ter 26 out 2021
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Epitáfios virtuais

Página inicial do site Falecidos no Brasil oferece opção “Busca avançada de falecidos” e indica que mais de 13 milhões de pessoas já estão inscritas

Antigamente, quando alguém entrava em um processo de luto era comum que se usasse preto em sentimento pela partida de um ente querido. Às vezes, esse processo durava anos. As práticas mudaram, e agora, ao invés de se levar flores no cemitério, o mais adequado é deixar uma mensagem no perfil do falecido nas redes sociais.

Desde o ano passado, o Facebook passou a manter as páginas de pessoas mortas. A ideia apareceu quando um dos membros da equipe da empresa faleceu e surgiu a dúvida sobre o futuro desses tipo de perfis na rede. Com o vigor da nova política, no momento em que o site receber a informação de que a o dono da conta faleceu, não serão mais exibidos dados como status de relacionamento e e-mail para contato.  A intenção é de que o perfil se transforme em um memorial. Depois da mudança, só os amigos poderão ver a página e deixar mensagens e comentários.

A primeira impressão que se tem é que alimentar uma página de alguém que se foi é estranho ou até mesmo bizarro. A verdade é que o hábito, apesar de novo, pode ser comparado ao costume dos japoneses que deixam alimentos e pratos de comida nos túmulos de seus ancestrais. Para a antropóloga Sandra Jacqueline Stoll, o novo movimento é uma extensão das práticas de compartilhamento. ‘‘Por meio do Facebook as pessoas conseguem manifestar a dor e expressar o sentimento de perda’’ afirma. Sandra explica que, com as redes sociais, as pessoas não se sentem tão desamparadas nesse momento delicado. ‘‘É uma forma de preservar a memória, como um álbum de fotos e objetos’’ complementa.

A estudante Ana Luiza Mincache Donida perdeu o namorado há aproximadamente um ano. Para ela, quando se perde alguém próximo, a saudade e a vontade de conversar são os motivos que mais impulsionam na hora de manter o contato no Facebook. ‘‘Você sente uma necessidade imensa de conversar com a pessoa, e dizer tudo que ficou por dizer ou foi escondido’’ declara. Por outro lado, Ana Luiza conta que as mensagens foram mais comuns no início, e que com o passar do tempo fica mais difícil entrar em contato com a dor da perda. ‘‘A vida continua e nem todos compartilham da mesma dor, apenas na hora do choque e aceitação’‘ finaliza.

Se deixar mensagens na página do facebook de alguém que já morreu é uma forma homenagear publicamente a pessoa perdida, também pode ser uma forma de fugir do processo de aceitação.  A psicóloga Luciana Mazorra, especialista em casos de superação de luto, alerta deixar mensagens na página de um falecido, como se essa pessoa ainda estivesse aqui, é uma clara tentativa de fugir do enfrentamento da situação.  A psicóloga também explica que apesar de mensagens carinhosas ajudarem na aceitação, o envolvimento com os familiares e amigos é muito importante. ‘‘Receber o apoio de amigos e familiares somente por via virtual pode limitar um suporte mais próximo, acolhedor e importante para a superação da perda’’ afirma.

“Facebook” dos mortos

Criado em 2008 o site Falecidos no Brasil abriga mais de 13 milhões de cadastros de pessoas mortas. Por meio da criação de perfis, parentes e amigos podem prestar homenagens, postar fotos vídeos e recados para pessoas mortas. O objetivo do site é associar, com o tempo, todos os registros de cartórios de pessoas falecidas no país, uma espécie de cadastro nacional de óbitos.

Entre os serviços prestados gratuitamente estão a possibilidade de inclusão do nome e espaço para comentários e criação de árvore genealógica. Para os interessados em prestar algum tipo de homenagem, como postar uma foto, é necessário desembolsar de R$17 a R$490 (em uma única taxa). Com acesso livre, o site funciona também como uma ferramenta de busca de registros de óbito de parentes afastados e desaparecidos.

 

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