qui 29 set 2022
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Teatro curitibano resiste a dificuldades financeiras e falta de apoio governamental

Em ruas e nos palcos, artistas lutam para manter viva a cultura e a liberdade de expressão

O teatro em Curitiba busca formas de resistir e se manter ativo, mesmo enfrentando obstáculos financeiros e burocráticos. O capital cultural da cidade vive sob ameaça, uma vez que poucos artistas conseguem sobreviver trabalhando apenas na área. A seguir, confira os obstáculos enfrentados pela atividade teatral na capital paranaense.

Desincentivo

Não são só atores ou produtores, tudo que gira em torno da arte teatral passa por dificuldades. Teatros particulares por vezes não conseguem arrecadar bilheteria suficiente para pagar os artistas e passam a depender de incentivos do governo, como a antiga Lei Rouanet, hoje Lei Federal de Incentivo à cultura – constante alvo de desinformação e de ataques por políticos de direita.

A burocracia para conseguir permissões e auxílio monetário é um dos maiores problemas. A co-fundadora e atriz do grupo de teatro de rua Olho Rasteiro, Rana Moscheta, denuncia o extenso processo para conseguir se apresentar nas ruas de Curitiba.

“Para a gente apresentar a peça na Santos Andrade, precisamos de uma liberação da Fundação Cultural, sendo que a gente não tem nada a ver com a fundação. Precisamos também de uma carta de ciência da Universidade Federal do Paraná, falando que sabe que estamos usando a praça; precisamos ir ao Meio Ambiente, ao Urbanismo, pegar uma liberação pra uso de som, até pagamos uma taxa por ela. Além disso, depois temos que ir à Regional Matriz para emitir uma declaração que a gente pode usar o espaço”, expõe. “Nada disso pode ser feito online, que é outro defeito gigante, já que estamos no século XXI”.

Apresentação da peça “Hi, Breasil”, do grupo Olho Rasteiro, na praça Santos Andrade. Recebeu o prêmio especial no 39º Troféu Gralha Azul, em 2019. (Foto: Fernando Vettore)

Para conseguir acesso às leis de incentivo municipal e estadual, é preciso atingir uma nota de corte em cada projeto apresentado. Antigamente havia uma nota fixa e, assim que ela fosse atingida, era possível ir atrás de um patrocinador. Hoje, há um valor limitado pelo governo e, assim que os números chegam nesse teto, nenhum outro projeto pode captar recursos.

Ainda segundo Rana, um dos maiores problemas que o teatro de rua enfrenta é a inconsistência nas leis. “Eu acho que devia ter uma afrouxada nas leis sobre volume, porque é tudo muito arbitrário, sabe? Os músicos não podem tocar naquele volume, mas a loja pode estar com a caixa de som num volume muito mais alto”, denuncia.

Desgoverno

Muito se especulou sobre ditadura, preconceito e censura nos últimos meses, graças ao cenário de instabilidade política que o Brasil enfrenta. Isso impactou a arte e, após a censura de diversas peças como “Gritos”, “Abrazo” e “Lembro Todo Dia de Você”, em 2019, que continham temas que desagradam o presidente, como críticas ao regime militar e pautas LGBT, o medo aumentou.

A atriz, produtora teatral e co-fundadora do teatro Barracão EnCena em Curitiba, Mevelyn Gonçalves, afirma que a censura é bem possível de acontecer mesmo hoje. “O artista tem sido cada vez mais massacrado, sempre foi considerado marginal. Não é demagogia e pensar nisso é triste. O artista manifesta, é provocador, traz uma visão nova para as coisas”.

De acordo com a jornalista e atriz Rosane Alves, a censura ocorre pelo pensamento equivocado sobre arte que vem sendo estimulado. O teatro sofre mais por ser a atividade artística que os cidadãos têm menos conhecimento a respeito e também por ser questionador e reflexivo. Há inclusive o risco da autocensura por parte dos criadores, ao ficar com receio de criar algo que desagrade e possa ser censurado posteriormente.

Desapontamento

Viver da arte é o sonho de muitos, mas, no teatro, muitas vezes não passa disso. Os atores recebem enquanto estão ensaiando ou apresentando um espetáculo, porém assim que esse período termina, voltam a ficar desempregados. A pouca verba para leis de incentivo, que são as maiores responsáveis pelo pagamento dos artistas, não ajuda em nada a vida dos profissionais. Com isso, muitos se voltam para a parte técnica e para a produção. Vários se tornam professores nos teatros particulares, que ganham dinheiro dando aulas para compensar a falta de público.

Legenda: Aula de teatro terapêutico, para pessoas com dificuldade de comunicação, socialização ou que buscam o autoconhecimento. (Foto: Teatro Barracão EnCena)

Curitiba possui uma expressiva formação de atores – é conhecida como um lugar de onde saem grandes talentos. Grande parte da fama se deve à Faculdade Pública de Artes do Paraná (FAP), aos colégios de nível médio com cursos de teatro e à Universidade Federal do Paraná (UFPR), com graduação em produção cênica. Porém, assim que estão capacitados, os novos atores em seus grupos são dificilmente acolhidos e amparados por políticas governamentais, principalmente por conta da burocracia presente nelas. Assim, não conseguem manter uma produção frequente e trabalham na resistência, às vezes simultaneamente a outras áreas, para se manter.

Para o ator e diretor do Barracão EnCena, Juscelino Zillio, o teatro também sofre muito com a falta de público, pois não há divulgação apropriada e os concorrentes são grandes. Netflix, shoppings e cinemas passaram por cima, mas, segundo ele, a solução para esse cenário degradante existe e se resume no incentivo e no investimento do estado.

“Deveriam existir mais verbas para a lei de incentivo, além de o governo promover e liberar espaços para que os artistas possam fazer seus espetáculos, principalmente para o teatro de rua. Isso formaria plateia e o teatro voltaria a ter o público de antigamente”, defende.

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