qui 21 out 2021
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Dando um rolê na Marcha da Maconha

A Marcha começou pontualmente às 16h20. (Foto: Gabriel Dietrich).
A Marcha começou pontualmente às 16h20.
(Foto: Gabriel Dietrich)

Domingo à tarde e o ônibus da linha Pinheirinho/Rui Barbosa estava lotado com jovens, a grande maioria aparentando ter menos de 18 anos. O que os movia e motivava ali era claro, nos olhos e no clima geral: era dia de Marcha da Maconha. Desembarcando na praça Rui Barbosa, duas garotas de dreads lideraram o grupo que se dirigia à Boca Maldita. Na praça Osório, os bancos eram ocupados por jovens que enrolavam seus baseados. Logo pensei: “o bagulho vai ser louco”.

Chegando à Boca Maldita, próximo das 16h, já havia uma multidão reunida. Enquanto integrantes da Marcha falavam em um megafone, passando instruções para a galera, uma garota trajando um vestido azul e com uma tatuagem de uma mulher nua fumando, com folhas de maconha ao seu redor, passou vendendo um bolo “mágico”. O calçadão estava ocupado por centenas de “rodas” e o número só aumentava.

Quase tropecei em uma faixa da Marcha estendida no chão. Ao lado dela, conversei com Thiago Kokot, integrante do BatuCannabis. O BatuCannabis é um bloco de samba que se apresenta no Carnaval e na Marcha todos os anos e que tem como objetivo “politizar o debate de uma forma lúdica, trazendo letras com uma mensagem pró-legalização”.

O bloco Batuccanabis animou a galera por todo o percurso. (Foto: Gabriel Dietrich).
O bloco BatuCanabis animou a galera por todo o percurso.
(Foto: Gabriel Dietrich)

Quando perguntei sobre a importância da Marcha, Kokot foi enfático: “Acho que esses espaços são pra mostrar que não somos poucos. Quando os maconheiros saem do armário mesmo, vão às ruas para gritar, eles se mostram para a sociedade e quebram com os estigmas. Por que a maior parte dos maconheiros vive suas vidas normalmente, trabalham, são pais de família, estudantes… É muito injusto querer criminalizar toda uma gama de usuários por causa de alguns poucos, fazendo o recorte de uma minoria”.

Às 16h20 em ponto, o BatuCannabis começou a tocar e a Marcha, a marchar. A fumaça subiu e uma névoa espessa e de aroma inconfundível tomou conta da Boca Maldita, acompanhando o deslocamento dos manifestantes como a fumaça de uma locomotiva. As formas de carburação eram muitas. Pude ver narguilés, bongs, cachimbos e baseados de todos os tamanhos. “Ô abre alas, pra Marcha passar, sou maconheiro, não posso negar, sou maconheiro, não posso negar!”, entoavam os manifestantes enquanto caminhavam pela Rua XV. Faixas de cores e mensagens diversas eram carregadas, contendo desde críticas à PM e à guerra contra as drogas até mensagens antimachistas.

Enquanto a Marcha atravessava a Avenida Marechal Floriano Peixoto, dois integrantes da organização estenderam uma faixa com os dizeres “Legaliza Curitiba” em frente aos carros. “Pode fumar a vontade, mas deixa eu passar, brother”, desabafou o motorista Vitor Hugo Azevedo, impaciente em seu carro lotado com a família. Seguindo em direção à praça Tiradentes, houve um princípio de empurra-empurra. Fui empurrado em direção aos canteiros de flores enquanto se ouviam gritos de “Hey, polícia, maconha é uma delícia”. A histeria logo foi contida e a polícia permanecia fora de vista.

No Paço da Liberdade, a caminhada deu uma pausa para ouvir um cara que falava no megafone sobre a ligação entre o proibicionismo e o extermínio da população jovem e negra nas periferias, defendendo a legalização.

Já na Rua Riachuelo consegui chegar pela primeira vez na parte da frente da Marcha, liderada pelo “Bloco das Mães”. Chegando à Praça 19 de Dezembro pude conversar com Daiane Kock, mãe de Guilherme, que sofre com epilepsia refratária e faz tratamento com canabidiol. O canabidiol é um componente da cannabis que tem se mostrado muito mais eficiente no tratamento da doença do que remédios sintéticos, mas que enfrenta diversas dificuldades para ser importado e não pode ser produzido no Brasil por questões burocráticas e devido à proibição.

O Bloco das Mães, que puxou o bonde, pauta o uso medicinal da cannabis por crianças que sofrem com epilepsia refratária e outras doenças. (Foto: Gabriel Dietrich).
O Bloco das Mães, que puxou o bonde, pauta o uso medicinal da cannabis por crianças que sofrem com epilepsia refratária e outras doenças.
(Foto: Gabriel Dietrich)

“A maconha para nós, que precisamos do uso medicinal, é qualidade de vida. A nossa família se reestruturou por conta do uso dela, que controlou as 80 convulsões que meu filho tinha por dia”, disse. Questionada sobre a Marcha, Daiane foi só elogios. “Achei fantástico. A acolhida foi fantástica, a preocupação com a gente e com as crianças. A organização realmente tem que acontecer, a sociedade tem que parar para pensar e parar de ser manipulada”.

Após passarem pela praça, os manifestantes entraram e fecharam a Av. Cândido de Abreu. Um homem que dirigia um carro importado passou buzinando e acenando para os manifestantes com o braço pra fora da janela, e chegando no Palácio Iguaçu, foram entoados gritos de “Fora Beto Richa”. Na área próxima às bandeiras do Paraná e do Brasil, dois policiais impediram a entrada dos manifestantes, mas não houve nenhum conflito físico.

Os cerca de 4 mil manifestantes da Marcha seguiram para o Palácio Iguaçu. (Foto: Gabriel Dietrich).
Os cerca de 4 mil manifestantes da Marcha seguiram para o Palácio Iguaçu.
(Foto: Gabriel Dietrich)

Sentado na escadaria em frente ao Palácio, enquanto o sol se escondia e a lua tomava seu lugar, conversei com Ramon Trauczynski, que participou pela primeira vez da Marcha e se declarou muito satisfeito com o movimento. “É muito importante mostrar a força quantitativa e a pluralidade dessa galera, para quebrar estereótipos. E mostrar para a sociedade dessa forma, através de movimentos organizados, que é diferente, que não é bem como se mostra na TV”. Ele também destacou que mesmo com pluralidade de grupos e “tribos” na Marcha, o movimento foi totalmente pacífico e sem conflitos. Apenas às 18h30 a multidão se dispersou.

Retornando para o Centro, passei ao lado de uma barraquinha de cachorro-quente que tinha 17 jovens na fila. Perguntei para Gene Vieve, que atendia na barraquinha, o que ela achava da Marcha e do movimento ali no momento. “Eu achei que foi bom, bem melhor que o ano passado, a galera toda unida, sem bagunça, sem fervo. Agora bateu uma fominha. O pessoal caminhou demais, tem que abastecer com água e alimento.” Sobre a legalização, Gene hesitou um pouco, mas se declarou a favor. “Deus deu o direito de cada um fazer o que quer. Não é verdade?!”, declarou.

Segui para o bar Villa Bambu, no Largo da Ordem. Lá, enquanto o “one-man band” Davi Henn tocava, encontrei a galera da organização da Marcha. O Lucas Andrade, membro da organização, me contou a história de um baseado que dois senhores idosos entregaram para eles, enrolado em uma “blunt” – folha de tabaco utilizada para enrolar cigarros grandes – e com uma folhinha de maconha amarrada. “Eles nos falaram que era da plantação deles, e que estavam muito felizes com o movimento. Falaram para continuarmos na luta e entregaram o presente”, disse.

Também conversei com James Kava, principal porta-voz da Marcha. Ele se mostrou bastante feliz pelos cerca de 4 mil manifestantes presentes e destacou as principais pautas do movimento: uso medicinal, recreacional e religioso da cannabis. Também falou sobre o respaldo legal do movimento, citando duas resoluções do Supremo Tribunal Federal que garantem a sua existência – a ADPF 187 e a ADI 4271.

“São proposições que concederam por unanimidade, por parte dos ministros, a legitimidade de estarmos na rua reivindicando uma nova política de drogas. Isso já esta mais do que aceito juridicamente. Só temos que nos manifestar de forma pacífica, pedagógica e civilizada, com bons interesses. Não querendo buscar o conflito, mas sempre o diálogo pedagógico”, encerrou.

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