dom 21 abr 2024
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Da favela ao Maracanã: Nayara Bastos

A história da paranaense multicampeã que ganhou o mundo através do futebol

Meu nome é Nayara, jogo no Tottenham do Vila Guaíra. Jogo de segunda-volante — posição que auxilia na criação das jogadas e na ligação entre o meio-campo e o ataque.

Eu respiro futebol. Vivo futebol.

O futebol faz parte da minha vida desde que eu estava na barriga da minha mãe. Jogo bola desde que tinha meus cinco anos de idade, é uma vida inteira jogando bola. 

Sou da comunidade do Capanema. Comecei jogando desde criança, então minha relação com o futebol foi passando por etapas. Comecei jogando na rua e já joguei na seleção brasileira em campo e na seleção brasileira de Fut7 — modalidade de futebol disputada em gramado sintético, com dimensões reduzidas e com sete jogadores de cada lado. Disputei muitos campeonatos já.

Meu caminho para chegar aqui foi difícil. O futebol feminino nem sempre foi reconhecido como é agora, apesar de ainda existirem desigualdades. Nasci em 1988, né? Como já sou mais velha, vivi outros tempos. O futebol feminino cresceu muito, estamos vivendo uma boa fase agora, mas antigamente não tínhamos essa visibilidade. 

Essa diferença é muito complicada, às vezes até desanimadora. O salário do masculino é bem diferente do feminino, eles têm mais campeonatos, mais oportunidades… Por sermos mulheres, não temos acesso a esses recursos. Inclusive, isso dá para ver até nas coisas simples. Em viagens, geralmente, as mulheres ficam em alojamentos, enquanto os homens têm direito a um hotel. O tratamento sempre foi diferenciado.

A desigualdade chega a atrapalhar nosso desempenho como atleta. Eu não consigo sobreviver apenas do futebol, tenho que fazer outras coisas para dar conta. Faço taxas — serviços empregatícios sem vínculo com carteira assinada que, na maioria das vezes, ocorrem em restaurantes, lanchonetes e bares —, trabalho com tudo o que aparecer, porque só de futebol não dá para viver. E atrapalha, né? É um tempo que poderia estar treinando, me dedicando. Se tivesse investimentos para manter o futebol feminino como tem os que mantêm o masculino, seria mais fácil. Mas assim não tem condições de viver só de futebol. Talvez as meninas mais novas, que estão começando agora, consigam. Espero.

Apesar disso, meu foco é o futebol. Como eu disse, vivo e respiro o futebol. Treino todos os dias e tenho um projeto social para treinar crianças de 7 a 12 anos. Esse meu projeto começou no Capanema, mas hoje está no Tatuquara e se chama Rio Bonito. Tem mais de cem crianças por lá. Além disso, todo final de semana estou jogando. 

Minha família? Eles sempre estão em tudo. Cem por cento. Me acompanham e me apoiam, inclusive estão aqui hoje. Minha família e meus amigos respiram tudo isso junto comigo.

O futebol já me proporcionou muita coisa. Fui para Roma, Barcelona, Uruguai… Desde a favela até lá. Eu também vesti camisa do time com a maior torcida do mundo: o Flamengo. Em 2021, a equipe do Flamengo já estava montada, mas eles estavam aqui em Curitiba e eu jogava no União Ribeirão, eles me viram jogando e logo depois me convidaram para entrar no time. Não tem explicação, chega arrepiar botar aquela camisa. Foi um tempo muito lindo, o elenco era ótimo também e viajamos para muitos lugares. Fomos campeões do mundo. 

Da favela para o mundo, né? Isso tudo é um sonho realizado, sair da comunidade e ter esse caminho proporcionado pelo futebol. Foi através do Fut7 que conheci outros países e que cheguei onde estou hoje.

Hoje em dia, penso que já cheguei muito longe, já fui para muitos lugares. Como estou avançada na idade, meu futuro no futebol logo acaba. Mas não quero ficar longe do futebol nunca. Penso em manter meu projeto social, meu objetivo é ajudar e dar para essas crianças o que eu não tive na minha infância. 

Planejo continuar aqui: observar o futebol feminino crescer, chegar ao ponto de ver a igualdade com o masculino. Gosto de ver o que o futebol está proporcionando para as meninas agora. Sinto muita alegria em poder conviver com isso, elas muito mais do que eu. Vejo muitas meninas novas chegando e sei que elas vão brilhar muito ainda.

“Minhas maiores inspirações dentro e fora de campo são a Marta, a Cristiane, o Ronaldinho Gaúcho e, em especial, Thais Abatiá, uma amiga minha que joga junto comigo desde que comecei. É uma questão de admiração, para mim ela é a melhor jogadora”. Imagem: Flávia Cé Steil / Jornal Comunicação.

Essa é minha primeira participação na taça das favelas. Para nós é muito importante, porque tem muito talento nas comunidades e estar aqui é poder mostrar um pouco deles. Deixar visível para o mundo inteiro.

Hoje sai um gol. Um está bom, né? Vou mandar para a família. Com certeza.


Às 16h40, o juiz deu o seu apito final. A equipe de Nayara, Tottenham Vila Guaíra, venceu o Jardim Esplanada PG por 8 a 0. Embora tenha jogado com determinação e habilidade, a segunda-volante e líder do time não alcançou o gol esperado. Mas isso não é relevante. Afinal, o resultado classificou o time para a próxima fase, alimentando o sonho de Nayara de ser, pela primeira vez, campeã da Taça das Favelas 2023. 

A Taça das Favelas é um campeonato de futebol amador criado em 2012, e, hoje, é o maior campeonato inter-comunidades do mundo. O Paraná recebe sua quarta edição este ano. O evento é organizado pela Central Única das Favelas (CUFA) e conta com apoio do governo do Estado, por meio da Secretaria do Esporte, e faz parte do calendário oficial de eventos do Paraná. O objetivo da competição é fortalecer a inclusão e a diversidade no cenário esportivo, tornando-se uma inspiração e oportunidade para os jovens jogadores das comunidades. 

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