qua 03 jun 2026
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Onde o cinema encontra seu público 

Enquanto blockbusters dominam as salas comerciais e filmes nacionais enfrentam dificuldades de distribuição, cinemas de rua, cineclubes e festivais mantêm vivo um circuito alternativo em Curitiba

Ir ao cinema no Brasil é um hábito que ainda requer tempo, dinheiro e acesso. Embora historicamente associado à cultura de massa, o consumo cinematográfico tem se tornado cada vez mais restrito, especialmente diante do alto custo dos ingressos e da concentração das salas em shopping centers.

“Sou pai de duas crianças. Cada ida ao cinema custa mais de R$50 em um cinema de shopping popular em Curitiba. É inviável transformar isso em um hábito”, relata o professor de cinema da Escola de Belas Artes da PUCPR, Rodolfo Stancki.

Mesmo com essas barreiras, o setor de exibição brasileiro apresenta sinais de recuperação. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), mais de 40 milhões de espectadores passaram pelas salas de cinema do país em 2026, superando os cerca de 39 milhões registrados em 2025, 33 milhões em 2024 e 31 milhões em 2022.

Para o professor de cinema, ainda existe um problema que vai além do preço: “Há disparidade no acesso também quando pensamos nas distribuições de salas de cinema pelo país. A maior parte delas fica no eixo Rio-São Paulo e é quase uma exclusividade de cidades grandes. Quando não existe cinema, não há pluralidade na programação”.

E o cinema alternativo?

Como uma possível saída para esse problema, cinemas alternativos e de rua assumem papel estratégico na democratização do acesso. Em Curitiba, o Cine Passeio, que foi revitalizado e inaugurado em 2019,  se consolidou como exemplo desse modelo. Administrado em parceria entre Prefeitura, Fundação Cultural e Instituto Curitiba de Arte e Cultura, o espaço destina 36% de sua programação a filmes nacionais, quase cinco vezes acima do mínimo legal. Em 2025, os cinco filmes mais assistidos no local foram brasileiros, entre eles “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”.

Milhares de pessoas se reuniram em frente ao Cine Passeio para acompanhar a premiação do Oscar 2026. Curitiba, 15/03/2026. Foto: Isabella Mayer/SECOM/Reprodução.

Hoje a cadeia desses cinemas de rua conta com mais dois espaços, o Cine Guarani, localizado no bairro Portão, com programação regular, e o Teatro da Vila, no CIC, sem programação regular e totalmente gratuito. Isso sem contar a Cinemateca, também de graça, mas cuja lógica de funcionamento é diferente. Grande parte das exibições acontece por meio de cineclubes e eventos independentes. Entre as iniciativas, vale destacar o Cineclube São Bernardo, com sessões quinzenais às quintas-feiras, às 19h, e o Atalante, que realiza encontros quinzenais aos sábados, às 16h.

Além de assistir gratuitamente, muitos desses espaços e cineclubes abrem oportunidade para que realizadores exibam seus próprios filmes. As sessões costumam ser acompanhadas de rodas de conversa e debates, criando um ambiente de troca entre público, pesquisadores e cineastas.

Ainda segundo o professor Stancki, esses espaços colocaram novamente Curitiba na cena do cinema de rua: “Eles permitiram que a cidade pudesse ocupar um espaço privilegiado no pódio das cidades que têm salas independentes, com curadoria e programação próprias. E é um modelo sustentável.”

Porém, para ele, isso ainda não é o suficiente para ampliar o acesso ao cinema da cidade. “Falta mais descentralização nas políticas de novos espaços. Onde está o cinema do Boqueirão? O bairro teve duas salas e não faz nem 15 anos.”

A taxa média de ocupação do Cine Passeio chega a 48,5%, quase o dobro da média nacional de 25%. O desempenho indica que existe público para uma programação menos dependente de blockbusters internacionais e mais conectada à experiência coletiva, à curadoria e à diversidade cinematográfica, sempre exibindo filmes nacionais em horários compatíveis com a proposta da cota de telas.

Sob a curadoria do jornalista Marden Machado e do cineasta Marcos Jorge, que ficou conhecido pelo filme Estômago (2007), o Cine Passeio e Guarani atuam num modelo de programação horizontal, com filmes diferentes em cada sessão. “A gente percebeu que havia uma demanda muito grande de títulos que não encontravam espaço para exibição aqui em Curitiba. A única maneira de poder dar conta dessa quantidade de filmes era adotando um formato que permitisse o maior número possível”, explica Marden.

Além da programação normal, o Cine Passeio realiza algumas sessões gratuitas mensais, entre elas a que ocorre no terraço ao ar livre, sempre temáticas, e com ingressos distribuídos uma hora antes. “Nossa intenção desde o começo com esse espaço era que fosse um espaço totalmente dedicado à cultura cinematográfica. Não só limitado às duas salas”, ressalta Marden. O resultado dessa relação direta com o espectador é um público fiel e diversificado, desde estudantes universitários até idosos com mais de 60 anos que resgatam o antigo hábito de ir ao cinema de rua. 

“Falta mais descentralização nas políticas de novos espaços. Onde está o cinema do Boqueirão? O bairro teve duas salas e não faz nem 15 anos.”

Rodolfo Stancki

Sempre no último fim de semana do mês (de quinta a domingo) acontecem as sessões ao ar livre do Cine Passeio com clássicos do cinema mundial. A entrada é gratuita e os ingressos são distribuídos 1h antes de cada sessão, de forma individual e por ordem de chegada. Fotos Giovana Bonadiman/ Cido Marques – FCC.

Confira mini documentário sobre o Cine Passeio com o jornalista Marden Machado, curador dos filmes. 

Cineclube Ratazanas 

Essa relação entre a obra e quem a assiste também é o motor de iniciativas ainda mais independentes. Enquanto o Cine Passeio ocupa um prédio histórico revitalizado no centro, há quem transforme o auditório da Universidade, ou até as paredes dos bares da Rua São Francisco, em sala de exibição. É o caso do Cineclube Ratazanas, criado por estudantes e recém-formados do curso de Cinema da PUCPR.

Os encontros geralmente acontecem às 19h30 no Auditório da PUCPR, às quintas-feiras. Além do cineclube semanal, o coletivo possui uma Fanzine, que traz debates e temas do universo underground em Curitiba. Foto: Giovana Bonadiman

Um dos fundadores, Lucca Rotunno, conta que o cineclube nasceu de uma lacuna sentida na própria faculdade. “Falta a questão essencial do próprio cineclube, que é criar um repertório, de trazer diferentes formas de cinemas”. Inspirados pelo Cineclube Atalante e pelos Experimentos do Horror, eles resolveram fazer o seu próprio. O que começou como uma reunião informal de cinéfilos dentro da universidade se transformou não apenas num cineclube semanal, mas num coletivo que ocupa diferentes territórios. “O que diferencia o Ratazanas dos cineclubes no geral é essa ideia de a gente estar trazendo as pessoas para escolher os filmes”, conta Gabriel Viana, cofundador.

Em atividade desde 2022 o Cine Ratazanas normalmente realiza sessões em salas e auditórios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), e às vezes experimenta exibir filmes em locais menos convencionais. Uma das últimas leva de filmes, por exemplo, foi projetada nas paredes do bar Janaíno Vegan. A entrada das sessões é sempre gratuita. Foto: Giovana Bonadiman

A curadoria coletiva, que inclui terror, filmes experimentais e títulos fora do circuito tradicional, já levou sessões para o Janaíno Vegano e o Spunk Bar, no centro de Curitiba, com entrada sempre gratuita. “Nós não somos um cinema, nós somos um cineclube. Justo por isso a gente pode estar passando uma porrada de coisas das quais a gente não tem direito autoral. E a sacada de estar fazendo sempre aberto para todo mundo é o grande diferencial”, afirma Gabriel. O público é volátil, mas a métrica de sucesso para o Ratazanas não é a quantidade. “O que importa é que pessoas que não assistiram um tal filme tenham a oportunidade de assistir. Se é uma, se é 15, se é 40, eu acho que depende da semana”, diz Gabriel.

O cineclube Ratazanas possui ainda uma carteirinha para marcação das sessões que o cinéfilo assistiu. Foto: Giovana Bonadiman

Eles ressaltam o efeito formador: muitas pessoas tiveram no cineclube o primeiro contato com uma cinefilia mais densa, e voltaram. “A gente via nos trabalhos da faculdade referências de filmes que a gente passou. Isso é uma das coisas mais legais de se ver dentro do cineclube”, comemora Lucca.

Confira a entrevista completa e conheça a história por trás do Cineclube Ratazanas. Coletivo que transforma sessões de cinema em espaço de encontro, repertório e comunidade dentro da universidade e bares pelo centro de Curitiba.

Cinema de rua versus cinema de rede

A distância entre o Cine Passeio e o Shopping Mueller é de aproximadamente 900 metros a 1 km, dependendo do trajeto escolhido. A pé, o percurso leva em média 12 a 15 minutos. Enquanto o ingresso do Cine Passeio varia entre R$8 e R$16, as salas do shopping podem ultrapassar R$40 nos fins de semana e sessões especiais. Foto: Giovana Bonadiman

Entre os frequentadores desses locais, como o Cine Passeio, a relação aparece fortemente associada à memória afetiva e à experiência dos antigos cinemas da cidade. As aposentadas Carmen Lúcia Matos de Santos, Iracema e Leila Maria Raboni, representam um público fiel ao espaço justamente por essa conexão.

Leila conta que a experiência de ir ao cinema sempre foi mais do que apenas assistir a um filme. “Eu sou do tempo do cinema de rua, sempre gostei e achei um evento, principalmente quando tínhamos vários cinemas de rua. Quando esse espaço foi revitalizado com essa proposta, nunca mais fui assistir filmes em shopping”, relembra.

Para ela, a lógica dos cinemas em centros comerciais descaracteriza parte da experiência. “Shopping não é um passeio que eu gosto. Normalmente, para chegar à sala de cinema, você precisava passar por várias lojas até finalmente chegar lá. Já com o Cine Passeio, para mim foi como reviver um tempo, um espaço. É um momento, um evento mesmo. Não é ‘vou ao shopping e aproveito para assistir a um filme’, mas sim ‘estou saindo para ir ao cinema’. Acho fantástica essa proposta de cinema de rua.”

“Pensando de forma mais ampla, para a vitalidade urbana, se isso aqui fechasse impactaria bastante os arredores da Rua Riachuelo. Acaba sendo um ponto de segurança no trajeto noturno, principalmente para nós mulheres.”

Giovana Vilela Santos Victor

Carmen compartilha da visão da amiga e demonstra forte resistência ao modelo dos multiplex em shopping. Ela relembra com carinho os espaços tradicionais da cidade. “Há muito tempo assisti alguns filmes no Cine Luz e no Ritz [antigos cinemas de ruas, que hoje não existem mais]. Então, para mim, o Cine Passeio foi um encanto. Parecia que estávamos realmente voltando à era do cinema.”

A Rua XV de Novembro, no Centro de Curitiba, ficou conhecida como a “Rua dos Cinemas” por concentrar algumas das principais salas de exibição da cidade ao longo do século XX. Cine Ópera, Cine Luz, Cine Avenida, Cine Palácio e Cine Ritz transformaram a região em um polo cultural e de lazer, reunindo filas, estreias e sessões lotadas até o avanço dos cinemas de shopping nos anos 1980 e 1990. Foto: Giovana Bonadiman/ Fonte: Cine Passeio

Para a aposentada, o principal diferencial do local está menos no preço e mais na atmosfera. “Sinceramente, eu nunca pensei muito na questão do preço. Penso mais no espaço e no quanto ele é agradável. Nem é tanto uma questão de nostalgia, mas de chegar em um lugar em que você realmente está indo ao cinema.”

A arquiteta e urbanista, Giovana Vilela Santos Victor, que também frequenta o espaço, associa sua relação com o cinema à própria trajetória de vida. Natural de Caçapava, interior de São Paulo, ela conta que teve seu primeiro contato com a experiência cinematográfica em um cinema de rua semelhante ao Cine Passeio. “Eu lembro que, na minha cidade, não tinha shopping nem nada, então o único cinema que existia era um cinema de rua como esse, só que com uma sala só. Quando eu nasci, ele já não estava mais ativo, mas a Prefeitura fazia sessões gratuitas durante as férias escolares. Foi assim que tive meu primeiro contato com cinema. Depois, na adolescência, passei a frequentar cinema de shopping.”

Inaugurado em 2019 após um processo de restauração da antiga sede do Cine Ritz, o Cine Passeio se consolidou como símbolo da retomada dos cinemas de rua em Curitiba. Localizado no Centro, na Rua Riachuelo, o espaço aposta em sessões de filmes independentes, clássicos e produções fora do circuito comercial. O prédio conta com duas salas de exibição — Luz e Ritz —, além de cinecafé, área de convivência e espaços dedicados à memória do cinema curitibano. Foto: Giovana Bonadiman

Para ela, a escolha pelo Cine Passeio está ligada principalmente ao acesso. “É fácil chegar de ônibus, principalmente se você está na região central. Também é acessível pelo custo. Tem diferença de valor entre final de semana e dia de semana e, comparado ao preço dos cinemas de rede, acaba sendo mais acessível.”

Além da experiência individual, a arquiteta aponta uma dimensão coletiva que também traz a importância dos cinemas de rua para a cidade como um todo. “Pensando de forma mais ampla, para a vitalidade urbana, se isso aqui fechasse impactaria bastante os arredores da Rua Riachuelo. Acaba sendo um ponto de segurança no trajeto noturno, principalmente para nós mulheres. Também ajuda a movimentar a região, porque o restante aqui é bastante comércio.”

o Cine Passeio foi um encanto. Parecia que estávamos realmente voltando à era do cinema.”

Carmen Lúcia Matos de Santos

O vínculo com o cinema é também afetivo e geracional. As amigas Silvana Alves, Fernanda Lacerda e Priscila Minioli carregam uma relação de longa data não apenas entre si, mas também com as salas de cinema. Amigas desde os 10 anos, elas contam que frequentavam juntas os antigos cinemas de rua de Curitiba há cerca de 40 anos, quando opções como Plaza, Condor e Lido faziam parte da rotina cultural da cidade. “A nossa turminha era essa. Sempre íamos juntas ao cinema”, relembra Silvana.

Para o grupo, a experiência cinematográfica sempre esteve ligada ao encontro e ao ritual de sair de casa especificamente para assistir a um filme, algo que, segundo elas, se perdeu parcialmente com a consolidação dos cinemas em shopping centers. Apesar de hoje frequentarem menos as salas, principalmente pela comodidade do streaming e pela rotina corrida, o vínculo afetivo com o cinema permanece.

O Cine Passeio e o Cine Guarani possuem uma carteirinha de fidelidade, em que a cada 10 idas ao cinema, o público ganha um de graça na próxima visita ao local. Foto: Giovana Bonadiman

Fernanda afirma que o Cine Passeio resgata justamente essa memória: “Foi um reviver de um tempo, de um espaço. Não é ir ao shopping e aproveitar para ver um filme, é sair para ir ao cinema”.

Ainda que apontem questões práticas, como segurança e deslocamento, elas reconhecem no cinema de rua uma experiência distinta, associada tanto à nostalgia quanto ao acesso a filmes independentes e festivais que dificilmente encontram espaço no circuito comercial.

Outro perfil de espectador encontrado nas entrevistas é o de quem transita entre diferentes circuitos de exibição conforme o filme. Bruno Toniáz de Mendonça, desenhista de frascos de perfume, frequenta o cinema cerca de três a quatro vezes por mês e organiza suas escolhas de forma bastante prática. “Se eu sei que o filme vai ser visualmente espetacular, eu vou no IMAX. O Cinemark é o cinema bom mais perto de casa e, às vezes, vou ao Cine Passeio, nessa ordem”, explica.

Nos Estados Unidos, reportagens citam que entre 45% e 50% da arrecadação dos cinemas vêm das bombonières. No Brasil, esse é um dado guardado pelas redes exibidoras, mas um outro número ajuda a ter uma dimensão do “efeito pipoca”. Segundo a rede UCI, em torno de 50% das pessoas que vão assistir aos filmes deixam algum dinheiro nas bombonières. Foto: Giovana Bonadiman

Para ele, blockbusters e filmes com forte apelo visual pedem uma experiência mais tecnológica. “Filmes como Homem-Aranha no Aranhaverso, Top Gun ou Avatar eu prefiro assistir no IMAX. O primeiro filme que vi lá foi Avatar 2 e foi incrível, muito imersivo.” Já produções nacionais, estrangeiras ou menos comerciais costumam levá-lo ao Cine Passeio. “Filme estrangeiro ou brasileiro normalmente vejo no Cine Passeio, porque geralmente só encontro lá.”

Um caminho que foge do circuito SP e RJ

Distribuidoras independentes apontam que o principal gargalo do cinema brasileiro hoje não está apenas na produção, mas na circulação dos filmes, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo. Durante debate realizado no Fórum Metrô, representantes de empresas como Lança Filmes, Embaúba Filmes e Olhar Distribuição defenderam que estados como Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul vivem um cenário de forte produção audiovisual, mas ainda enfrentam dificuldades para colocar essas obras em cartaz.

Curitiba recebeu de 14 a 17 de maio atividades gratuitas dedicadas às práticas do Cinema dentro da 2ª edição do “Fórum Metrô: Funções do Cinema”, no Cine Passeio. O evento, que nasceu do Metrô: Festival do Cinema Universitário, cuja nova edição ocorre de 1 a 6 de setembro, tem o objetivo de aproximar o público às áreas cinematográficas, com a presença de profissionais do segmento, com foco no desenvolvimento do mercado audiovisual e no compartilhamento de experiências. Foto:Giovana Bonadiman

Dados apresentados pela distribuidora Lança Filmes, com base no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA/Ancine), revelam o tamanho desse descompasso. Em 2025, o Brasil registrou 482 obras com Certificado de Produto Brasileiro (CPB), documento que comprova a finalização do filme. No entanto, apenas 214 receberam Certificado de Registro de Título (CRT), certificação necessária para lançamento comercial em salas de cinema. Ou seja, mais da metade dos filmes produzidos sequer chegou ao circuito exibidor.

Segundo a distribuidora, o problema se agravou após um hiato de cerca de sete anos sem editais específicos para distribuição. “Existe um represamento de filmes. Muitos foram produzidos, mas poucos tiveram oportunidade de chegar às salas”, afirmou a representante da Lança Filmes, Gabrielle Gazapina. Ela destacou que os investimentos recentes em produção audiovisual não foram acompanhados por mecanismos equivalentes de circulação e comercialização das obras.

Fora do eixo Rio-São Paulo, a desigualdade se torna ainda mais evidente. Enquanto São Paulo possui mais de mil salas de cinema e registrou 165 filmes produzidos e 106 lançamentos comerciais em 2025, estados como Rio Grande do Sul tiveram 33 produções para apenas seis estreias em salas. Em Minas Gerais, foram 30 filmes produzidos e apenas 11 lançados comercialmente.

No Paraná, embora o número de produções seja menor, distribuidoras e realizadores apontam uma crescente movimentação do setor audiovisual local. Para o produtor e distribuidor, Argel Medeiros, da Olhar Distribuição, existe hoje uma necessidade de fortalecer a identidade regional do cinema paranaense para criar público local antes de disputar espaço nacionalmente.

À direita, a representante da Lança Filmes, Gabrielle Gazapina; ao meio, Matheus Antunes, coordenador de lançamentos da Embaúba Filmes; à esquerda o produtor e distribuidor, Argel Medeiros, Foto: Giovana Bonadiman

“Falta um sentimento de pertencimento em relação ao nosso cinema”, afirmou. Segundo ele, a ideia é que o público paranaense reconheça as produções locais como parte da própria cultura. “Se a gente cria uma força dentro de casa, uma força regional, a gente chega mais forte no circuito Rio-São Paulo.”

Argel revelou que está desenvolvendo um projeto chamado “Paraná Vem Primeiro”, que propõe uma janela inicial de exibição exclusiva para filmes produzidos no estado antes do lançamento nacional. A proposta envolve sessões em Curitiba, região metropolitana e cidades do interior, além de ações com elenco, debates e circulação regional. “A ideia é construir orgulho em torno do cinema feito aqui”, explica.

A preocupação também aparece na fala de Matheus Antunes, coordenador de lançamentos da Embaúba Filmes, distribuidora mineira especializada em cinema independente. Segundo ele, o número de produções cresceu muito nos últimos anos, impulsionado por políticas públicas como a Lei Paulo Gustavo, mas o parque exibidor brasileiro permaneceu praticamente estagnado.

“Hoje temos mais produtoras, mais filmes e mais investimento público, mas não tivemos crescimento proporcional no número de salas de cinema”, afirmou. Para enfrentar o problema, a Embaúba passou a investir em circuitos alternativos de exibição, levando filmes para universidades, cineclubes e espaços culturais em cidades onde não há salas comerciais exibindo cinema brasileiro.

Além da dificuldade de espaço, distribuidoras independentes destacam que o desafio atual envolve entender novos hábitos de consumo audiovisual. Para Matheus Antunes, o cinema precisa deixar de ser pensado apenas como uma sala de exibição tradicional e passar a funcionar também como espaço de curadoria, encontro e experiência coletiva.

Essa lógica tem inspirado iniciativas em Curitiba. Além do Cine Passeio, que mantém programação voltada ao cinema nacional e alternativo, a cidade deve ganhar novas salas independentes nos próximos meses. Entre elas está o Cine Miragem, idealizado por Argel Medeiros, que pretende unir exibição, gastronomia e convivência em um modelo voltado à permanência do público e à experiência coletiva do cinema.

Para os distribuidores, a descentralização do audiovisual brasileiro passa não apenas pela produção de filmes fora do eixo tradicional, mas pela criação de redes locais de circulação, formação de público e fortalecimento cultural regional.

Um Olhar para o futuro do Cinema em Curitiba

Com esse olhar para o circuito fora do eixo Rio- São Paulo, nasce também outros projetos para a cena local. Consolidado como um dos principais festivais de cinema do país, o Festival Internacional – Olhar de Cinema chega a sua 15ª edição, em junho deste ano, com a tarefa de não apenas exibir filmes, mas de reafirmar um ecossistema que resiste e se reinventa em Curitiba.

O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, um dos principais eventos dedicados à sétima arte no Brasil, chega a sua 15ª edição. O festival ocorre de 4 a 13 de junho e contará com sessões em espaços culturais importantes da capital paranaense, como a Ópera de Arame, o MON, o Cine Passeio, a Cinemateca e o Teatro da Vila. Imagem:Divulgação

Criado em 2012 a partir da produtora Grafo Audiovisual, o evento nasceu da vontade de compartilhar filmes que dificilmente chegariam às telas da cidade. “A gente tinha interesse em compartilhar alguns filmes com a galera, e o festival nasce muito dessa vontade de trocar ideias em cima desses filmes”, lembra Antonio Gonçalves Junior, cineasta e cofundador do festival.

A programação do Olhar de Cinema aposta na diversidade e na experiência, com exibições em diversos pontos da capital paranaense, Mostra Competitiva e o Mercado de Cinema Independente (MECI).

A trajetória pessoal de Antonio se confunde com a própria profissionalização do setor em Curitiba. Formado em cinema pela FAP (Unespar), ele conta que, em 2007, ainda na graduação, ele e os sócios montaram a Grafo Audiovisual sem investir um centavo. “Fizemos um primeiro trabalho de gravação de cobertura de um evento. A gente tinha ido cobrir só para se divertir, porque era um evento de cinema e a gente queria estar lá. Aí no final, falaram que iam nos pagar, a gente nem sabia que ia receber, pediram a nota fiscal, e a partir disso falamos ‘pô, temos que abrir uma empresa para emitir a nota fiscal’. Então, com o dinheiro do evento, a gente abriu a empresa”, lembra.

No começo, faziam de tudo: vídeos corporativos, casamentos, aniversários, até, eventualmente, produzir os primeiros curtas. Desde então, o cenário do audiovisual em Curitiba mudou radicalmente na visão de Antonio. Se quando ele começou, os editais eram escassos, hoje leis federais como a Paulo Gustavo e a Aldir Blanc são fundamentais para o fomento de novas produções. Ele ressalta, porém, a fragilidade dessas políticas: “A partir do momento que a gente realmente conseguir emplacar uma continuidade [das políticas], eu tenho certeza absoluta de que o cinema brasileiro vai atingir patamares muito mais altos”.

Apesar dos desafios, o cineasta vê em Curitiba um terreno fértil para quem está começando. “Se você focar numa função que no mercado hoje a gente tem carência — e eu diria que são dezenas de funções — se você for bom naquilo, você está empregado”, afirma.

Pauta: Eduardo Gomm, Giovana Bonadiman, Gustavo Bercket e Vitoria Panza
Texto: Giovana Bonadiman e Gustavo Bercket
Entrevistas: Giovana Bonadiman, Gustavo Bercket e Vitoria Panza
Infográficos: Vitoria Panza
Vídeo: Giovana Bonadiman
Edição e revisão final: Eduardo Gomm e Vitoria Panza
Orientação: Cândida de Oliveira

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