esse tipo de realidade na casa de outros familiares causou-lhe uma grande surpresa. Bonde comenta que achou “incrível a facilidade que todos tinham pra conversar entre si descontraidamente.”

“Na minha adolescência eu me sentia sozinho mesmo estando dentro de casa nos momentos de almoço (…) acredito que isso tenha feito com que eu tenha muita dificuldade em falar com eles.”

Lucas Bonde

Dados apresentados pelo National Center on Addiction and Substance Abuse, da Universidade Columbia,  por exemplo, apontam que adolescentes que fazem suas refeições familiares com frequência têm maior probabilidade de adquirirem uma boa relação com os pais, e a partir daí, as chances de estes utilizarem cannabis, álcool e tabaco declina.

Contudo, a especialista alerta que momentos comensais, em que a refeição é feita em conjunto não significam necessariamente um período de trocas, pois muitas vezes, por mais que a família esteja junta, a circulação de afeto não ocorre. Nessas situações, muitas vezes não há a abertura de um espaço livre para a expressão de opiniões diferentes. O diferencial é a qualidade das relações, espaços de troca e de alteridade que podem estar presentes em qualquer momento do dia, não sendo uma exclusividade das refeições. “Na minha adolescência eu me sentia sozinho mesmo estando dentro de casa nos momentos de almoço (…) acredito que isso tenha feito com que eu tenha muita dificuldade em falar com eles.”, afirma Lucas Bonde.

NOTÍCIAS RELACIONADAS
Acessar o conteúdo