“A produção não é feita para ficar na gaveta, mas para compartilhar com os outros”. Esta frase, dita pela zineira Bruna Gomes, representa um sentimento comum entre artistas da cena independente de Curitiba. Polo de quadrinhos, zines, prints, literatura e outras expressões artísticas autorais, produzidas, financiadas e distribuídas pelo próprio criador da obra, a cidade apresenta um grande, porém não tão disseminado, movimento de publicações que fogem do mercado convencional. 

A cena de arte independente de Curitiba é um meio para artistas locais dialogarem, comercializarem suas produções e se conectarem ao público. Enquanto forma de expressão mais livre e alternativa, este tipo de produção é realizada de forma orgânica, distanciada dos meios de produção em massa, que mobiliza artistas a uma cultura própria e conectada.


A cena artística é tão vasta quanto a própria capital. Em seus coletivos e organizações, fervilham produções de quadrinhos, literatura e zines. Para a estudante Ana Beatriz de Almeida, apreciadora de artistas como as quadrinistas Lark e KarmaLeão, consumir conteúdo local tem um quê a mais de identificação: “Como estamos aqui na cidade, temos um contato maior com elas. Tem essa conversa e esse diálogo com aquilo que elas produzem”, conta. 

As diferentes cenas

A cultura dos quadrinhos em Curitiba teve início nos anos 70, com a Grafipar, primeira editora de quadrinhos da cidade. Fundada em 1977, além de lançar no mercado um grande número de artistas gráficos, a nova publicadora atraiu muitos quadrinistas de outros estados brasileiros para a cidade, lançando luz sobre a produção local e expandindo-a. 

De acordo com o coordenador da Gibiteca de Curitiba, Fulvio Pacheco, a produção da editora chegou a vender mais de um milhão de obras por mês na época, consolidando-se como a maior do Brasil. Ainda que tenha funcionado até 1983, a Grafipar representou o início de uma cultura que permanece até hoje em Curitiba, a qual, segundo ele, é atualmente a segunda maior produção de quadrinhos do Brasil, atrás apenas de São Paulo.

Fruto deste período de consolidação dos quadrinhos com a Grafipar, a Gibiteca, fundada em 1982 e primeira do Brasil e do mundo, colabora na continuação de tal expressão artística, agora de forma mais independente. Segundo dados do local, estão cadastrados 273 quadrinistas, em sua maior parte responsáveis pelo próprio financiamento e distribuição dos próprios produtos. Além disso, o espaço também atua na formação de artistas. Atualmente são aproximadamente 600 alunos inscritos em 24 cursos diferentes.

A Gibiteca de Curitiba, espaço de formação e apoio a quadrinistas locais. Foto: Giuliano Boneti

Para além dos quadrinhos, as zines – livros normalmente feitos a partir de uma só folha A4 dobrada com ilustrações e mensagens – também dão as suas caras na cena independente. As zines se popularizaram pela produção e distribuição relativamente baratas e ganharam grande repercussão, principalmente no meio universitário por seu caráter “acessível e democrático”, como conceituado pela zineira e integrante do Coletivo Gororoba, Heloisa Prado.
O Gororoba – formado na Universidade Tecnológica do Paraná –, o Fuzuê – da Escola de Música e Belas Artes do Paraná –, e o Guriaz – da Universidade Positivo –, são grupos de estudantes que se reúnem para a produção de zines. Em um ambiente descontraído e livre de regras, os coletivos inovam na maneira de produzir arte independente, que geralmente têm como objetivo a arte em si, e não o lucro. Atuando em conjunto, os grupos ainda realizam eventos para efetivar trocas e estabelecer parcerias que fortalecem as produções. 

“A nossa ideia é publicar o que a gente quer ler” – Bárbara Tanaka, editora

Outra faceta da produção independente é a publicação de livros. Para a jornalista Bárbara Tanaka, coordenadora da Telaranha Edições, o ramo independente possibilita maior autonomia, liberdade artística e criativa. “A nossa ideia é publicar o que a gente quer ler”, resume a idealizadora, que iniciou a casa de publicação para colocar no mundo um livro póstumo de uma poeta e amiga. Quatro anos depois, a editora já publicou mais de 33 títulos e pretende terminar 2026 com 50 obras lançadas.


Em meio ao cenário de editoras tradicionais, a literatura independente busca  publicar títulos com propostas inventivas, tanto na questão do design físico quanto no conteúdo. “Gostamos de fazer um trabalho mais cuidadoso, identificar o que faz sentido com a nossa linha editorial e o que podemos fazer por aquela produção”, ressalta Tanaka.

Como vender o peixe?

O ecossistema, no entanto, não se apresenta tão favorável às publicações. Por ser um trabalho independente, muitos artistas dependem de recursos próprios e da ligação sólida com o público e colegas de profissão, mais presente em carreiras consolidadas, para que suas produções forneçam retornos financeiros. 

Segundo o quadrinista Matheus Adiers, o que tem início a partir de uma vontade própria e um gosto por criar pode enfrentar questões insustentáveis para se manter. “A publicação independente tem essa coisa de ‘será que isso vai dar um retorno?’, ‘será que essas horas que estou investindo vão voltar para mim eventualmente?’. Então tem aquilo de precisar transformar em algo que as pessoas queiram também”, explica.

“Se eu só fizer de graça, não é sustentável” – Mateus Adiers, zineiro e quadrinista

Para ele, torna-se necessário ter quem compre e, consequentemente, quem divulgue, que, no geral, acaba sendo ele mesmo. “Muita gente faz lançamento em lojas de quadrinhos ou na própria Gibiteca, onde nesses tempos tiveram lançamentos, coletivos, de vários quadrinhos. Então tem que pensar na parte de vender, se eu só fizer de graça, não é sustentável”, comenta.

Trabalho artístico de Mateus Adiers, mais conhecido na cena artística como Jobskyb. Foto: Giuliano Boneti

No caso das zines, o cenário é o mesmo. Para as integrantes do coletivo Gororoba, o trabalho não dá lucro, apenas se sustenta. Além disso, elas elaboram outros tipos de produtos para venda, como adesivos e patches – bottons feitos de tecido – de forma a arrecadar mais recursos. “Basicamente todo o dinheiro que conseguimos é para produzirmos mais”, afirma a zineira Heloisa Prado, participante do Gororoba.

A produtora cultural Ana Hupfer destaca que a arte independente é uma realidade muito complicada, com muitos riscos. Para ela, acaba existindo um movimento natural de desistência, “um cenário que vai se atualizando, mudando seus protagonistas, seus personagens, mas que segue sendo difícil. Existem iniciativas maravilhosas, mas as pessoas se cansam”, diz. Atrelada à sua linha de pesquisa, ela expõe a falta de políticas públicas de incentivo e continuidade como fatores que dificultam o trabalho de artistas independentes, ainda que haja uma resposta forte do público a favor dos projetos. 

Para os que desejam viver apenas da arte, o desafio é ainda maior. Fulvio compartilha a ideia de que a maior dificuldade dos quadrinistas que desejam seguir na área é a distribuição. Ele explica ainda que muitos tendem a trabalhar em outras ocupações, como dar aulas, conciliando estas com a arte. “Tem vários artistas da cidade que vivem só da produção de quadrinhos, mas é complicado. Tem que ter a disposição de viajar o Brasil inteiro para participar das feiras. É mais difícil ainda viver de quadrinhos só em Curitiba. Mas a maior parte faz esse movimento. E o tempo todo está acontecendo alguma feira”, explica.

Confira a zine produzida pelo Jornal Comunicação. Crédito: Ana Clara

Quem ajuda a fazer acontecer

Tais dificuldades ganharam contornos com a elaboração de projetos voltados para a valorização e divulgação da arte independente. Espaços de trocas artísticas, como a Gibiteca de Curitiba, e eventos de exposição, como a Bienal de Quadrinhos – que completou 8 anos em 2025 – e a Feira Mamute – feira gráfica que teve sua 7ª edição no ano passado –, evidenciam uma tentativa de institucionalizar o movimento artístico local.

“A Mamute tem um papel muito forte de, tanto promover a arte para um público diferente, criando um vínculo, uma ponte das pessoas com os artistas, como criar um costume de se comprar arte. A feira democratiza o consumo cultural para um público muito amplo e permite uma troca de ideias muito significativa, alterando a relação que as pessoas têm com a arte”, ressalta Hupfer, que também é uma das idealizadoras do projeto.

A Feira Mamute partiu do objetivo de ocupar uma carência de feiras criativas na cidade, principalmente devido a um certo retraimento da cultura artística, muito forte nos anos 1970 e 1980. Segundo a produtora cultural, Curitiba recebeu muito bem a iniciativa, com um público de aproximadamente 4 mil pessoas na primeira edição, em 2018. Em 2025, este número mais que dobrou, chegando a 10 mil visitantes e um total de 164 expositores. 

Várias pessoas me falam que nunca tiveram 13º e a Mamute é isso para elas – Ana Hupfer, idealizadora da Feira Mamute

Para os artistas independentes, grande parte dos inscritos como expositores na Feira Mamute, o evento tem ainda um significado maior, de geração de renda e de um espaço onde são devidamente apresentados. Só no ano passado, houve uma movimentação de mais de R$780 mil na venda de produtos artísticos. “Eu sinto que a Mamute já entrou na programação anual dos artistas da cidade. Muitos deles planejam o ano contando com a feira como fonte de renda. Várias pessoas me falam que nunca tiveram 13º e a Mamute é isso para elas. Ou que é boa parte da renda do ano”, explica Hupfer.

A cena de quadrinhos, por exemplo, é uma das impulsionadas por este tipo de evento. “Nos últimos anos, essa questão se organizou melhor pelas feiras. Além da Bienal de Quadrinhos, a maior de Curitiba, há outras que acontecem na cidade em que os artistas também vendem. Inclusive fora daqui, quase todas as grandes capitais têm eventos de quadrinhos e muitas vezes os quadrinistas viajam para essas feiras pela maior demanda. Então isso ajudou para que a produção esteja cada vez maior”, comenta Fulvio.

“Nas feiras tem muito uma questão de proximidade, de tornar tudo mais palpável e possível. Eu faço quadrinhos hoje porque vi uma pessoa que é como eu, ‘gente como a gente’ fazendo e pensei: ‘eu posso fazer também’. Isto é básico mas às vezes precisamos deste tipo de contato para perceber de fato”, relata a quadrinista Lark, que atualmente soma mais de 95 mil seguidores nas redes sociais.

Foi em uma de suas participações como expositora na Feira Mamute que ela teve o primeiro contato com a editora que publicaria futuramente alguns de seus livros.

Tais iniciativas, em grande parte, contam com a colaboração da própria Gibiteca. O espaço, além de concentrar obras e realizar cursos, apresenta o meio de quadrinhos local a novos públicos. Anualmente, a Gibiteca é responsável por realizar um edital de incentivo para viabilizar a publicação de dez quadrinhos locais. Além disso, possui envolvimento direto com a Bienal de Quadrinhos e outros eventos gráficos, que, a partir da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), fazem a ponte com os locais da cidade destinados a tais eventos.

A cena de publicações independentes envolve, entre outros produtos, quadrinhos, livros e zines. Foto: Giuliano Boneti

Viver da arte independente

Ainda que conte com incentivos da arte convencional e da vinculação a editoras, a maior parte das produções de Curitiba é feita de forma independente, segundo Fulvio Pacheco. Mesmo com dificuldades, o modelo pode ser mais vantajoso para muitos artistas. Lark explica que iniciou sua carreira artística junto a uma editora, mas teve que seguir no modelo independente devido a uma necessidade. O retorno financeiro que obtinha com o selo editorial não permitia que se mantivesse somente na atividade. 

“As pessoas que vão publicar por editora e viver só disso terão muitos títulos, com ampla venda e distribuição. Mas quando você é um artista menor, você não consegue se manter só com isso. Com a publicação independente você tem todo o trabalho da editora, mas também tem todo o lucro”, relata. Ainda assim, conta que gostaria de poder delegar as funções adicionais que o trabalho exige.

Atualmente a quadrinista consegue viver de sua produção artística. Tal possibilidade se deve, em grande parte, ao financiamento coletivo, modelo que adota para as publicações. Antes de elaborar um livro, Lark anuncia a ideia para o seu público e pede apoio. “Esse apoio é, na verdade, como se a pessoa estivesse comprando o livro antes de ele existir. Eu estabeleço uma meta financeira que, se atingir, eu produzo. E todo mundo que apoiou irá receber. Se não for atingida, recebem o dinheiro de volta”, explica.

Além das motivações financeiras, ela também destaca a força da comunidade da cena independente, que faz essa arte acontecer. “Quando você publica de forma independente, você tem muito mais domínio e autonomia sobre o seu trabalho”, ressalta a artista.

Ficha técnica:

Apuração: Alana Morzelli 

Texto: Alice Lima e Isadora Kovalczuk

Apresentação de reels: Ana Clara Osinski

Edição de reels: Alice Lima, Giuliano Carbonari e Isadora Kovalczuk

Vídeos e fotografias: Giuliano Carbonari

Zine: Ana Clara Osinski

Supervisão: Cândida de Oliveira