qui 29 fev 2024

O rolê PCD

Chega o fim de semana e com ele, a vontade de dar um rolê. Se você é um jovem que mora na capital, não vai demorar muito para encontrar uma lista de bares e baladas para curtir a noite com os amigos. É simples: decidir que tipo de som quer ouvir, se prefere algo mais intimista ou badalado, se você está mais a fim de dançar ou de sentar em uma mesa para trocar uma ideia. Agora é só combinar  a hora, se arrumar e sair. Diversão garantida. Agora, as dificuldades começam a aparecer caso você seja uma pessoa com deficiência (PcD).

Para quem tem mobilidade reduzida ou condições neurológicas atípicas, nem todo espaço é receptivo. Como sair e voltar para casa, como aproveitar o lugar escolhido, a música, a iluminação, e como interagir com as pessoas e o ambiente ao seu redor — todas as etapas do rolê passam a exigir uma pausa para pensar. Ao se deparar com bares e baladas que não estão prontos para receber qualquer tipo de público, o desafio é descobrir como aproveitar a saída, o que muitas vezes não é possível. Então parece melhor mandar mensagem para os amigos, dizer que não vai poder aparecer na hora e lugar marcados e encontrar algo para fazer em casa mesmo.

É um estigma. Pensar em estrutura para possibilitar o acesso de PcDs aos lugares geralmente não vai muito além das rampas de acessibilidade e elevadores em lugares públicos. Já para neurodivergentes — pessoas que possuem o processo de  desenvolvimento neurológico diferente do que é considerado padrão, como autismo e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) — a diversão muitas vezes é interrompida pela falta de infraestrutura e de informação sobre o que é necessário para atender a esse público no ambiente da vida noturna.

A arquitetura capacitista — que exclui pessoas com deficiência —, em locais planejados com escadas como único meio de acessar outros pisos, portas estreitas e banheiros não adaptados não é o único problema. A mesma lógica vale para a falta de alternativas para escapar das sensações incômodas experimentadas pelo público autista, como o som alto, luzes fortes e os ruídos das várias conversas se misturando, elementos típicos dos bares e baladas, que viram um acúmulo de informações no cérebro e de hiperestímulo, chegando a causar dor física.

O problema fica ainda maior com a falta de reconhecimento do lazer e da vida social como um direito, e não privilégio. “Quando alguém vê as pessoas com deficiência se divertindo”, explica o presidente da Associação dos Deficientes Físicos do Paraná (ADFP), Alexandre Salum de Oliveira, “a primeira coisa que se pensa é: ‘O que está fazendo aqui? Devia estar no hospital “‘. Alexandre ressalta que acessibilidade não trata apenas de garantir acesso físico aos lugares, mas também de criar um espaço inclusivo que PcDs possam frequentar sem sofrer preconceitos.

Situações desagradáveis

Ainda que se insiram na vida noturna como uma forma de socialização, pessoas com deficiência acabam descobrindo que geralmente a vida noturna não está preparada para elas. José Lucas Oliveira, 29 anos, nasceu com mielomeningocele e extrofia de cloaca. No Instagram, usa o apelido de Zé da Cadeira, e registra seus diversos rolês e algumas das situações que vive neles por conta de sua condição de cadeirante. Muitas vezes, o desafio começa no próprio caminho para o programa.

BOX: Mielomeningocele: malformação congênita da coluna vertebral do feto que ocorre no início da gravidez consistindo no não fechamento do tubo neural, do qual se origina o cérebro e a medula. Faz com que os ossos da coluna do bebê não se desenvolvam adequadamente.

Extrofia de cloaca: malformação congênita caracterizada por extrofia de órgãos do trato urinário, intestinal e genital.

José Lucas mora na região central de Curitiba, onde o sistema de transporte público atende seus principais destinos, incluindo os rolês que gosta de frequentar. O transporte público, porém, não é uma opção viável para ele. Ainda que a URBS diga orgulhosamente que Curitiba possui um dos maiores índices de acessibilidade do país, José Lucas não consegue sequer pegar um biarticulado na estação tubo mais próximo de sua casa: “O ponto que eu pego não tem elevador, então tem que ir para outro ponto, e aqui em Curitiba eles fizeram a logística aqui, né, que é cada ponto sim, ponto não tem adaptação”. Em outros casos, José Lucas já teve que esperar mais de três ônibus passarem, porque ou o elevador não estava funcionando ou o motorista e os raríssimos cobradores não eram capacitados para operá-lo: “Já cheguei a ficar preso também dentro do ônibus, porque muitas vezes o elevador funcionava quando eu subia e na hora de descer, daí tem que ficar esperando, ou enfim, tem que contar com a ajuda das pessoas”.

Os transportes por aplicativo são uma opção para José Lucas, mas nunca sozinho. “Muitas vezes, o motorista não sabe colocar cadeira de rodas no carro, não sabe me pegar pra colocar no carro também. Isso acaba machucando”, diz. Os amigos precisam estar junto para ajudar a desmontar a cadeira de rodas quando entram no carro e montá-la ao chegar no destino. O jeito então é ir de carona com o carro da família, que é adaptado para acomodá-lo. O direito ao lazer e socialização, e o direito à cidade como um todo, passa a depender de um veículo particular, que a maioria das pessoas com deficiência não possui.

Chegar no rolê é um desafio, mas pode ser o menor deles, a depender de onde se pretende passar a noite. José Lucas já deixou de ir a diversas baladas com os amigos por saber que não seria nada confortável estar lá. Por conta da falta de acessibilidade, por exemplo, frequentar uma das baladas mais populares em seu núcleo, a VU Bar, é algo fora de cogitação por sua arquitetura capacitista: “É uma escadaria do caramba, eu não fui porque eu sabia que eu já ia ter problemas”. Uma das poucas baladas que acaba sendo viável é a James Bar, que é mais plana e facilita a circulação de José Lucas, isto é, quando ela não está um pouco mais lotada, o que ocorre com frequência em uma das casas noturnas mais populares de Curitiba.

Ir a shows acaba sendo uma opção mais fácil de programa, já que em teoria a movimentação não é tão necessária para o público geral, mas nestes ambientes entra em jogo outro impeditivo: a falta de capacitação das equipes para tratar corretamente PcDs. Em mais de uma ocasião, José Lucas sentiu pessoalmente a falta de preparo destes eventos. Em uma delas, indo assistir a um show com sua irmã como acompanhante, além de um amigo deficiente visual e sua respectiva acompanhante, tiveram que enfrentar a produção do evento para fazer valer seu direito: “A gente chegou lá no local, mostramos nossos ingressos, e a pessoa da parte da produção falou que a minha irmã e a nossa amiga estavam se aproveitando da gente, que elas estavam com a gente só pra pegar lugar bom”. O direito de um acompanhante a pessoas com deficiência é assegurado por lei.

José Lucas nunca sofreu nenhuma demonstração direta de preconceito contra pessoas com deficiência em seus momentos de lazer, mas analisa que “quando o espaço não está adaptado propriamente, isso também é uma forma de preconceito, é uma forma também de você estar excluindo”. Na apresentação da banda britânica Coldplay, um dos maiores shows recebidos em Curitiba recentemente, este tipo de preconceito se mostrou ao subestimar a presença de PcDs. O ingresso de José Lucas lhe dava acesso à pista premium, lugar mais perto do palco. Chegando com leve atraso, porém, seu local foi negado com a simples desculpa de que não havia mais lugares para cadeirantes naquele setor por parte da organização: “Acabou que a gente foi colocado na área de cadeirante na pista (comum), que era muito atrás, então quase não deu pra enxergar direito”. Até o fechamento desta reportagem, a produção do evento não havia feito nenhuma proposta de reembolso.

Ao mesmo tempo, uma das melhores situações que José Lucas experienciou em rolês foi em um show também, no show do humorista Thiago Ventura, no Teatro Positivo, no fim de 2022: “Tinha lugar para cadeirante, a acompanhante estava do lado, enfim, se eu precisasse de banheiro, o banheiro estava adaptado, tudo certinho. A gente foi, se divertiu, rimos muito, voltamos pra casa e tipo, sem problema nenhum, sabe?”. Ele faz questão de pontuar os banheiros adaptados por estes serem uma das questões que mais o incomodam ao sair. A maioria dos bares e casas noturnas mais populares frequentados por seu círculo não possui banheiros adaptados corretamente. José Lucas já naturalizou estes impedimentos, a ponto de afirmar: “A maioria das vezes quando saio, já sei que vou me estressar”.

Mesmo quando se locomover não é nenhum problema, as dificuldades podem estar presentes o tempo todo. É o caso dos portadores de condições de desenvolvimento neurológico atípico. Dar um rolê quando se é neurodivergente muitas vezes é uma tarefa difícil. Os bares e baladas, com música alta, conversas diferentes se atropelando, luzes fortes, lotação são uma bomba de estímulos sensoriais — o que pode gerar sentimentos ansiosos e dor física. Esses sintomas são característicos do que a neurologia chama de distúrbio do processamento sensorial.

BOX: Distúrbio do Processamento Sensorial: alterações no desenvolvimento do sistema nervoso central que atingem o sistema sensorial e afetam a intensidade da percepção de sons, toques, texturas, aromas e luz.

Sentir desconforto ao ouvir som alto em uma balada ou não conseguir interagir com pessoas diferentes em uma festa parece ser remar contra a maré. Isso não quer dizer, contudo, que a vontade de sair para se divertir desapareça. O estudante universitário Caju Mielke, 27 anos, conta que não é de sair muito, mas não é por não gostar. Caju teve seu diagnóstico de TEA tardiamente, em 2020. Ele explica: “Eu tenho muita dificuldade de socialização. Antes eu saia bastante para tentar me enturmar, porque eu me sentia muito deslocado. Mas quando eu saía eu não aguentava porque tenho muita dificuldade com som e luz, porque tenho epilepsia também. Essas coisas me deixam bem mal”, explica.

Já o vestibulando Denzel Demétrio, 19 anos, sai para curtir com os amigos frequentemente. Ele define que seu rolê ideal é “qualquer coisa que envolva estar num lugar com bastante gente e que tenha álcool”. Denzel encontra na vida noturna uma forma de ignorar sua mente sempre hiperestimulada. Diagnosticado dentro do espectro autista aos 12 anos, ele conta que em sua cabeça sempre está tocando alguma música, ao mesmo tempo que pensa em algum projeto, e o que ele define como “muita coisa repetindo na minha cabeça, como se estivesse pesando”.

Mesmo que suas experiências em rolês sejam quase sempre positivas, questões sensoriais podem ser um problema. “Geralmente é um problema quando encosta alguma coisa ‘nojenta’ em mim. Se derrubam bebida em mim ou alguma coisa assim, na hora eu já travo e fico pensando: ‘Vou ter que limpar, vou ter que limpar’”, relata. Nem sempre fica na cara. O jovem conta que cresceu mascarando o que sentia, então está acostumado a fazer parecer que está confortável nesse tipo de situação.

Para a também universitária Alyss Colin, 23 anos, as dificuldades enfrentadas são as mesmas, e giram em torno da sensibilidade sensorial e da dor física causada por sons estridentes e luzes fortes: “Porque é tudo muito alto, tudo muito claro”. A neurologia explica esses desconfortos. A sensibilidade auditiva é um Transtorno do Processamento Sensorial, algo que deixa o cérebro com dificuldade para compreender, filtrar e escolher como reagir a alguns estímulos. Esse transtorno faz com que a pessoa fique mais sensível e seja fortemente afetada pelos sons do ambiente ou, até mesmo, os sons do próprio corpo. Já o incômodo com a claridade dos ambientes é resultado do excesso de sensibilidade à luz, o que faz com que o autista perceba as luzes mais intensamente.

Além da necessidade de escolher um lugar legal, o rolê não está completo sem pessoas. Aí surgem as dificuldades de socialização. Estar constantemente pensando no que dizer e como se está sendo percebido por outras pessoas é exaustivo. Caju compara a forma com que sua “bateria social” acaba mais rápido do que para pessoas neurotípicas com a de um personagem de videogame: “Eu acho que as conversas me esgotam muito rápido em ambientes onde eu já passo por hiperestimulação. Esgota minha energia, como se fosse a barrinha do The Sims, ela está viciada”.

Caju relata que essa dificuldade com interações têm afetado sua vida social na universidade. O estudante se mudou de Curitiba para Ponta Grossa para estudar, e na nova cidade, estabelecer novas relações nem sempre é fácil: “Todos os meus amigos se acostumaram com meu jeito. Mas agora que me mudei está muito difícil fazer amigos, porque ninguém entende que não é porque eu não consigo estar em determinado lugar, que eu não queira estar ali. Entendo que é difícil para os outros entenderem, mas eu não saberia como explicar”.

Os problemas com a vida social afetam pessoas com TEA principalmente na adolescência e no início da vida adulta, quando chega o momento de sair sozinho e criar seu próprio círculo social. É o que explica a psicóloga Rayrá Deliberador, especialista em autismo e que atende no Instituto Casa Rara, clínica focada em tratamento e acompanhamento de pessoas autistas em Curitiba: “O autismo está muito ligado às dificuldades sociais. Além do ambiente que não facilita muito por conta da sensibilidade auditiva ou com luzes, tem a questão da socialização mesmo. O olhar no olho, se interessar pelo outro, fazer perguntas para o outro”.

Nos anos de faculdade, frequentar os rolês é especialmente complicado por causa do tipo de ambiente escolhido. “Tem alguns casos que eu atendi em que o objetivo era justamente trabalhar as habilidades sociais do paciente. Eu estimulava muito que essas pessoas buscassem sair com outras do seu curso e idade. Mas isso é muito difícil, porque as pessoas dessa faixa etária vão muito para baladas ou lugares que não são agradáveis por conta das sensibilidades”, relata a doutora. Mesmo com as técnicas da psicologia aplicadas em sessão, as condições sensoriais dos bares e baladas não facilitam o trabalho da terapia. Caju conta sobre seus esforços para continuar a sair e acompanhar os rolês escolhidos pelos amigos: “Estou tentando voltar a sair de casa, mas é meio difícil. Às vezes vou no Bola 7. Eu não gosto muito do barulho, mas meus amigos gostam de lá, então, às vezes, eu vou e fico um pouquinho e depois saio”.

Já Alyss se considera um ponto fora da curva em relação aos seus amigos também autistas: “Gosto mais de lugares onde não tem muita gente que eu conheça, porque daí não me sinto obrigada a ficar conversando. Conversar em lugar com muito barulho e muita gente me incomoda, me deixa exausta. Mas, normalmente, meus amigos autistas preferem ir em lugares onde tenham só pessoas que eles conhecem. O meu caso é diferente”. Além disso, a jovem conta com o apoio de seu círculo de amizades, que não se incomodam ao ter que adaptar os planos da noite para deixá-la mais confortável. A psicóloga orienta que, principalmente nas primeiras saídas na adolescência, ter pessoas de confiança é essencial, por se tratar de uma quebra de rotina com situações imprevisíveis.

As experiências variam bastante. Se para Denzel estar rodeado por outras pessoas, com música alta e bebendo serve para distribuir o foco e  assim se acalmar, para Caju é algo que precisa ser feito com muita cautela, descobrindo e respeitando os próprios limites. O que é similar é a experiência com o consumo de bebidas alcoólicas. Denzel encontra no consumo de álcool, algo que relata fazer desde a adolescência, uma forma de soltar um pouco, já Caju, abandonou o hábito de beber após receber o diagnóstico. Apesar de considerar que tomar uns drinques ajudavam a aliviar a tensão e a sair mais, o excesso acabava lhe fazendo mal. Caju explica o porquê da decisão: “Quando tive o diagnóstico do autismo, eu decidi não me forçar mais a coisas que eu não suporto, e aí parei de beber. Mas é muito difícil eu me sentir bem nos lugares em geral. Eu gostava bastante de baladas quando eu saía, mas é muito ruim para mim ficar muito tempo em uma balada, principalmente agora que não bebo mais”.

Então por quê – e como – sair?

Com todos esses empecilhos, por que sair? Por que se expor ao desconforto, ao estresse e à dor, seja ela do tipo que for? Rayrá Deliberador ressalta o quanto estar em ambientes que estimulem o convívio social é importante para a formação pessoal de pacientes com TEA: “Dentro da terapia, estimulamos muito a prática, e que esse paciente saia e interaja. É como foi com a gente, pessoas típicas, na primeira vez em que saímos. É um ambiente novo em que a gente não está acostumado e não sabe o que pode acontecer e como se preparar”.

Os rolês, como visto, podem ser tão agradáveis para neurodivergentes quanto para neurotípicos, e há algumas técnicas que podem ser úteis para tornar as experiências — principalmente as iniciais, quando a pessoa ainda está se adaptando – mais confortáveis. O neurologista focado em autismo e TDAH em adultos Matheus Trilico explica que, apesar de não se saber ao certo o que causa os distúrbios sensoriais, existem medidas para amenizar as sobrecargas sensorial e social. “São medidas geralmente comportamentais para ajudar nisso. Quem ajuda nesse ponto é o terapeuta ocupacional, que vai trabalhar a integração sensorial, que é justamente tentar definir o perfil e determinar o que pode ser trabalhado para ajudar esse paciente”, conta o médico.

A doutora Rayrá reforça que é algo a ser resolvido na prática: “É exatamente o que fazemos na psicologia, criar mecanismos para que essas situações sejam mais respeitosas e tolerantes para essas pessoas. Sempre tento orientar para que se tenha uma pessoa de confiança, alguém que passe uma tranquilidade e tenha esse vínculo estabelecido e te dê uma força”. Na terapia com adolescentes, por exemplo, a interação social e questões como auto imagem e verbalização dos sentimentos é estimulada de forma leve e criativa, com um jogo de cartas terapêutico, o Conversinha Teen.

Ela ainda aponta que alguns apetrechos podem ajudar pessoas neurodivergentes a se sentirem mais confortáveis em ambientes com música e muitas pessoas falando. Abafadores por exemplo, comumente associados à imagem daqueles grandes utilizados no inverno em filmes de Natal, agora vêm em versões bem reduzidas e charmosas, que acabam lembrando até brincos. Desta forma, a pessoa consegue utilizá-los sem se destacar e atrair olhares e falas ignorantes, justamente o que procura evitar: “Ele dá o efeito de abafamento e tira o excesso de barulho muito alto, mas também permite que você converse e perceba melhor quem está perto de você”.

Outras estratégias que podem ser aproveitadas são procurar sobre o lugar que se planeja ir antes, com fotos em vídeos para se familiarizar com o local. Outra recomendação é buscar planos alternativos. “Por exemplo, se você foi convidado para um evento e não pode dizer ‘não’, é estabelecer um limite de até que horas ficar, e tentar buscar comportamentos alternativos para que essa situação não seja tão danosa — não é não ir e nem ficar além do limite, e sim, encontrar um meio termo”, explica a psicóloga.

 Alguns dos casos mais comuns vistos nos tratamentos de pessoas com TEA são jovens adultos que buscam se inserir na vida social universitária. Algo interessante na visão dela seriam programas em ambientes diversificados, como lugares abertos que tenham música mais baixa, barzinhos, ou rolês em casa em que o ambiente e som são mais controlados. Rayrá também pontua as baladas em que a música é individualizada em fones de ouvido, podendo ser regulada e assim se tornando mais confortável para pacientes com hipersensibilidade auditiva. Este tipo de balada, porém, ainda não existe em Curitiba.

Estrutura

As iniciativas para inclusão na vida noturna não precisam partir apenas dos neurodivergentes e PCDs que se inserem nestes espaços,  mas devem também ser estimuladas pelos estabelecimentos, que ao não oferecerem estrutura para receber estas pessoas já as estão excluindo da vivência. Por estrutura, não se entende somente a parte física, mas também profissionais capacitados para lidar com clientes em condições que fogem daquilo considerado “típico”. O presidente da ADFP, Alexandre Salum de Oliveira, define sua visão de o local ideal para um rolê acessível: “Um ambiente adequado não seria apenas um local acessível, mas sim que tenha pessoas qualificadas ali para atender todo o público PCD. Seja intérprete de libras, seja um ambiente com acesso, seja meios que possibilitem a essa pessoa frequentar todos os ambientes que são disponíveis para os clientes nesse local”.

A fim de entender o que um estabelecimento é obrigado a oferecer para ser considerado acessível, é importante observar o histórico da legislação sobre acessibilidade. A primeira lei voltada totalmente para a inclusão de PcDs no Brasil, é de 19 de dezembro de 2000. A Lei nº 10.098, conhecida como Lei de Acessibilidade, prevê a diminuição de barreiras e obstáculos nas vias e espaços públicos. Antes, o entendimento de inclusão de PcDs era mínimo e mesmo com o avanço da lei do ano 2000, o Estatuto da Pessoa com Deficiência só iria acontecer em 2015.

No caso dos bares e restaurantes, a Lei nº 10.098 estabelece condições estruturais bem específicas para a promoção da acessibilidade. Além das rampas e dos banheiros adaptados para PcDs, a legislação determina que pelo menos 5% das mesas do estabelecimento, sendo no mínimo uma, devem ser adaptadas e reservadas para pessoas com deficiência. A norma também regula os balcões de autosserviço que devem ter altura máxima de 1,15m — possibilitando seu uso por pessoas em cadeira de rodas. O tamanho dos espaços, para que uma pessoa com deficiência física possa se locomover de maneira confortável, também é regulamentado pela lei.

Contudo, a lei falha em atender pontos mais específicos da vida noturna. Logo de partida já se nota a ausência de algum ponto aborde casas noturnas, que não são obrigadas a oferecer medidas físicas de acessibilidade. Há exceções, como legislações estaduais ou municipais que assumem o papel que a legislação nacional é defasada. No Paraná e em Curitiba não há legislação deste tipo. Para Salum de Oliveira, a existência de estruturas básicas de acessibilidade é ponto central na inclusão de PcDs em casas noturnas, bares, etc.

Outro ponto relevante ignorado pela legislação brasileira é a inclusão de pessoas neurodivergentes em ambientes típicos da vida noturna. Com todos os pontos já mencionados, as baladas e bares seguem sendo extremamente hostis para estes indivíduos, que precisam se expor à dor para poderem usufruir de um direito básico. A inclusão destas pessoas em casas noturnas e afins, com medidas de redução de sons e luzes para amainar a hipersensibilidade passa a depender de iniciativas dos estabelecimentos. Fazer isso, porém, se mostra desvantajoso financeiramente, e, sem incentivos por parte do poder público, são raros os locais que se dispõem a fazer isto.

O direito dos PCDs

           
João Ayres Araldi de Oliveira é PCD e advogado especialista em casos de pessoas com deficiência e TEAs. Por conta de uma falta de oxigenação no cérebro durante a gestação e nascimento prematuro, João foi diagnosticado com hemiplegia cerebral. Esta condição causa uma alteração neurológica, que paralisa um dos lados do corpo. Araldi é advogado desde 2019 e abriu o seu escritório especializado em 2021. 
“O que me interessou nesta área foi esse interesse de ajudar a garantir seus direitos, os quais eu não tive… a entender como a sociedade estava moldada para pessoas com deficiência.”, explica o advogado.

Os casos são variados, vão desde situações envolvendo cotas nos concursos públicos até curatelas – quando uma pessoa atinge a maioridade, mas, por algum motivo, necessita de um curador para manifestar sua vontade – e tomadas de decisão apoiada. A busca pelos tratamentos para pessoas dentro do espectro autista, também é um caso bastante comum no escritório do advogado.
            Segundo João, o  Estatuto da Pessoa com Deficiência, de 2015, aliado às leis municipais, fez com que a acessibilidade e inclusão se tornassem mais presentes do que no passado. No entanto, o advogado realça que o estatuto só foi colocado em prática, de fato, em 2016, e que ainda há muito trabalho pela frente.“Na questão de rampas, elevadores, barras de apoio, etc. para PCDs, a gente encontra. Mas se formos falar na questão prática, das pessoas conseguirem se virar… dificilmente vamos achar.”, diz o jurista.
            De acordo com Araldi, não há nenhuma lei municipal, em Curitiba, que especifique que um restaurante ou qualquer estabelecimento que venda alimentos tenha um cardápio especial para pessoas autistas ou deficientes visuais, por exemplo.

O advogado relata uma situação que passou em uma casa de shows na capital paranaense. Por conta de sua condição, ele possui dificuldades na mobilidade de sua perna esquerda, o que acaba gerando dores na região. “Eu não consigo ficar muito tempo em pé, então eu preciso sentar, para evitar dores no meu joelho. Então pedi para eles um local para ficar sentado e acompanhar o show.”, relata.
            Os organizadores do evento não cederam sequer uma cadeira, alegando que ele “deveria ficar de pé, como todo mundo”. João não pode continuar no show e acabou indo embora. A situação foi resolvida fora da esfera judicial, com um acordo entre o especialista e a casa de shows, que garantiu, dali em diante, um local para pessoas PCDs poderem acompanhar os eventos da melhor forma.
            João Araldi diz que a maioria dos problemas podem ser resolvidos desta forma, com acordos extra-judiciais, mas ressalta que se for o caso, a pessoa deve buscar as vias legais para garantir os seus direitos. O jurista encerra afirmando que falta uma melhor regulamentação e fiscalização dos estabelecimentos e consciência por parte dos empresários, lojistas, etc. “A gente não precisa apenas do comporto para entrar, a gente precisa se sentir bem no local… é isso que eu vejo que falta.”, completa João.

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