Amor e Inclusão: Um conto de fadas não convencional

Se relacionar faz parte do que é ser humano. E neste conto de fadas, as pessoas com deficiência enfrentam vilões, bruxas más e escapam de masmorras em busca de um final feliz.

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Foto: João Vitor Soares

Era uma vez

Era uma vez, em todos os reinos próximos ou distantes, pessoas que queriam amar e serem amadas. Príncipes e princesas encantadas que, além de conquistar seus próprios objetivos, sonhavam em encontrar um par. E essa realeza era formada de gente de todo tipo, inclusive pessoas com deficiências. 

E essa história dos PcDs vem sendo contada desde a antiguidade. Nos jardins do Nilo, onde os faraós erguiam monumentos grandiosos, a arte do antigo Egito deixou retratos que transcendem o tempo. Entre essas representações, encontramos figuras com deficiências físicas, suas histórias imortalizadas em pinturas e relevos. 

Nas terras ensolaradas da Grécia Antiga, berço da filosofia e da sabedoria, a deficiência era compreendida de maneira complexa. Enquanto alguns valorizavam a beleza e a perfeição física, outros filósofos reconheciam que a verdadeira grandeza reside no espírito humano. Sócrates e Platão, mestres inigualáveis, defendiam a igualdade moral e intelectual entre as pessoas, independentemente de suas limitações físicas. 

No vasto Império Romano, a deficiência era encarada de forma pragmática. Ali, onde a habilidade em contribuir era valorizada, pessoas com deficiências físicas encontravam trabalho e participavam da vida pública.

Assim, ao atravessar o tempo, percebemos que as pessoas com deficiência sempre estiveram presentes, trilhando seu caminho ao longo das eras. 

Hoje, olhamos para trás com admiração e reconhecimento, sabendo que, embora nossos tempos tenham mudado, o amor e a inclusão continuam sendo os pilares de uma sociedade grandiosa. 

A ciência e a tecnologia nos concedem ferramentas para promover a igualdade de oportunidades, tornando possível que cada indivíduo possa trilhar seu próprio caminho em direção a sua ideia de felicidade.

Nosso conto moderno começa com a rejeição dos preconceitos e estereótipos que por tanto tempo obscureceram a visão da sociedade. Nesta edição, você conhece contos de fadas contemporâneos com seus próprios vilões e masmorras

Amor, vilões e masmorras

Não importa quem somos, onde nascemos ou qual o rumo a nossa vida levou, todos querem alguma forma de companheirismo. E por que não encontrar um príncipe ou princesa encantada e viver um romance digno de filme da Disney?

Amar faz parte da natureza humana. Sua origem e funcionamento são estudados por diversas áreas do conhecimento. Na biologia, químicos associados ao sistema de recompensa é um dos indicadores das paixões, assim como a ocitocina. 

Já o estudo da psicóloga Ana Paula Rocha indica que o amor acompanha a história do indivíduo, desde o momento que seus pais decidem tê-lo.

“Para fazer um filho é preciso haver um encontro entre os pais e os seus afetos e daí nasce um espaço para um novo ser humano que ganha vida dentro da imaginação dos pais, muito tempo antes do seu nascimento.”

Assim o desejo de amar e ser amado se torna inevitável, e até recomendado. De acordo com a neurocientista Stephanie Cacioppo, esse processo neurológico que inclui diversas partes do cérebro e que chamamos de amor é possivelmente não apenas útil para conectar uma pessoa a outra, mas para também capaz de  melhorar os seus comportamentos.

Além das características biológicas e psicológicas, o amor também está presente naquilo que é consumido desde criança. Contos de fadas, filmes, novelas, até mesmo a Mônica e o Cebolinha, que são crianças de sete anos, são apresentados como um casal em potencial. 

Mesmo sendo quase uma das características inatas do ser humano, o amor, como vemos nas histórias dos nossos heróis favoritos, não necessariamente é acompanhado de uma jornada simples. Assim como outros grupos que passaram por um processo de marginalização, as pessoas com deficiência, que de acordo com o IBGE são 24% da população brasileira, encontram vilões e masmorras em forma de dificuldades e preconceitos quando se dispõem a entrar no mundo dos relacionamentos.

Não se encontrando em nenhum pedaço de mídia ao longo de sua infância, a escritora Priscila Saatman, de 31 anos, conta que ao longo dos anos desconstruiu a ideia de amor ideal. “Socialmente falando o amor como ele é vendido, pregado e incentivado é um amor inacessível. Esse amor não nos contempla enquanto PcDs porque estamos fora do padrão” explica.

De acordo com um estudo feito em 1989 pelo professor de psicologia Arthur Aron, existem quatro atributos gerais quando o assunto é se apaixonar: similaridade, proximidade, características desejáveis ou atraentes e por último reciprocidade. 

Ao abranger mais que as similaridades físicas, a primeira quest a ser enfrentada por PcDs se dá no primeiro atributo. Apesar das diferenças de feição, que nem sempre são o caso entre as pessoas com deficiência, a similaridade de vivência é um desafio, visto que mesmo que a pessoa tenha o mesmo tipo de deficiência que a outra, o seu dia-a-dia pode ser completamente diferente. 

Lucas Kasprik, de 26 anos, que tem síndrome de Asperger, conta que a disparidade de rotinas e comportamentos levou ao fim o seu primeiro relacionamento.  “A gente começou a ter uma série de atritos, pois o autista precisa do próprio espaço. Depois de passar duas semanas juntos 24h por dia, eu só queria o meu próprio espaço e isso acabou levando ao fim desse meu primeiro relacionamento”.

 O terceiro atributo também afasta os PcDs do amor. Desde Afrodite até as Kardashians, os padrões de beleza não incluem pessoas com deficiência. A ideia do belo nunca incluiu a pessoa com deficiência, e quando inclui, as pessoas são alvo de pena e da frase “tão bonita, pena que tem tal deficiência”.

Um exemplo disso é que apenas em 2022 uma modelo com síndrome de Down pisou pela primeira vez na passarela do São Paulo Fashion Week, mesmo no Brasil tendo mais de 300 mil pessoas com a síndrome.

 A modelo e empresária Malu de Araújo foi a escolhida. Em entrevista à Elástica ela conta que, mesmo sendo modelo, encontra dificuldades para se relacionar. “A sociedade acha que uma pessoa com deficiência só pode se relacionar com outra pessoa com deficiência, o que dificulta esse processo”, revela. 

Um dos vilões que assombram a comunidade é a assexualização das pessoas com deficiência / Foto: João Vitor Soares

A ideia de que PcDs só se relacionam com PcDs assombra a comunidade como um feitiço. Infelizmente, além do relato de Malu, outros milhares de casos entram neste desencanto. Comummente o relacionamento entre pessoas com e sem deficiência é visto como um sacrifício feito pelo companheiro sem diagnóstico. Priscila, uma das tantas protagonistas a enfrentar esse mal, relata um pouco do seu processo. “Na primeira e única vez que me relacionei com alguém por quem tive sentimentos românticos, sofri questionamentos. Nunca irei esquecer das pessoas perguntando o motivo dele ter me escolhido se haviam garotas perfeitas por aí”.

Outro estigma a ser quebrado é a existência da sexualidade da pessoa com deficiência. Apesar de estarmos em um debate mais avançado do que é sexualidade, ainda hoje, de acordo com Alain Giami em seu livro “O Anjo e A Fera: Sexualidade, Deficiência Mental e Instituição”, a ideia de sexualidade é limitada ao ato sexual. Acompanhada disso está a infantilização da pessoa com deficiência, afastando ainda mais a compreensão de que esta possa se relacionar amorosa e sexualmente, tornando-a inexistente em muitos casos.  

Em um estudo conduzido pelos psicólogos Marlon José Gavlik Mendes e Fátima Elisabeth Denari, pais e mães confessaram colocar seus filhos em uma masmorra, longe das experiências da vida, perpetuar e projetar essa infantilização e ingenuidade. “Então assim, eu não sei se eu vejo ele muito com criancinha assim, né? […] A gente não vê isso acontecer com eles, né? Deles ter, né, que nem casar, de ter uma vida sexual, de engravidar. Então a gente nem tem esse tipo de assunto”, explica uma das mães, Patrícia.

Priscila também foi vítima dessa infantilização e não só pela sua família. Ela ainda revela as bruxas disfarçadas de preocupações que indicavam alarmantes suposições feitas enquanto se relacionava. “Outra coisa que já ouvi inúmeras vezes é que querem se aproximar de mim para se aproveitarem sexualmente (acusando as pessoas de abusadores), como se não fosse uma escolha minha também estar em um relacionamento. Porque é sempre a escolha do outro ter algo conosco, nunca uma decisão nossa também, relações casuais? Jamais, PcDs não podem querer isso… um saco”.

A fetichização de pessoas com deficiência também é um dos vilões presentes nessas histórias de amor. No Twitter, o apresentador com paralisia cerebral Eduardo Victor conta que quando começou a explorar sua sexualidade se deparou com os chamados devotees, pessoas que admiravam a sua deficiência. Ele ainda ressalta a presença de pessoas com nanismo em filmes pornôs onde são objetificados ou diminuídos por conta da deficiência e ainda reitera: “somos pessoas atraentes porque somos diversos, porque nossos corpos são normais, porque somos pessoas interessantes, não porque temos “a perna diferente” ou não temos perna, não pelas cadeiras de roda, muletas etc. fetichizar a deficiência das pessoas NÃO É NORMAL”.

Segundo pesquisa realizada pela professora Elizabeth Mazur a respeito de PcDs e aplicativos de relacionamento, apesar de não ter números exatos, mulheres cegas são o principal alvo de assédio e fetiche. Em entrevista ao The New York Times, Hanna Foot revela que esse tipo de prática parte de pessoas que veem o relacionamento com PcDs como um projeto. 

Segundo a escritora, parte da sua desconstrução se deu a partir do momento em que entendeu que o relacionamento com um PcD não é sinônimo de sacrifício. “Depois da compreensão de que minha deficiência não é um impedimento para uma vida plena, pude desenvolver o que o amor e outras coisas referente às relações afetivas e sexuais significam pra mim. Entendi minha bissexualidade e demisexualidade, pude assumir isso e sou consciente de que até na comunidade LGBTQIAP+ tem uma grande dificuldade de fazer com que PcDs sejam ouvidas como parte da comunidade. Hoje entendo o amor romântico como um processo de entender o outro e aceitar as coisas que vem com esse outro com a única exceção de questões óbvias como violência”, conta.

As várias formas da fada madrinha

Eros é o deus da paixão, do amor e do erotismo na mitologia grega. Já para os romanos, o jovem cupido, que através das suas flechas mágicas une aqueles que são predestinados. Até aqui, já vimos que todo ser, de qualquer forma, religião ou etnia, tem direito de amar, ser amado e sentir prazer, com sentimento, casualmente, sem porquê: apenas seguir seus desejos. Por muitas vezes, as flechas se desviam, quebram ou erram o alvo. 

Seriam os aplicativos de namoro as fadas madrinhas da atualidade?

Tinder, Badoo e Face namoro são algumas das mais conhecidas opções de paquera no século XXI. Se você não usa, pelo menos conhece algum usuário assíduo. Nessa vida corrida, as plataformas vieram criar um espaço para conhecer as pessoas sem tanta burocracia. O meio digital criou possibilidades maiores de conversa, sem o medo do cara a cara..

Para alguns, a forma mais fácil de encontrar um parceiro ou parceira é através da internet, como é o caso de Daisy Silva, que tem movimentação limitada devido a um AVC.“A maneira que eu encontro de ficar com pessoas é através de aplicativo, e isso se dá pelo fato de ser uma ferramenta de proteção, pois permite a gente procurar pessoas que já têm consciência da minha condição”, relata.

Como Daisy, muitos são adeptos aos aplicativos convencionais, mas eles também carregam suas dúvidas. Uma delas diz respeito à transparência. Um dos questionamentos recorrentes é “devo comunicar ou não no próprio perfil se é uma pessoa com deficiência?” E se comunicar, como isso afeta a receptividade, ou seja, número de matches do usuário? Para evitar esse enigma, nasceram as redes de namoro direcionadas ao público. 

Um dos mais conhecidos é o chamado “Devotee” – termo para indivíduos que possuem atração erótica e sexual direcionada às pessoas com deficiência e seus corpos. A ferramenta ainda levanta discussões entre a comunidade. Como conhecemos, os devotos, de acordo com cada experiência, podem assumir o papel de vilão na história.

Apesar disso, enxergando o potencial benéfico e assumindo que ter fetiches é uma expressão natural da sexualidade humana, o aplicativo nasceu em 2018, pela mente de Ricardo Alonso Jorge, com o objetivo de criar um espaço para pessoas com deficiência se sentirem mais à vontade. 

O criador, após grave acidente em 2007, sofreu uma lesão cerebral e foi diagnosticado com Hematoma Subdural Aguda, ficando sem andar ou falar na época. Mas, só depois de 11 anos, ao terminar seu relacionamento e passear por aplicativos sem grandes sucessos com os chamados “matches”, surgiu a ideia. Assim, deu vida à plataforma de relacionamentos. Na pandemia ocorreu um boom de downloads e vem tomando cada vez mais espaço. Possui, hoje, cerca de 13 mil usuários.

Também existem os mais intimistas e “old schools”. Quem viveu nos anos 2000 certamente foi marcado pela estética do bate-papo Uol. Ele ainda existe. Dentre diversas salas de conversa, a categoria “deficientes” é ativa e possui cerca de 20 pessoas que participam. Número baixíssimo se comparado ao grupo de Facebook “Namoro para deficientes”, lá já são 912 participantes e postagens diárias. 

 O sapo vira príncipe

Os algoritmos são incógnitas cada vez mais presentes no nosso dia a dia. Eles captam o que consumimos e replicam isso em grande escala. Quanto mais você consome sobre culinária, mais chefs de cozinha surgirão na sua timeline. Eles tendem a padronizar o consumo e acabam, com isso, criando uma bolha: os mesmos influenciadores, que gostam das mesmas coisas que você, que praticam as mesmas atividades e vão aos mesmos lugares. Isso cria cada vez mais estereótipos. Por outro lado, tal fato pode se tornar benéfico se usado com esse objetivo. 

Aline Provensi, psicóloga especialista em autismo e também autista, enxerga de outro ângulo. Segmentar os gostos e criar essa comunidade é uma forma de se sentir mais confortável e segura. “[…] Na internet você encontra pessoas com interesses parecidos, o que facilita conversar com elas. Para mim, eu tenho dificuldade de conversar sobre coisas que eu não conheço, não porque não quero, mas sim porque não sei o que falar”, explica.

No final das contas — ou dos “contos” — a grande maioria dos indivíduos com deficiência concordam sobre o uso da internet a seu favor – e vale lembrar que a humanidade caminha para isso. A opinião também se coincide a respeito de informar desde o início sobre sua condição ser a melhor opção. 

O que acontece nos quartos do palácio?

Já diria a saudosa Rita Lee, sexo é vontade. Ao contrário do que muitos pensam, deficientes não são assexuados e quando adultos, não são crianças — por mais óbvio que isso pareça. Muitas pessoas não encontram ou simplesmente não querem ter um amor, e ainda assim, têm desejos. Com esta finalidade, existem as relações casuais. Mas, o tabu da sexualidade somado ao tabu da deficiência cria barreiras.

Além dos encontros sem o estigmatizado compromisso, existe mais uma forma, pouco discutida, de democratizar o prazer: a assistência sexual pode ser, e muitas vezes é, confundida com prostituição. Entretanto, apoiadores apontam que assistentes especializados não são profissionais do sexo “comuns”. Saber lidar com deficiências, ter sensibilidade e entender necessidades específicas são pontos necessários, somado ao fato da relação ser estritamente profissional. 

Hoje em dia, os PCD têm encontrado novas ferramentas para explorar sua sexualidade / Foto: João Vitor Soares

Em países na Europa a pauta vem sendo fortemente discutida e em alguns, regulamentado por lei. É o que defende o advogado e fundador da diretoria PcD da OAB do Rio de Janeiro, Geraldo Nogueira. Para ele, que é paraplégico desde 1990, a assistência sexual regulamentada é uma forma de realmente incluir as pessoas com deficiências na sociedade e quebrar a ideia de serem assexuados. 

Entre pessoas com e sem deficiência, a falta de educação e apoio enquanto a sua sexualidade, leva a um caminho cravejado de péssimas decisões.“Uma mãe me contou que seu filho andava pedindo ao irmão que o manipulasse e ela buscava informação sobre a existência de profissional especializado na assistência sexual para pessoas com deficiência”, revela o advogado ao citar um dos relatos que chegaram ao seu escritório. 

 A fim de promover qualidade de vida aos PcDs e evitar situações extremas — que, infelizmente, são mais comuns do que imaginamos — o advogado fomenta discussões e levanta pautas tão necessárias. 

Um conto de fadas contemporâneo

Tanto os contos de fadas quanto os mitos gregos compartilham a fascinante jornada do herói como um elemento central de suas narrativas. Essas histórias atemporais revelam a jornada de personagens que enfrentam desafios, buscam a superação pessoal e alcançam transformação. 

Seja o herói grego lutando contra criaturas mitológicas ou o protagonista dos contos de fadas enfrentando feiticeiras e monstros, essas histórias nos cativam ao retratar a jornada universal de autodescoberta, coragem e triunfo sobre adversidades. São narrativas que ecoam na essência humana, nos convidando a refletir sobre nossa própria jornada e o potencial heróico que existe dentro de cada um de nós.

Daniela Ferreira Henrique vive hoje o seu conto de fadas, mas a sua jornada como heroína teve início em 2008. Aos 20 anos, Dany e seu namorado sofreram um acidente de trânsito e o carro em que estavam capotou. Seu corpo foi lançado para fora do carro pelo vidro traseiro, fazendo-a rolar pelo asfalto. O acidente fez com que fraturasse duas vértebras, o maxilar, a escápula e o quadril.

Na época, o médico assumiu a responsabilidade e transferiu Dany para outra cidade, com mais recursos. “Operei, entrei em coma, acordei 10 dias depois sem movimento nenhum, apenas piscando. Desde então me dedico à minha reabilitação”, narra.

Um ano após o acidente o relacionamento acabou, mas ainda levaram outros 2 anos para ela voltar a se relacionar. Para ela, “era tudo muito novo e eu me sentia insegura, frágil e feia”.

Depois do acidente, seu mundo diminuiu drasticamente. A locomoção, que antes não era uma das preocupações da nossa protagonista, tinha se tornado um problema.“Nunca tive condições de pagar táxi para minha locomoção devido o valor cobrado, lembro de ter usado apenas três vezes na vida”, confessa.

 A realidade financeira das pessoas com deficiência vai além do dinheiro gasto para tratamentos e terapias, gastos com transporte, alimentação e até mesmo contas básicas como água e luz, são afetados, já que a adaptação e acessibilidade é essencial além do ambiente médico.

O que alterou a realidade de Dany foi a chegada dos aplicativos de transporte, como o Uber, que é onde sua história de amor tem início.

Por usar a cadeira de rodas várias foram as situações de preconceito que ela passou contratando esse tipo de serviço. Muitas pessoas que precisam da cadeira ou até mesmo que têm cães guia postam suas experiências negativas na internet com motoristas que se negam a aceitar suas viagens por não quererem comportar suas necessidades como PcD.

Em 2018, já 10 anos após o acidente, Dany chamou um Uber após sua sessão de fisioterapia, o motorista foi receptivo e educado, ofereceu ajuda e não se importou em colocar sua cadeira no banco de trás. “O nome do motorista era Diego Rangel da Silva, um moço barbudo, careca, educado e curioso”, relembra.

Danny e Diogo se conheceram graças a uma viagem do Uber / Foto: Arquivo Pessoal

Em determinado momento ele perguntou sobre a sua mobilidade e ela explicou sobre o acidente que a deixou tetraplégica. Dany sofreu uma lesão medular incompleta, que através de fisioterapia hoje trás a possibilidade de fazer transferência de pé e também que suas mãos tenham forças de graus diferentes. A reação de Diego foi pedir para que ela segurasse sua mão e apertasse para que ele testasse sua força. “Pensei comigo: Que cara doido! Mas, ok. Segurei a mão dele, apertei e seguimos”, completa.

Eles conversaram sobre o que tinham em comum até que ela chegasse no seu destino, e naquele mesmo dia Diego a encontrou no Instagram e eles conversaram um pouco mais, mas na época ambos estavam em outros relacionamentos e nada mais aconteceu.

Já em 2021, Diego ressurgiu no Instagram.“Ele disse que não lembrava meu sobrenome e aí lembrou do médico que mencionei lá em 2018 e me encontrou”, lembra Daniela. Nesse momento, com ambos solteiros, a conversa começou a ter outro tom. “Disse que nunca havia esquecido daquela passageira bonita cadeirante, ficamos de marcar de fazer alguma coisa mas não era um bom momento”, continua

Essa conversa aconteceu já durante a pandemia, Dany conta que não saía de casa, até que aproveitou a oportunidade de ter uma consulta médica agendada e perguntou se ele não faria a corrida para levá-la para casa.

“Uma observação: meu médico chamou minha atenção pois eu estava com muito medo de viver, a angústia da pandemia tomou conta de mim. Ele me disse que eu precisava interagir, eu disse: vou interagir com o Uber! E ele falou pra ir mesmo, só segui recomendações médicas”, brinca

Depois da consulta, os pombinhos saíram para lanchar, e daí para frente começaram já era claro que existia certo interesse entre os dois. Mesmo diante do potencial romance, Dany ainda se sentia insegura. “Sempre fui orgulhosa e minha vida amorosa não tinha um histórico bom, o medo de sofrer era instalado em mim”, conta. 

Conversa vai, conversa vem e um dia ela decidiu pôr as cartas na mesa. Para ela, namorar por namorar não era uma opção, Dany queria casar e construir uma família. “O Diego tem uma filha, e não estava nos planos dele ser pai novamente. Eu pensei então que o melhor era pular desse barco, não o obrigaria a casar novamente e a ter outro filho, né?! Afinal de contas, o que eu queria viver, ele já havia vivido”, confessa.

Após alguns meses afastados, eles retomaram o namoro certos de que queriam mais que tudo estarem juntos. A partir daí, os pombinhos passaram a compartilhar os mesmos sonhos, e o próximo passo seria a pergunta que mudaria uma vida inteira. 

Os noivos agora estão se preparando para o tão aguardado casório / Foto: Arquivo Pessoal

E como foi o pedido de casamento? Dany disse que foi tudo que ela queria.“Foi no meu aniversário. Ele sabia da importância que é pra mim de construir uma família. Encomendou o bolo com a confeiteira que gosto. No dia do meu aniversário chegou com o bolo numa mão e a caixinha com o anel no bolso, foi tirando e falando e eu nem tinha entendido”, diverte-se ao lembrar.

 “Quando me dei conta, pedi pra parar pra eu terminar de maquiar. Me sentei, meus amigos em volta, ele começou a falar que não teria como deixar passar a oportunidade de fazer o pedido numa data tão especial e com todos que amo no mesmo lugar .Ajoelhou, perguntou e eu disse SIM ”, completa Daniela.

Diego conta que desde o primeiro encontro com sua noiva, sabia que ali tinha algo especial.“Fiquei balançado quando a vi pela primeira vez. Guardei pra mim, na minha mente porém nunca a esqueci 100%. Um dia, já separado, comecei a procurar por ela e a encontrei. Não existe detalhes quando você ama. O fato de ser PCD, é apenas um detalhe, detalhes do tipo: Cabelo grande, curto, magra, alta, branca, negra e por aí vai…”.

Hoje o casal se prepara para o dia do casamento, data tão esperada pela nossa heroína. E ao contrário dos já conhecidos contos de fadas, a história de amor dos pombinhos não acaba quando o padre os declarar casados, ela apenas começa.

Felizes para sempre?

Depois de enfrentar dragões, bruxas e desfazer feitiços, os nossos príncipes e princesas encontraram o tão esperado final feliz. Mas será mesmo? Há quem diga que é a partir daí que a história começa.

A estrada de tijolos amarelos

Alcançar o amor verdadeiro é como encontrar uma agulha no palheiro. Agora imagina se o mundo inteiro em que você vive fosse projetado a despeito da sua existência, sem levar em consideração sua maneira de existir — “Isso é uma coisa que não só autistas mas PcDs no geral sentem, é que o mundo não é feito para a gente:  a organização das escolas, do mundo do trabalho, das relações sociais, e isso gera uma sensação profunda de que a gente não se entende”; afirma Rafaela Litz, pessoa não-binária que descobriu o diagnóstico do Transtorno de Espectro Autista (TEA) um ano atrás.

Rafaela Litz, 24 anos
Estudante de Artes Visuais | Espectro autista | Não-binária | Não-monogâmica | 4 namoros / Foto João Vitor Soares

Entre as particularidades que a estudante de artes visuais vivencia, a hipersensibilidade sensorial é uma das que mais influencia a sua rotina. Ela faz com que barulhos, luzes, texturas e odores intensos a sobrecarreguem, alguns chegam a ser interpretados como dor pelo seu cérebro. “Eu tenho muita dificuldade em lavar a louça, por exemplo. A água me demanda muito sensorialmente, as texturas de cada utensílio e o barulho deles atritando, principalmente metal, é muito difícil para mim”, disse.

Dentro ou fora de casa, os obstáculos muitas vezes não são tão objetivos. “(…) Se a pessoa quiser namorar comigo, ela tem que saber que meu corpo ali na esquina funciona diferente dos demais, como pessoa com deficiência e travesti. Falo de uma pessoa que esteja preparada para assumir algumas coisas comigo, no sentido como eu lido com a sociedade, e no meu dia-a-dia” diz Daisy Silva, PcD e travesti, que tem a mobilidade do lado esquerdo do corpo comprometida devido a um acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu 10 anos atrás.

No entanto, é importante buscar sobriedade na hora de compreender o assunto para não cair em clichês ou sensacionalismos — “Porque que saco né, a pessoa saber ‘o banho dela é diferente’ e entender que não é superação, é só um banho” discorre ela. “A falta de conhecimento de pessoas sem deficiência, isso brocha a vida. Gente que se surpreende com uma pessoa com deficiência. Eu só quero estar aqui com você, não quero ficar falando sobre como é a minha vida como PcD”, comentou.

O dia-a-dia da realeza

A convivência diária traz à tona questões que não aparecem em outros relacionamentos; Parte do processo de viver junto está atrelado à compreender os hábitos e manias do parceiro no dia-a-dia. Gabriella Isidoro, que também tem hemiparesia, fala da sua rotina Algumas coisas que eu tenho que fazer, como cortar pão, eu preciso de ajuda (…) Quando morava com minha mãe, ela fazia tudo pra mim, já o Marcos me estimula a me desenvolver” — Marcos é seu esposo, com quem vive há cinco dos sete anos de relação.

Mas não é só morando junto que os ruídos aparecem, Lucas Kasprik, além de asperger tem diagnóstico em altas habilidades — que faz a sua capacidade mental estar acima da média, mas em contrapartida, essa racionalidade já gerou culpa em parceiras neurotípicas por cederem ao lado emocional. “Eu também sou muito racional, acho que dá pra resolver tudo conversando. Mas acaba que na discussão a outra pessoa sempre se sente errada por brigar enquanto eu mantive a calma” disse.

Gabriella Isidoro, 35 anos
Empreendedora | Hemiparesia e TDAH | Mulher trans | Não-monogâmica | 2 casamentos / Foto: João Vitor Soares

A pessoa tem que estar muito aberta a desconstruir os padrões dela, que a gente não vai corresponder. Ela vai achar que a gente não gosta tanto dela, pela dificuldade com expressão facial e linguagem corporal. Pode achar que a gente não tem interesse, ou tá sendo grosseiro, mas no fim a gente só não sabe como precisamos nos comportar”. Fala a psicóloga especialista em autismo e também autista Aline Provensi.

Litz relembra a vez que morou com um de seus namorados — “Dormir junto, por exemplo, é algo que eu não pretendo levar para a frente (…) dividir o mesmo quarto acaba sendo complicado, pois às vezes o outro quer a luz acesa e eu não, ou quer utilizar um cobertor mas a textura dele me dá crise.” O parceiro tem que estar aberto para entender que não é falta de amor, mas sim uma característica da condição.

Espelho, espelho meu

Afinal, quem não possui deficiência pode compreender realmente esta maneira diferente de perceber o mundo sem vivenciá-la? “O entendimento da pessoa (neurotípica) vai até um certo ponto. Eu acredito que super pode rolar, mas acho que sentiria falta da identificação na prática com as particularidades, porque estar no espectro determina muito a forma que eu vejo e sinto o mundo, então estar com alguém que entende, é muito bom” argumenta Litz sobre o assunto.

Daisy fala que a experiência pode ser semelhante aos relacionamentos transcentrados — “que são um indicativo de lugar seguro, pois a potência de identificação é em um nível absurdo. A compreensão é sucinta e reveladora.”

Já Gabriella acha que a empatia é real, mas a deficiência não é obrigatória —“Eu me sinto bem compreendida pelo Marcos, o que foi um ponto chave do nosso relacionamento. Ele nunca questionou a minha deficiência, ou se indispôs a me ajudar. Ele sempre me tratou com naturalidade e respeito.” 

Autoestima de princesa 

Uma das características que Daisy desenvolveu ao longo dos anos foi seu amor próprio, que conquistou com o exercício diário. “No início era muito difícil revelar meu corpo. Teve uma época que eu só usava calça com bolso para colocar a mão dentro. Eu tinha vergonha do meu braço, para mim ele é a parte mais evidente da minha deficiência (…) E hoje eu tenho essa abertura”, disse. Amor este, que permite a ela saber bem o que não quer num futuro namoro, mesmo sem tê-lo vivenciado ainda.

Daisy Silva, 32 anos
Hostess | Hemiparesia | Travesti | Não-monogâmica | Nunca namorou / Foto: João Vitor Soares

“A pessoa tem que provar que me quer, e isso eu não falo por ego, e sim por segurança, pois foi muito difícil desenvolver o amor próprio (…) e é muito fácil qualquer pessoa chegar aqui e destruir isso, e eu não quero me perder de mim. Tudo que construí até agora foi por muito amor à vida” afirma a travesti.

Gabriella comenta sobre a sua autoestima após o acidente: “Hoje tenho uma postura física que muitas pessoas não percebem a minha condição. No início da deficiência era bem nítido, meu braço ficava torto, não conseguia andar direito.”. Ela continua: “Eu me sentia feia, que as pessoas não iriam me querer, que eu não era digna de amor.”

Eterno enquanto durar

Seja PcD ou não, o amor verdadeiro existe e eventualmente chega até nós. Mesmo que não seja para sempre, o conforto e o autoconhecimento que ele fornece, traz segurança para sermos quem somos — e esta permanece com a gente por tempo indeterminado.

“Com o tempo, eu fui construindo essa dignidade, entendendo que eu posso ser amada, mesmo com as dificuldades físicas. Além dessas questões, eu também tenho TDAH. Para as pessoas é difícil de lidar, entender que não é falta de vontade ou preguiça, e o Marcos me ajuda bastante nestes processos, ele consegue ter esse olhar de que é uma dificuldade minha e me ajudar com isso”, afirma Gabriella. 

Quando o coração escolhe, sair da zona de conforto é parte do processo. Marcos comenta sobre o desenvolvimento da rotina com sua namorada — “Eu trato com naturalidade. Com o passar do tempo e o amadurecimento da nossa relação, eu fui me acostumando. No caso das limitações, nunca me afetou tanto (…) Sempre busquei incentivar ela a exercitar, pois se você não utiliza o membro ele vai perdendo a mobilidade.”

E mesmo que tudo pareça incerto no início, quando é para ser, acontece. “Quando a gente começou a se conhecer eu já fui comentando sobre a deficiência. Eu já fui com o pensamento de que se fosse para dar certo, ia dar de qualquer jeito. Isso foi crucial para eu conseguir me abrir, e foi através deste contato que a gente conseguiu ter esse relacionamento”, relembra Gabriella. 

Por Deyse Carvalho, João Vitor Soares, Luísa Druzik e Munira Bark