ter 23 abr 2024
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A mobilidade a partir das emoções

Cartografia Afetiva é uma das oficinas da Feira Mobilidade Urbana Sustentável (MUS)

Por: Juliana Bueno e Luísa Souza

Nos grandes centros urbanos, o excesso de carros nas ruas tem se tornado um grande problema no que se refere à mobilidade e ao meio ambiente. Congestionamentos, vias compartilhadas, acessibilidade, poluição, entre outras questões têm preocupado coletivos e organizações que buscam em modais alternativos uma solução mais sustentável para a mobilidade nas grandes cidades. 

Na semana em que se comemora o Dia Mundial Sem Carro, são promovidas diversas ações para estimular a população a deixar o automóvel em casa e buscar uma outra forma de se locomover dentro do espaço urbano. Em Curitiba, a programação da 2° edição da Feira Mobilidade Urbana Sustentável (MUS), realizada nos dias 21/09 e 2309 na praça Santos Andrade, proporcionou aos visitantes um ambiente para a troca de experiências e debates com o objetivo de incentivar deslocamentos mais sustentáveis.

Dentre as atividades oferecidas pela Feira MUS, a oficina “Cartografia Afetiva: Experiências de bicicleta nas cidades” promoveu uma abordagem que combinou elementos da geografia, psicologia, sociologia e outras disciplinas para mapear as emoções, memórias e afetos de indivíduos ou grupos em relação a um determinado espaço.  

Participantes da oficina produzem mapa afetivo da cidade. Foto: Juliana Bueno

Talita Heleodoro, arquiteta urbanista que ministrou a oficina, é ciclista e faz parte do coletivo Articulação Mobilidade Popular (AMP). Ela explica que sempre se interessou pela cartografia afetiva e por essa visão das ruas da cidade através das experiências e sensações que elas proporcionam. “O mapeamento dessas sensações é uma ferramenta para você estar junto com outras pessoas trocando experiências, discutindo formas de representar diferentes dados num mapa”, explica a arquiteta. 

Durante a oficina foi colocado um mapa da cidade de Curitiba sobre a mesa para que os participantes marcassem os pontos nos quais tivessem memórias de sentimentos como felicidade, tristeza, medo, raiva, saudade, entre outros. Através dos relatos foram identificados pontos críticos como medo ao passar por ruas onde não há iluminação pública adequada, raiva em trechos movimentados onde os carros não respeitam as ciclofaixas, onde não há sinalização, pontos onde já ocorreram quedas e tristeza nos pontos onde a ciclofaixa acaba e onde há áreas extremamente urbanizadas sem áreas verdes.

Foram identificados também trechos que proporcionam sentimentos de felicidade em trajetos dentro de parques e que passam por feiras livres, em longos trechos providos de ciclofaixas, em locais bem sinalizados onde todos os modais circulam em harmonia, e ruas com bastante descidas. Sentimentos de saudade foram identificados em percursos que lembram a infância ou outras épocas e pessoas.  

Foto: Felipe Roehrig

Maria Tavares, servidora pública da Prefeitura de Curitiba, participou da oficina para debater as múltiplas formas de se representar as cidades, principalmente a partir da perspectiva do deslocamento. “A experiência de pessoas em outros lugares da cidade que eu não frequento, ou que frequento e experiencio de outra maneira, são formas de aprender sobre a cidade”, relata a participante. 

A engenheira Patrícia Monteiro disse que não conhecia a cartografia afetiva, que descobriu através da oficina. “A gente fica muito focado no mapa como recurso visual e essas outras sensações que emanam da cidade, elas também podem ser representadas. Essa possibilidade de pensar o mapa como um meio de representar não só a localização, mas também sensações e emoções é uma coisa que não tinha passado pela minha cabeça e que faz muito sentido”, afirma Patrícia. 

Lucas Fujiyama, que participa pela segunda vez da Feira MUS, sentiu pertencimento ao se juntar aos demais pedestres e ciclistas na oficina para discutir as vias da cidade: “Para fazer algo pelo que a gente realmente acredita é necessário juntar pessoas que pensem igual e que querem a mesma coisa, isso dá força pra gente continuar lutando pela cidade mais acessível, por todos aqui que vivem nela”, conta Lucas.

De acordo com Talita Heleodoro, o ganho maior é a troca de conhecimento construído em conjunto durante a oficina:

“Mesmo que seja algo efêmero, isso reverbera nas pessoas. O fato de cada um ter falado a sua experiência em determinados espaços, esse compartilhamento de sensações gera um novo conhecimento que permite explorar a cidade de outra maneira, a partir do relato de outra pessoa você acaba se interessando em experiências que habitualmente não têm contato ou não está acostumado”, conclui a arquiteta. 

Foto: Felipe Roehrig

O encerramento da Feira MUS ocorrerá no sábado (23/09) com programações no Velódromo Municipal e em outros pontos da cidade. Acesse mais detalhes nas redes sociais da Feira MUS @feiramus. 

Confira abaixo a reportagem em áudio produzida pelas repórteres Isabela Honorio e Luísa Druzik:

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