ter 27 fev 2024
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O ‘bairro-cidade’ de Curitiba

Cidade Industrial de Curitiba completa meio século com organização própria para compensar a ausência da Prefeitura

Completando 50 anos em 2023, a Cidade Industrial de Curitiba, como o próprio nome indica, se comporta por vezes como um município a parte. Sua população representa ,de acordo com o Censo de 2020, mais de 10% do total de Curitiba. São 191.517 pessoas — mais do que em cidades da região metropolitana Pinhais e Piraquara — que sentindo a negligência da prefeitura, desenvolveram maneiras de se organizar para atender as demandas locais.

Além de ser o único bairro com área suficiente para fazer integrar a Zona Oeste e Sul de Curitiba, o CIC é considerado um conglomerado de várias comunidades, como as Vilas Sandra e Nossa Senhora da Luz. Nessas comunidades, as associações de moradores surgem para suprir as necessidades dos residentes. 

O Surgimento da Cidade Industrial de Curitiba

cidade industrial de curitiba CIC na década de 70
A Cidade Industrial de Curitiba, fundada em 1973. (Foto: IPPUC)

“A Cidade Industrial e outros bairros foram criados pelo Plano Diretor de Curitiba, que já setorizava o uso do território em zoneamentos diferentes e conectado por vias em diferentes hierarquias”, disse a arquiteta e mestre em Construção Civil, Sílvia Xavier. 

O Plano de 1966 coordenado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) veio com a promessa de separação da cidade em áreas com determinados objetivos (comercial, residencial, expansão urbana, etc). A zona industrial foi consolidada como CIC apenas com um decreto na década de 70 para o desenvolvimento do segundo setor econômico. Serviu de incentivo à implantação de novas empresas a isenção de taxas como Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU).

O zoneamento atual de Curitiba pode ser visto aqui.

mapa do zoneamento de curitiba em 2023
Recentemente a Câmara Municipal de Curitiba discutiu novas leis para o zoneamento da capital. (Mapa: IPPUC)

A história é comum a muitas cidades: o poder público oferece uma zona favorável para grandes empresas, que ao se instalarem lá, trazem consigo um enorme contingente de trabalhadores e suas famílias. Essas famílias, porém, não são amparadas nem pelo Estado nem pelas empresas e acabam por se organizar da forma que conseguem para garantir o mínimo para sua permanência.

“O CIC, historicamente falando, por ser um bairro que se desenvolveu a partir dessa construção de um ideal de bairro para trabalhadores, teve um inchaço populacional. Muitas pessoas vieram para cá em ocupações”, disse o Presidente da Associação de Moradores da Região Sabará da Cidade Industrial, Diego Torres.

De acordo com matéria da Prefeitura de Curitiba, cerca de 20 mil empresas estão presentes na região. Há planos de mudanças na infraestrutura da área: a implantação de uma Rua da Cidadania, uma nova Fazenda Urbana e a fábrica de Vacinas de Curitiba. A administração municipal pretende regulamentar a questão fundiária de empresas.

A preocupação com o desenvolvimento econômico do bairro não contempla as reivindicações que denunciam uma infraestrutura sucateada e não correspondente às demandas da população, que beira 200 mil pessoas. “Toda a infraestrutura da região é datada. Tudo de 10 ou 20 anos atrás”, relata João Gustavo Fontana, morador do CIC. 

As questões de segurança pública, acessibilidade, transporte público, saúde, saneamento básico, moradia e educação ainda são invisibilizadas pelo município. 

Há previsão de implantação de mais empresas na região do CIC, mas não de reformas na infraestrutura do bairro. (Foto: Luis Costa)

A cidade dentro da Cidade

“Como aqui é dividido em ‘vilas’ eu me sinto mais ‘moradora do Caiuá’ do que moradora do CIC”, relata Rafaela Palmyra Giovanini, estudante que vive na Cidade Industrial desde criança. “Eu acredito que o CIC é um dos bairros mais autossuficientes de Curitiba”.

Funcionando como pequenos bairros, as vilas possuem representantes e comunicam-se frequentemente para proporcionar melhores condições de vida aos habitantes via ações das associações de moradores.

“Nós trabalhamos no cadastramento de pessoas em situação de vulnerabilidade social, doação de cestas básicas, prestação de serviços, encaminhamento para o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), então é todo serviço que se interconecta”, conta Diego Torres, que também coordena projetos voltados ao enriquecimento cultural na região do CIC. “É uma assessoria de assuntos comunitários, sejam eles de saúde, sejam eles de educação ou de moradia”.

Por mais que os futuros projetos para a Cidade Industrial de Curitiba prevejam o desenvolvimento econômico e social da região, ainda não há previsões de grandes reformas e ações por parte do município na questão de melhorias proporcionais ao número de habitantes. 

Izabel Forquim
Estudante de Jornalismo da UFPR e autora no Jornal Comunicação.
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Estudante de Jornalismo da UFPR e autora no Jornal Comunicação.
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