sáb 16 out 2021
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A avó de dois milhões de netos

Com 73 anos, ela tem muito mais que seus cinco filhos biológicos. É também mãe de cerca de 95.00 gestantes e avó de mais de dois milhões de crianças com menos de seis anos. Fundadora da Pastoral da Criança, a catarinense, que hoje reside em Curitiba, Zilda Arns, desenvolve uma série de ações básicas em favor da gestante e do desenvolvimento integral da criança. É responsável por levar fé e vida, em forma de solidariedade e conhecimentos sobre saúde, nutrição, educação e cidadania para as comunidades mais pobres.
Por seu trabalho e esforço em prol das famí­lias carentes, a médica pediatra e sanitarista recebeu condecorações tais como: Woodrow Wilson, da Woodrow Wilson Fundation, em 2007; o Opus Prize, da Opus Prize Foundation (EUA),em 2006; Heroí­na da Saúde Pública das Américas (OPAS/2002); Personalidade Brasileira de Destaque no Trabalho em Prol da Saúde da Criança (Unicef/1988), dentre tantas outras. É Cidadã Honorária de 10 estados e 34 municí­pios e foi ainda indicada ao prêmio Nobel da Paz.
Atualmente, Arns se divide entre o trabalho na Pastoral da Criança e na Pastoral do Idoso, que recentemente fundou. Confira a entrevista exclusiva que a sanitarista concedeu ao Comunicação, na qual revela detalhes sobre sua rotina, vaidade e personalidade.

Comunicação: Como nasceu a idéia da Pastoral da Criança?

Zilda Arns: Esta história teve iní­cio em 1982, em Genebra, com uma conversa entre James Grandt, diretor executivo do Unicef e o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, durante uma reunião da ONU. James Grandt estava convencido de que a igreja poderia salvar milhares de crianças, se ensinasse às mães ações simples como preparar o soro oral para evitar a desidratação. Dom Paulo, meu irmão, me telefonou para falar da proposta e eu senti que estava sendo chamada por Deus para uma grande missão de vida. Expliquei a ele que, a partir da minha experiência em saúde pública, como médica pediatra e sanitarista, não bastava ensinar às mães a usarem o soro oral. Também seria preciso ensiná-las sobre o pré-natal, aleitamento materno, vigilância nutricional, vacinação, para que soubessem como cuidar dos seus filhos. Aprovada a proposta, o projeto-piloto foi implantado em Florestópolis, municí­pio que pertence a Arquiciocese de Londrina, no norte do estado do Paraná, que possuí­a um alto í­ndice de mortalidade infantil, 127 mortes por mil nascidos vivos.

Comunicação: Qual o papel interpretado pela mulher na sociedade atual, na sua opinião?
Arns: As mulheres avançaram muito nos últimos anos. Elas ultrapassaram os homens em anos de estudo, já que 57% das pessoas que concluem um curso universitário são mulheres. As mulheres vão continuar avançando, mas têm que saber equilibrar as tarefas profissionais com as responsabilidades com a famí­lia, com os filhos e com a comunidade de que fazem parte. Temos que valorizar as relações humanas, a fraternidade, dedicar tempo para a construção de um mundo mais justo, fraterno, onde haja paz.

Comunicação: A maioria dos projetos sociais é liderado por mulheres. Acredita que elas sejam mais engajadas socialmente que homens?
Arns: A inteligência da mulher é mais difusa, o que a ajuda a enxergar de forma mais ampla. Temos a vocação de cuidar da famí­lia, das crianças, do bem da comunidade. Isso contribui para que nos dediquemos mais ao trabalho social, na Pastoral da Criança 92% dos voluntários são mulheres. Elas, quando capacitadas e cientes de seus objetivos, têm força para promover a transformação social.

Comunicação: Sua história profissional colidiu com algum preconceito ou dificuldade pelo fato de ser mulher?
Arns: Enfrentei resistências em diferentes perí­odos da minha carreira, mas não pelo meu sexo, mas normalmente porque fazia propostas novas que conflitavam com interesses de alguns grupos. Quando iniciei a Pastoral da Criança, em 1983, por exemplo, estávamos no final do regime militar, e a proposta era criticada por muitas pessoas. Mesmo dentro da igreja, algumas pessoas achavam que pesar crianças e recuperar desnutridos, ensinar às mães como fazer o soro caseiro era papel do governo. Mas conseguimos reverter essas resistências com os resultados alcançados já nas primeiras experiências e com o apoio de bispos e religiosos que acreditavam no projeto, começamos a expandir o trabalho.

Comunicação: Quem são as mulheres hoje admiradas pela Dra. Zilda Arns?
Arns: Considero as lí­deres comunitárias da Pastoral da Criança as mulheres mais importantes do Brasil. Elas dedicam voluntariamente, em média, 24 horas mensais para levar mais fé e vida a 2 milhões de crianças e gestantes de todos os estado do Brasil. É gente assim que transforma a realidade social de nosso paí­s.

Comunicação: Cinco filhos e dez netos. Como conciliar a coordenação da Pastoral com a famí­lia e a vida pessoal?
Arns: Como viajo muito, preservo pelo menos os finais de semana para estar com a minha famí­lia. Reunimos filhos, genros, noras e netos na chácara onde moro, em Campo Largo, na região metropolitana de Curitiba. Também costumo passar as férias na praia, com a minha famí­lia. Quando estou em casa gosto de ouvir música e assistir filmes.

Comunicação: E ainda sobra tempo para a vaidade?
Arns: Claro. Eu gosto de me cuidar, de levar uma vida saudável. Preciso ter uma vida equilibrada para ter energia para todos os meus compromissos. Primeiramente cuido da minha alimentação, como muitas frutas todos os dias, tomo um bom café da manhã e procuro não comer muito à noite. Também faço caminhadas, sempre que posso e preservo meu horário de sono. Além disso, como tenho que dar muitas entrevistas, tirar fotos, procuro estar sempre com meu batom e escova de cabelo na bolsa.

A mulher Zilda Arns: mãe de cinco filhos e avó de dez netos
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Mulheres da Pastoral da Criança: as mais importantes do Brasil
Arquivo Pastoral da Criança
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