dom 17 out 2021
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O racismo à brasileira de “Sexo e as Negas”

Legenda: As negas de “Sexo e as Negas”:  117 denúncias de racismo contra o seriado já foram encaminhadas à Secretaria da Igualdade Racial da Presidência da República. (Fonte: Reprodução – Rede Globo)
 As negas de “Sexo e as Negas”: 117 denúncias de racismo contra o seriado já foram encaminhadas à Secretaria da Igualdade Racial da Presidência da República. (Fonte: Reprodução – Rede Globo)

Antes mesmo de estrear, no dia 16 de setembro, o seriado “Sexo e as Negas”, exibido pela Rede Globo, já recebeu duras críticas e manifestações de boicote por diversas organizações dos movimentos negro e feminista. Na noite de estreia da série, um grupo de cerca de 100 manifestantes protestou contra a sua exibição em frente à sede da Rede Globo em São Paulo. Na ocasião, a fachada da emissora também foi pichada com a palavra “racista”.

Mas o programa foi ao ar. Escrito por Miguel Falabella, “Sexo e as Negas” é inspirado no seriado norte-americano “Sex & the City“, que narra os relacionamentos íntimos de quatro amigas financeiramente emancipadas e bem-sucedidas em Nova York. A ideia de adaptar o seriado para a realidade de quatro mulheres negras moradoras da Cidade Alta de Cordovil, comunidade na zona norte do Rio de Janeiro, pode ter surgido com boas intenções e, aparentemente, o fez. Então por que a história de mulheres negras, brasileiras, moradoras de uma comunidade carente e aparentemente emancipadas causou tanta revolta?

No atual seriado, as personagens são Zulma (Karin Hils), camareira de uma famosa atriz do teatro e da TV, Lia (Lilian Valeska), recepcionista em uma churrascaria frequentada por celebridades e homens de negócio, Soraia (Maria Bia), cozinheira e Tilde (Corina Sabbas), desempregada. Suas profissões refletem em grande parte a realidade brasileira. Segundo o “Dossiê sobre as condições de vida das mulheres negras no Brasil”, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), uma família chefiada por um homem branco ganha, em média, R$ 1.000 e por uma mulher negra, R$ 500. Onde na faixa de até um salário mínimo, as mulheres negras são 69%, contra 42,7% das brancas. Mas o papel de qualquer um numa sociedade que convive com números como estes deveria ser o de lutar para que eles desapareçam, não perpetuá-los, ainda que no campo da ficção.

Ao longo do primeiro episódio, as quatro protagonistas enfrentaram diferentes situações de machismo e racismo, mas apenas Lia respondeu de forma explícita. A cozinheira Soraia, por exemplo, nada fez de efetivo contra as investidas do patrão. E se o seriado pretendia mostrar mulheres negras bem resolvidas e donas de si, o que explica a opção do autor por não dar a nenhuma delas a voz de narradora, item característico da série que o inspirou? A narração da história existe, mas na voz do próprio Miguel Falabella – homem, branco, personagem alheio ao mundo da trama, o que confere à produção ares de espionagem e voyeurismo e tira a voz principal das supostas protagonistas.

Nome infeliz

Outro fator que contribuiu para a revolta com o seriado foi a escolha duvidosa de seu título. Alguns consideram as críticas contra a associação de negras e sexo uma forma de moralismo. Mas o nome “Sexo e as Negas” carrega todo o peso histórico construído pela “hiper-sexualização” da mulher negra, que é ainda muitas vezes vista como promíscua, lasciva e provocadora. Não é à toa que, segundo uma pesquisa realizada entre 2009 e 2010 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, das 10.378 vítimas de estupro, 49% eram negras, 38%, brancas e 12%, sem cor declarada. Negando esses dados, a série já mostrou que dá ênfase exagerada à questão da sexualidade, mostrando mulheres sempre disponíveis para o sexo.

Em entrevista ao portal de notícias Ego, o autor Miguel Falabella rebateu as críticas à série. “Não tem nada de preconceito. Preconceito é achar que mulheres de comunidades não podem ser representadas. Essa ação nunca é feita pela população real, sempre por quem não tem essa vivência. Conheço bem a vida na comunidade, conheço bem a Cidade Alta. Isso é coisa de gente desocupada”, defendeu.

O Brasil tem a maior população negra fora do continente africano. Mesmo assim, esse grupo tem pouca visibilidade nas produções audiovisuais. Os escassos papéis com atores ou atrizes negros são destinados, em sua maioria, a personagens de menor importância na trama ou com uma condição social inferior. A mídia brasileira não reflete a diversidade do seu povo. A revolta com o seriado vem de quem clama por outros referenciais e não consegue mais aceitar que a mídia reproduza os velhos estereótipos raciais.

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