qua 20 out 2021
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Desaparecimento de abelhas preocupa cientistas dos EUA e Europa

As abelhas africanizadas são as mais comuns nos apiários brasileiros, por serem mais resistentes elas têm a preferência dos apicultores
Foto: Monique Portela

As abelhas dos Estados Unidos começaram a desaparecer misteriosamente em 2006. Enxames inteiros saiam de suas colmeias e não voltavam mais, abandonando as tarefas. O fenômeno foi comprovado por cientistas e batizado de colony collapse disorder (síndrome do colapso da colônia, CCD). Entre 2012 e 2013, cerca de 31% das abelhas dos Estados Unidos sumiram, afetando consideravelmente a produção e o mercado alimentício. Foi o caso, por exemplo, do preço da amêndoa que aumentou 43% no ano passado. Além dos EUA, a Europa também apresentou a síndrome em grande escala.

O CCD é explicado por cientistas e especialistas pela presença do Vírus Israelense de Paralisia Aguda (em inglês, IAPV) que afeta o código genético das abelhas. Porém, segundo o professor de apicultura da UFPR, Adhemar Pegoraro, ainda há muito a ser considerado além do IAPV. Ele explica que o problema é resultado do enorme desequilíbrio ambiental em que o mundo se encontra. Esse fator é o pano de fundo que dá condições para outros fatores, como o IAPV, acontecerem. “As abelhas existem a mais de 80 bilhões de anos, adaptadas com uma vegetação diversificada, com o pólen, o mel e o néctar. A modificação da natureza pelo homem ao longo dos anos desequilibrou isso”, aponta Pegoraro.

Segundo estudos, o uso de pesticidas, principalmente os neonicotinoides, também contribui para o problema, pois a substância afeta não só os insetos considerados pragas, mas também as abelhas. A monocultura, produção de apenas um tipo de planta, dá aos polinizadores apenas um tipo de pólen e nutriente. As abelhas, então, acabam tendo a dieta limitada e, portanto, sofrem de desnutrição. Trata-se de um dano ao sistema imunológico do inseto, alerta o professor Pegoraro. Além disso, há o ácaro Varroa destrutor, que se prende às abelhas, suga a hemolinfa (o “sangue” dos insetos) e transmite vírus – há 19 tipos diferentes de viroses.

Situação no Brasil

No Brasil, casos de CCD não são tão comuns como no continente europeu e nos Estados Unidos. A diferença, explica o professor, está no fato de não usarmos tantas abelhas para fazer polinização, como os europeus e norte-americanos. De acordo com Pegoraro, o processo de polinização deixa as abelhas estressadas e sem nutrientes suficientes.

As maiores ameaças às abelhas no Brasil são os pesticidas e o ácaro Varroa destructor. Mas, se comparado aos Estados Unidos e à Europa, o número de casos é restrito. A diminuição foi constada no estado de Santa Catarina, com as abelhas que auxiliavam na polinização das plantações de maçã.

Abelhas para a sobrevivência

O sumiço das abelhas prejudica, além do meio ambiente, a vida dos apicultores que, dependem delas.
Foto: Acervo Apisommer

Em Curitiba e região metropolitana, estima-se que há aproximadamente dois mil apicultores, segundo o presidente da Associação Paranaense de Apicultores, Sebastião Gonzaga. Há mais de setenta anos em atividade, Paulo Sommer é um deles. Aos 85 anos, Sommer tem apiários para a produção de mel e derivados e esclarece que não houve problema nenhum com as abelhas. “Nós criamos abelhas africanizadas e elas são mais higiênicas e resistentes a doenças. Não houve nada de tão alarmante”, explica o apicultor.

Cerca de 90% das abelhas no Brasil são africanizadas. Trata-se de uma espécie que sofreu cruzamento, há mais de cinco décadas, tornando-se mais resistente e capaz de se reproduzir rapidamente.

A natureza cuida

Estima-se que as abelhas são responsáveis por 80% da polinização das plantas cultivadas do planeta, assim como polinizam dois terços dos alimentos que o mundo consome. Portanto, sem a ajuda das abelhas, haveria uma significativa diminuição na quantidade e qualidade desses alimentos produzidos. Consequentemente, o mercado mundial de alimentos sofreria uma desestabilização. Além de ser produtora de mel, elas proporcionam o trabalho de muitos apicultores que sobrevivem e dependem apenas da criação de abelhas.

O professor de apicultura da UFPR, Adhemar Pegoraro, alerta que o uso de produtos químicos para tratar abelhas que aparentam estar doentes deve ser descartado. Além de não resolverem nenhum problema, podem desvalorizar os produtos apícolas brasileiros. Essas mercadorias recebem preços diferenciados de até 30% a mais no mercado norte-americano e europeu. “A solução é deixar que a natureza cuide do que deve cuidar, manejar adequadamente as abelhas e tomar cuidados em relação aos produtos químicos”, assegura.

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