qui 21 out 2021
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A luta pela saúde mental em Curitiba

“O serviço de atendimento à Saúde Mental em Curitiba é sofrível. Há mau atendimento e mau tratamento (…) Queremos mostrar para as pessoas de condições menos favorecidas que elas têm sim direitos e podem reclamar. A gente não pode receber como esmola aquilo que é de direito”, diz a fundadora da AADOM

Elma Suassuna de Oliveira, de 76 anos, conhece de perto os problemas da saúde mental em Curitiba. Viúva e mãe de três filhos que tiveram problemas de alcoolismo e transtorno bipolar, ela é fundadora e presidente da Associação de Apoio aos Portadores de Distúrbios de Ordem Mental (AADOM), uma organização não governamental e sem fins lucrativos que luta pelos direitos do indivíduo com transtorno mental.

No início de 2013, a mando do novo secretário municipal de saúde, Adriano Massuda, foi instaurado um grupo de trabalho para diagnóstico e reestruturação da rede de atenção à saúde mental no município, indicando que muitas mudanças estão por vir. Nesse contexto, Elma conta sua experiência com o tema, nos alertando sobre as principais dificuldades que uma mãe enfrenta para buscar tratamento a seus filhos com transtorno mental na cidade.

Jornal Comunicação: O que levou a senhora a se envolver com o tema da saúde mental?

Elma de Oliveira: Quando meu marido morreu, dois filhos meus estavam envolvidos com álcool. Coloquei-os numa clínica e os dois estão recuperados. O outro filho teve o mesmo problema, eu acreditei que isso estava relacionado somente ao alcoolismo e o encaminhei para uma clínica. Num belo dia, me disseram que não era só alcoolismo. Até achei que foi pouco ético a profissional me dizer por telefone: “Não, se fosse só alcoolismo era fácil, mas não é!”. Ele foi diagnosticado com bipolaridade. Abriu – se outro universo pra mim. O universo que eu adorava antes era ser professora de Microbiologia.

ComunicaçãoComo mãe, como foi a luta pela recuperação do seu filho?

Elma: Você imagina como a gente fica, né? Com esse acontecimento da vida dele eu comecei a interná-lo. Fiz internamento à força, involuntário, por conta própria. Ele fugia e vinha pra casa. O grande problema é essas pessoas aceitarem a realidade, como é difícil também outras pessoas estranhas aceitarem isso. Porque você olha para um deficiente físico, visual, auditivo e sente pena, porque reconhece que há uma deficiência. Já uma pessoa com transtorno mental você olha e vê uma pessoa inteira, você vê que a pessoa está bem. Quando acontece um desajuste dos neurônios deles e de produção de dopamina, noradrenalina, de adrenalina, de todas essas coisas, é então que ela tem os surtos. Então é muito difícil a pessoa aceitar. Ela diz “não, isso aí não é doença.” No caso desse meu filho, o transtorno psiquiátrico da bipolaridade é contornado com medicação, mas até eles aceitarem isso é muito difícil. E ao lado do transtorno apareceu a dependência química inicialmente do álcool, e depois as coisas foram aumentando, e ele não aceitava medicação. Eu dava a medicação e ele cuspia. Havia aqueles problemas de vaga em hospital e veio essa Lei 10.116, que encara como última alternativa o internamento, como se em psiquiatria não existisse urgência e emergência. Meu filho chegou até o crack. E esses indivíduos, viciados em crack, não têm ideia que podem sair desse poço. Um orgasmo seria a liberação da dopamina, a substância do prazer, em 100%. No crack é de 900%. Eles ficam naquela obsessão e então vêm os roubos, as mortes e as agressões na família. O meu filho roubou minhas coisas e vendeu para traficante. Eu tive que comprar meu anel de formatura do traficante e botei cadeado na porta do quarto dele. Ele arrebentou o cadeado e saiu. Viveu dois meses na rua. Eu deixei. Queria que ele soubesse o que é ter uma cama quente, uma refeição, o que é escolher dormir em baixo de uma marquise. Existem várias maneiras de amar, não é só passando a mão na cabeça. Não adianta. Às vezes a gente tem que tomar atitudes muito drásticas e foi o que fiz. Eu o internei por conta própria, porque não houve internamento para ele. Graças a Deus ele está bem. Ele está limpo. Foi difícil ele aceitar a própria condição de doente, aceitar tomar medicação todo dia. Agora ele está numa fase boa.

“Ele viveu dois meses na rua. Eu deixei. (…) Existem várias maneiras de amar, não é só passando a mão na cabeça. Não adianta. Às vezes a gente tem que tomar atitudes muito drásticas e foi o que fiz”.

 

Comunicação: Qual foi o principal motivo para a criação da AADOM?

Elma: Indignação. Com a série de internamentos que meu filho teve de passar eu comecei a ver a dificuldade das pessoas que passam por dificuldades sociais, econômicas e culturais. O serviço de atendimento à saúde mental em Curitiba é sofrível. Há mau atendimento e mau tratamento. Inclusive no Bom Retiro, que foi onde a AADOM começou, havia uma psicóloga que maltratava os pacientes. Existe um número enorme de leis que zelam pelo bem estar das pessoas e não estão sendo obedecidas. Então partimos para essa linha, pra gente fazer com que as leis sejam obedecidas. Estamos com uma boa parceria com o Ministério Público. Queremos mostrar para as pessoas de condições menos favorecidas que elas têm sim direitos e podem reclamar. A gente não pode receber como esmola aquilo que é de direito. As pessoas acham que tudo o que eu faço na AADOM é pelo meu filho, mas não é. Eu luto pela sociedade para que todos tenham direitos.

Comunicação: Quais foram as conquistas mais significativas da AADOM em Curitiba?

Elma: Acho que há uns três meses atrás o CAPS 3 surgiu em Curitiba. Com o fim dos hospitais psiquiátricos, o CAPS 3 seria o equivalente ao atendimento de urgência. Foi uma coisa que a gente batalhou muito pra que viesse, porque vem verba do Ministério da Saúde. E agora tem o CAPS 3, 24 horas. Tem CAPS para crianças, para adultos, para pessoas que realmente tem problema de alienação, para tudo.

Comunicação: A senhora é a favor do internamento compulsório?

Elma: Eu sou pelo internamento compulsório. Quando você vê uma pessoa na rua atropelada, você não pergunta para essa pessoa se ela quer se internar, você chama uma ambulância e manda levar. Em 2007, meu filho teve um delírio muito sério e estava longe daqui, porque queria morar sozinho. Ele foi então recolhido pela Fundação de Ação Social, a Fas, e o atendimento foi péssimo. A Fas o internou em um posto de atendimento 24 horas e às 22 horas me chamaram. Procurei por ele e a enfermeira simplesmente disse que ele provavelmente tinha fugido. No entanto, meu filho me encontrou e disse que estava vendo o irmão dele tocando na janela e zombando dele. Então deram um papelzinho em que estava escrito para que meu filho se apresentasse em um posto básico em até cinco dias. Então eu me pergunto: qual é a autonomia de uma pessoa que está drogada ou em surto psicótico? Se você liga pra Fas eles perguntam pra pessoa se ela quer ser internada. Se a pessoa responder que não quer a Fas deixa a pessoa ali. Em São Paulo fizeram uma lei para internamento compulsório, que é quando o indivíduo já está andando como “zumbi” e não é levado para cadeia, mas para ser tratado numa instituição que o tire daquele surto e veja tratamentos alternativos. Não adianta dizer a um indivíduo viciado em crack que ele vai ser tratado. Ele não vai querer, porque a obsessão dele é a pedra. O internamento compulsório é uma esperança para a família. Quantas vezes aparecem na mídia mães que acorrentavam o filho no pé da cama, prendem dentro de um quarto. Isto é desespero. É um amor pelo avesso, mas é amor. Porque ela preferia ver o filho preso, amarrado em casa do que vê-lo ir para a rua se drogar e ficar jogado na calçada. A meu ver, justiça e medicina têm que andar juntas. Isso é uma esperança pras mães. Depois que essa lei começou a atuar em São Paulo uma filha dopou o pai e o levou pra ser atendido, porque o pai não queria. Outras mães também procuraram o internamento para os filhos. E se um entre dez pacientes conseguir ficar limpo, já vale a pena. Porque se você chamar a polícia, nada será resolvido.

Comunicação: O que a nova gestão municipal precisa fazer para melhorar a rede de saúde mental em Curitiba?

Elma: Estou com muita esperança no Gustavo Fruet, porque a gestão anterior foi um vexame. Houve um incidente desagradável com meu filho e encaminhei um processo para a Procuradoria Geral da prefeitura, e o secretário de saúde da época me intimidou numa das reuniões, na frente de todo mundo, e ninguém abriu a boca pra me defender. Então ele fez uma ata. Um senhor que estava na primeira reunião se ofereceu como testemunha e então encaminhei esse processo pra Procuradoria informando o que tinha acontecido, o que ele tinha falado. Aí fiz uma sugestão de correção de ata. Eu tinha feito uma apresentação que apontava as fragilidades na saúde mental e ninguém comentou a apresentação. Só ele reclamou que eu estava fazendo denúncias e virou o jogo. Eu coloquei que o Fulano, ao invés de comentar a apresentação, sentiu-se ofendido com o processo. Esse processo foi arquivado por esse próprio secretário da comissão. Então na Procuradoria não deu certo. Fui falar com o promotor do Ministério Público, Marco Antônio Teixeira, e perguntei para ele todas essas coisas e vários outros questionamentos que tenho sobre a saúde mental. Foram nove páginas de reclamações. Quando eu reclamava nas reuniões mensais de comissão de saúde mental, as respostas eram evasivas, prontas. Sempre saíam pela tangente e era alegado que era sempre um fato pontual. E desse processo encaminhado ao Ministério Público foi aberto um inquérito administrativo que está lá desde 2007, mas está saindo. Já houve várias recomendações administrativas para a gestão passada.

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