qui 29 set 2022
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Prefeitura ignora elevação da pobreza em Curitiba e insiste na elitização de programação natalina

Após dois anos sem eventos presenciais, Curitiba pleiteia título de “Capital do Natal” com sua programação natalina oficial, contudo, desconsidera regiões periféricas da cidade

Desde o ano passado, a pandemia tem acentuado a pobreza na capital paranaense. Entre março de 2020 e abril de 2021,15.225novos curitibanos passaram a fazer parte do conjunto de moradores que sobrevivem com renda per capita mensal de até R$ 89 – taxa quase 17 vezes menor do que a mais baixa faixa de salário mínimo vigente no estado do Paraná, de R$ 1.467,40.  Segundo dados divulgados recentemente pelo governo federal, Curitiba conta atualmente com84.057 habitantesem situação deextrema pobreza.No entanto, a prefeitura opta por mascarar o dilema, insistindo em manter a programação de fim de ano do município voltada à pequena parcela de habitantes que compõem a classe média e alta da capital.

Para alguns moradores das regiões periféricas, as festividades natalinas promovidas pela Prefeitura enfatizam a aporofobia das autoridades da cidade e de parte de seus habitantes. A estudante de administração Camila Nepel, de 21 anos, moradora do bairro suburbano Sítio Cercado (um dos maiores de Curitiba), destaca que, em seu bairro, há apenas um evento natalino, na Rua da Cidadania, que ocorre durante uma noite. Fora isso, nada mais.

“Com toda certeza, os bairros ‘chiques’ são os mais favorecidos. Não sei se por se tratar da arquitetura mais luxuosa que possuem ou por esse julgamento de serem bairros com baixa probabilidade de assaltos, o que eu duvido muito. Onde moro, aqui no Sítio Cercado, não se vê muitos eventos natalinos. O máximo que podemos encontrar é o que acontece na Rua da Cidadania por praticamente uma noite. No evento, temos fogos de artifício, um coral de crianças de escolas municipais, mas somente isso. E para os que gostam de programações do tipo precisam se deslocar de longe para conseguirem participar, ou nem vão, principalmente agora com o aumento bombástico do preço da gasolina. Nós precisamos que a Prefeitura pare de ser aporofóbica, olhe pros bairros mais simples, pro povão, sem discriminação e organize eventos nesses bairros também, eventos democráticos, para que todos possam participar.

O termo aporofobia foi criado pela filósofa espanhola Adela Cortina Orts há cerca de 20 anos, mas sua definição acompanha os brasileiros há séculos. Aporofobia é o nome que se deu à aversão à pobreza. Aqui no Brasil, o termo passou a ganhar visibilidade a partir de uma campanha do padre Júlio Lancelotti contra as ações hostis da capital paulistana para com os moradores de rua, como as placas que incentivam a população a não dar esmolas ou os blocos de concreto nos viadutos, que impedem a dormida de sem tetos.

“Que nós não fiquemos apenas na hostilidade e no afastamento dessas pessoas. Porque essa é uma linguagem simbólica. (…) É importante acender essa questão pra dizer: nós vamos hostilizar ou vamos ser hospitaleiros?”

Júlio Lancelotti

Infelizmente, essa não é uma questão apenas paulistana. Segundo dados do Ministério da Saúde, só entre 2015 a 2017, cerca de 17.386 casos de violência contra moradores em situação de rua foram registrados em todo o país. Aqui na Região Sul, a repulsa à pobreza também se faz presente, principalmente com a chegada dos últimos meses do ano. Entretanto, de uma maneira muito mais sutil, o que torna o dilema ainda mais imperceptível e crítico. 

Como fica o natal na periferia?

Desde a metade do mês passado, as atrações que integram a programação natalina oficial da capital paranaense (Natal de Curitiba – Luz dos Pinhais 2021) estão ocorrendo e encantando milhares de curitibanos. São circuitos natalinos de carro, recitais de ópera, voos de balão, concertos, exposições e feiras temáticas na edição deste ano, que recebe como tema “A gratidão vai iluminar a cidade”. No entanto, nem todas as regiões da cidade são “iluminadas” pela programação natalina promovida pela prefeitura e patrocinada por grandes marcas brasileiras. Como em todos os anos, as atrações em questão se concentram nas mediações do Centro, em lugares como Batel, Jardim Botânico e Palácio Avenida, relegando assim à população curitibana de classe baixa. 

A região do Campo Comprido, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), é uma entre as “esquecidas” pela programação. Uma das comunidades que formam o bairro é a comunidade Nova Guaporé. Nas vésperas do natal passado, os moradores da localidade sofreram despejo por ordem judicial. No auge da pandemia, em 17 de dezembro de 2020, 311 famíliasque moravam na ocupação foram despejadas. Centenas de policiais invadiram o terreno, demolindo casa por casa e, até mesmo, incendiando alguns barracos, enquanto os moradores assistiam à destruição do único lar que conheciam.

Referente a este episódio, a Prefeitura de Curitiba atribuiu a responsabilidade do dilema em questão para o Governo do Paraná, o qual (por sua vez) atribuiu à esfera jurídica. O desembargador do Tribunal de Justiça e presidente da Comissão de Mediação de Conflitos Fundiários, Fernando Prazeres, alegou que soube do despejo pouco antes de acontecer e que, por isso, não teve como intervir. Dado esse cenário indefinido, sem auxílio do Estado, a comunidade optou por assentar uma nova ocupação no Campo Comprido, onde se mantém até hoje, agora habitado por cerca de 120 famílias. 

Os acontecimentos do natal anterior na comunidade chamaram a atenção da mídia, que propagou as cenas em larga escala e, consequentemente, sensibilizou a população. As atividades natalinas que ocorrem no local este ano são preparadas por organizações não governamentais que visam levar a magia do natal às regiões suburbanas da capital. A ONG Projeto Ajude é uma delas. 

Desde 2020 e por meio da ação social Natal Solidário, o Projeto Ajude arrecada cestas básicas e brinquedos para as crianças da comunidade e suas famílias, mas neste ano eles objetivam fazer mais do que isso: organizar um evento cultural natalino comunitário, onde haverá um espaço kids com pinturas faciais, piscina de bolinha e cama elástica, além de muita música – principalmente Hip Hop – grafite e, claro, danças de rua.

O estudante e MC de 21 anos, Caio Santos, fundador da ONG, nos conta que a elevação da crise econômica no início da pandemia foi o que o motivou a criar o Projeto Ajude juntamente com o amigo Vinícius Sbragia, mas que o despejo das 311 famílias alçou as ações do Ajude a novos níveis.

“Nós da comunidade não fazemos parte do cartão postal que a Prefeitura dispõe”

Caio Santos, Projeto Ajude

Segundo ele, o evento cultural natalino deste ano pretende beneficiar 60 crianças da comunidade Nova Guaporé, com apresentações de vários artistas que cresceram em periferias curitibanas. Para ele, a mudança só será possível com a movimentação da própria sociedade civil em favor dela mesma.


“Somos nós que conhecemos nossas dores. As autoridades, se conhecem, não ligam. Então precisamos, como sociedade curitibana, nos ajudar. […] Nossa primeira ação como projeto foi uma arrecadação de 30 kits de higiene para a nova comunidade do Guaporé e isso só foi possível através de doações de pessoas, daqui da região e de outros bairros, que se sensibilizaram e somaram com a causa. Então a solução está no olhar pra si, reconhecendo seus privilégios, e então olhar pro próximo, enxergando suas necessidades mais básicas. Afinal, é tudo por nós.”


De acordo com o Plano Plurianual divulgado pela Prefeitura em 2020, há previsão de ações para os próximos dois anos que visam garantir uma maior igualdade no acesso a eventos e a serviços culturais de todo o estado, por meio do programa Paraná Cultural. Sobre o assunto, porém, a maior parte das iniciativas apresentadas no documento não traz muitos detalhes:

Procurada para comentar o assunto da reportagem, a Prefeitura de Curitiba não atendeu às solicitações.

Serviço

O evento cultural natalino do Projeto Ajude, na Nova Guaporé, será realizado no dia 18 deste mês, data em que se completa um ano desde o despejo das famílias. O financiamento dos equipamentos de som, compra de brinquedos e custeio da alimentação das crianças acontece por doações da sociedade civil.

Para doações físicas de cestas básicas, alimentos não perecíveis, materiais de higiene ou brinquedos, basta ir no próprio dia do evento, que ocorrerá naRua Renato Polatti, 2008, Campo Comprido; ou entrar em contato por Whatsapp: (41) 99999-9816 ou (41) 98748-0411.

Para doações financeiras, os valores são livres e podem ser transferidos via PIX: projeto41.ajude@gmail.com. O dinheiro será totalmente destinado ao custeamento da estrutura do evento.


Jéssica Blaine
Estudante do curso de Jornalismo da UFPR.
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Jéssica Blaine
Estudante do curso de Jornalismo da UFPR.