dom 17 out 2021
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Discursos, polidez e o Brasil conservador

Contidos pelos financiadores e por um parcela do eleitorado, ouve-se “mais do mesmo” dos candidatos durante 45 dias de campanha oficial na Televisão e Rádio. (Fonte: Divulgação)
Contidos pelos financiadores e por um parcela do eleitorado, ouve-se “mais do mesmo” dos candidatos durante 45 dias de campanha oficial na Televisão e Rádio. (Fonte: Divulgação)

Se a Copa do Mundo achou que sairia soberana na memória do brasileiro sobre o ano de 2014, as eleições para presidente, deputado e senador mostraram que não. O período eleitoral veio para destronar a Copa das copas como evento de surpresas e vergonha diante dos direitos humanos. A chamada Festa da Democracia ganhou, se assim podemos dizer, dos inesquecíveis 7×1 e manifestações falidas jogando com ofensas, conservadorismo, ataques e inverdades despejadas.

Começando pela reta final, 2014 ficou responsável por eleger o Congresso Nacional mais conservador desde a redemocratização do país, na década de 1980. Mesmo que visível a contra-reforma que se molda no estilo Idade Média, o dado foi analisado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, o Diap. A Bancada religiosa conseguiu reeleger 38 deputados e eleger 14 novos e, entre policiais, militares e apresentadores de programas populares teremos 30 deputados para 2015.

Sonhamos que pautas como descriminalização da maconha, descriminalização do aborto, direitos básicos para a população LGBT poderiam ser discutidas com coerência nas instâncias do poder. Aí veio a verdade. Militares, ruralistas e religiosos ganharam a maioria na câmara e refletiram o que já nem deveria ser elemento surpresa: o Brasil é um país conservador, e ainda não é capaz de discutir racionalmente direitos básicos de quem não lhe interessa, e pior, despreza.

O que infelizmente destoa do Brasil é a parte progressista eleita para o Congresso. É muito significativo ver candidatos que levantaram a bandeira dos diretos humanos e de uma real reforma política durante suas campanhas conseguirem se eleger, como o deputado pelo PSOL Jean Wyllys, mas ainda frustante pensar que qualquer passo a frente dado por eles será apagado por uma maioria que compreende Celso Russomanno (PRB), Marco Feliciano (PSC) e Jair Bolsonaro (PP), por exemplo.

Mais do mesmo

Considerado polidez para quem admira o discurso de ódio do ex-candidato a presidência Levy Fidelix (PRTB), os discursos de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB) tinham um cuidado imenso para não tocar em assuntos polêmicos, e quando falados, recuavam em forma de medo, ou melhor, em forma de ameaçadores 140 caracteres. Na televisão, em nome do falar e não falar nada para agradar financiadores e uma parte do eleitorado, pautas relacionadas aos direitos humanos fizeram dos candidatos menores protagonistas da eleição, mostrando que a dança das cadeiras do período eleitoral não interfere nos vencedores dessa brincadeira. Afinal, Luciana Genro (PSOL), Eduardo Jorge (PV), Pastor Everaldo (PSC) e Levy Fidelix conseguiram juntos menos de 4% dos votos no 1° turno -sem dúvida, os movimentos sociais e a coerência agradeceram a porcentagem pequena direcionada aos candidatos do PSC e PRTB.

O assustador é que o eleitorado brasileiro se convenceu de que o período eleitoral é um show, e pior, um freak show. Quase não nos importamos que os três principais candidatos não puderam falar abertamente sobre temas importantes em nome do medo. Nos discursos, cansativos e infantis, a mudança ficou no terreno abstrato da fala e em lacunas preenchidas por ataques grotescos aos candidatos relevantes para a disputa final. Aí a polidez, que poderia ser usada de forma sensata, nem foi cogitada.

A candidatura de Marina Silva pelo PSB se mostrou inconsistente em diversas maneiras durante a campanha. O ativismo ambiental se tornou secundário ao insistir no que dizia ser a Nova Política. Marina não tinha cacife para sustentar esse palavrão. As propostas e postura volúveis desencorajaram seu voto, e a promessa de nova política acabou irritando o eleitorado brasileiro. Mas nem por isso o mérito dos ataques pode ser desconsiderado na virada do PSDB para o segundo turno. Dilma e Aécio queriam eliminar a ameaça e não pouparam marketing político agressivo para isso.

A lógica impiedosa de diálogo violento que marca o Brasil produziu nessa primeira etapa das eleições um vazio intelectual sofredor nos discursos dos candidatos. No segundo turno, Aécio e Dilma deveriam mostrar suas reais intenções com o trono brasileiro, e se diferenciarem pelos termos de condução política e ideológica que assumirão com o país se eleitos. Por enquanto, pouco disso foi feito. O vazio da onda conservadora parece instaurado.

 

 

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