dom 24 out 2021
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Marmelada e muita acrobacia

– Hoje tem marmelada?

– Tem sim senhor!

– Hoje tem goiabada?

– Tem sim senhor!

As frases acima já são lidas no ritmo da tradicional da canção circense. O universo do circo está presente no imaginário popular e desperta memórias e sensações lúdicas. A relação de muita gente com o circo acaba quando termina a infância, mas a arte circense não é – e nunca foi – apenas “coisa de criança”.

Tradicionalmente, as habilidades circenses eram ensinadas de pai para filho. Esse costume, que teve origem nas famílias de saltimbancos, tem aos poucos, cedido lugar a um processo de aprendizagem formal. Segundo o portal Circonteúdo, há hoje 72 escolas de circo no Brasil. Uma delas é a Escola Cirko Base, que funciona desde 2010 sob o comando de Luiz Filipe Borges. A escola oferece aulas de acrobacias de solo, acrobacias aéreas e malabares.

Mas como ensinar a um completo leigo essas complexas atividades circenses? A aula começa com uma série de alongamentos, que preparam o corpo para os exercícios que vêm a seguir. Logo, os alunos começam a usar bolas nos exercícios. A ideia é dominar o objeto e incorporá-lo aos movimentos do seu corpo, mas, para os iniciantes, até mesmo se equilibrar em cima da bola por uns poucos segundos é um grande desafio.

Alguns exercícios da aula rementem a brincadeiras de criança. Além das atividades com bola, o aluno faz séries “caminhando” com as mãos no chão, rodopiando, rolando no chão… Novatos recebem ajuda do professor e os fundamentos-chave do treinamento são equilíbrio e elasticidade.

Além das escolas especializadas, muitas escolas regulares oferecem essa modalidade aos alunos. Foto: Ronald Wegner Neto

A parte mais aguardada da aula é o treinamento aéreo. O aluno começa no tecido, um poliéster grosso que pode ser mais liso – que proporciona mais facilidade de movimentos, mas é mais escorregadio. Também há o mais grosso – mais aderente e estável, mas pode machucar o iniciante. O primeiro passo é dado, literalmente, sobre um nó dado na ponta do tecido. A partir daí começa o contato do aprendiz com o tecido. Algumas acrobacias simples já podem ser feitas, mas é com o tempo que o aluno se liberta do nó e passa a escalar, sozinho, a enorme faixa de tecido. Os mais avançados – e corajosos – já realizam belas acrobacias e parecem dominar a gravidade, passeando agilmente pelo tecido e se enrolando nele das mais diferentes maneiras. É inevitável não sentir admiração pelos acrobatas. Nesta etapa, vem a esperança de que, com muito treno e dedicação, você logo estará rodopiando pelos ares no tecido. Fazer aula de circo é vencer um desafio de cada vez, e comemorar cada pequeno progresso.

Dentre os alunos do Cirko Base, poucos pensam em seguir carreira como artistas de circo. A maioria procura nas aulas uma atividade física intensa, que trabalha força, equilíbrio e postura, aliada à parte artística envolvida. Carolina Souza já frequenta a escola há três anos e se considera viciada na modalidade. “É difícil para uma pessoa intelectualizada realizar exercícios em uma academia tradicional. Aquelas séries repetitivas parecem feitas para hamsters. Na aula de circo, você sempre aprende novas técnicas e encara desafios, além de enxergar melhor seu progresso”, conta ela.

Além do picadeiro

Segundo pesquisa feita pelo Pindorama Circus com a colaboração da Fundação Cultural do Estado da Bahia, existem hoje 177 circos itinerantes no Brasil. Mas a magia do circo não se limita ao picadeiro: também alcança escolas, hospitais, empresas e espaços públicos.
A figura do palhaço é considerada por muitos, a mais importante do circo. Para os que desejam se aventurar no mundo deste personagem, a Companhia dos Palhaços oferece cursos regulares de palhaço do nível iniciante ao avançado. Fundada em 2004 como um grupo de pesquisa sobre a arte do palhaço, a Cia. Dos Palhaços conta com uma colorida sede própria desde 2009, onde, além das aulas, promove e recebe oficinas e espetáculos.

Eliezer Brock, mais conhecido como Palhaço Wilson, é um dos fundadores da Cia. Dos Palhaços. Ele conta que o despertar sobre a importância de seu personagem aconteceu quando ele atuou em hospitais. “O que acontece ali é uma grande troca de energia. Você transmite alegria para os pacientes e sai de lá arrasado”, diz Eliezer. Ele foi um dos muitos influenciados pelo grupo Doutores da Alegria, ONG brasileira que há mais de duas décadas leva os personagens de nariz vermelho à hospitais, e mais recentemente, promove intervenções artísticas em empresas.

A Companhia dos Palhações começou como grupo de pesquisa e hoje apresenta espetáculos como o “Circotidiano – A Vida Virou Circo”. Foto: Reprodução/ciadospalhacos.com.br

A trupe do palhaço Wilson, além de se apresentar em sua sede própria, também se desloca para outros lugares. O mais recente foi o pátio da Reitoria da UFPR, através do “Mostra Seu Nariz”, evento ligado ao Festival de Teatro de Curitiba. Mas o grupo já levou sua arte a lugares bem mais curiosos: “Já nos apresentamos em aldeia indígena, fábrica de lingerie, uma fábrica de açúcar no meio de um canavial e até em um frigorífico”, relembra Eliézer. O mesmo grupo também já organizou apresentações para cegos e para surdos. Estes casos abrem a possibilidade de uma releitura na abordagem utilizada e ampliam ainda mais o alcance das artes circenses. Hoje, o circo tem muito mais que marmelada e goiabada, apesar de não ter perdido sua graça.

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