seg 18 out 2021
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#Ocupeopasseio, o movimento com cara de experimento social

O parque mais antigo de Curitiba já foi jardim botânico, zoológico e ponto de encontro de intelectuais. Em contrapartida, hoje, aos 127 anos, nem a idade o salva do apelido de “inferninho a céu aberto”.  O que acontece dentro das grades do Passeio Público, pouca gente gosta de relatar. Contudo, desde fevereiro, três pessoas estão sugerindo que a população veja com os próprios olhos o interior do passeio.  Mais do que isso, o que Dante Mendonça, Beto Bruel e Enéas Lour desejam é que o Passeio Público volte a ser espaço de convivência.

Depois de participar de um protesto contra a violência na capital paranaense, na Praça do Homem Nu, os três amigos resolveram andar alguns metros e visitar o antigo ponto de encontro. Ao perceber que o Passeio Público estava às moscas, criaram uma página no Facebook propondo a retomada do espaço, um movimento que ficou conhecido como #Ocupeopasseio, com apoio do jornal Gazeta do Povo.  O sucesso foi tão grande, que na quarta semana de encontros 250 pessoas já dividiam a mesma mesa, no restaurante localizado dentro do passeio, além de outras 600 que participam do grupo nas redes sociais.

A proposta é simples: nos sábados, depois das 10h30, artistas plásticos, diretores, compositores, músicos, jornalistas, fotógrafos e toda uma série de profissionais da área reúnem-se no local e convidam a população para um bate-papo informal. Basta chegar ao local combinado para fazer amigos, tudo isso em menos de dez minutos. “Esse parque estava sendo jogado fora! Toda cidade quer um parque como esse e nós o abandonamos”, diz o diretor de teatro e escritor, Enéas Lour.

Um dos criadores do movimento #ocupeopasseio, Enéas Lour, convida amigos e familiares para passar tardes de sábado no Passeio Público. Em um dos encontros, 250 pessoas compareceram para discutir formas de ocupar o local de forma criativa. Créditos: Mariana Ceccon

Casa dos que não tem casa

Mas nem tudo são mil maravilhas, quem passa um fim de semana no Passeio depara-se com uma situação completamente inusitada. Enquanto dezenas de crianças disputam um espaço no parquinho, adolescentes acendem baseados, prostitutas desfilam com micro shorts, pipoqueiros alimentam as pombas, durante a foto que a mãe tira do filho batendo palmas para o pelicano. O equilíbrio é extremamente delicado, moradores de rua cheiram cola para disfarçar a fome ao lado do palhaço que oferece bexigas as crianças.

E todos esses movimentos, pertencentes a universos tão diferentes, parecem caber no mesmo espaço.  Ivanilda Aguiar, enfermeira-chefe no Hospital de Clínicas, trás o filho Jamil, de dois anos, para brincar no parque todo fim de semana. Antes de Jamil, ela trazia a filha mais velha, hoje com 14 anos. “Durante a semana é muito perigoso vir para cá, mas todo fim de semana eu trago o Jamil para cá, ele adora!”, diz Ivanilda. Jamil brinca no playground sem se dar conta da situação ao seu redor, mas Ivanilda preocupa-se. “Se não tivesse as prostitutas e os drogados já melhorava bastante”, conclui.

Patrícia Oliveira Felipe, vendedora de doces e sorvetes, concorda com Ivanilda. A tenda de doces, herança do avô, já foi testemunha de muitos casos inescrupulosos. Patrícia conta que o Passeio Público é a casa dos moradores de rua. “É aqui que eles tomam banho, comem e até fazem sexo. São sempre os mesmos que estão aqui”.  Apesar do mal estar, Patrícia relata que nunca teve maiores problemas. “Ninguém quer ficar marcado aqui no Passeio, é a casa deles. Não vão assaltar ninguém, mas existe muito desrespeito”, relata a vendedora.

Apesar de a situação parecer estar sobre controle, Patrícia coleciona histórias de senhores que seguem meninas com olhares pervertidos, travestis que esfregam pirulitos chupados nos visitantes e mendigos que abusam sexualmente um dos outros. “Se chega a esse ponto eu ligo pra FAS ou chamo os PM’s do módulo policial. Para mim não é caso de polícia é caso da guarda municipal manter a ordem”.

O pequeno Jamil, de 2 anos, diverte-se no Passeio Público aos finais de semana. Uma tradição de família. Antes dele, a irmã mais velha era acompanhada pela mãe, nos playgrounds do parque. Créditos: Mariana Ceccon

Ensaio de uma vida compartilhada

O que Enéas e o grupo de apoiadores do movimento sugerem é apenas a retomada do hábito de frequentar o local. Longe de expulsões dos grupos marginalizados, o #ocupeopasseio, segundo seus criadores, é um movimento filosófico. Mesmo sendo lançado na mesma época em que se discutem revitalizações da estrutura física, Enéas reforça que esse é apenas um encontro entre amigos. “Não é de minha competência reformar o lugar, somos a ponte que liga os órgãos competentes com a população”.

Surpreendentemente o que mais incomoda Enéas é a imagem desgastada do parque e não a marginalização em si. “Se você for analisar bem, nos fins de semana nem tem tanta marginalização assim, e não é só aqui. Se você circular nas ruas do centro você vai perceber que a degradação moral é generalizada”, defende o escritor.

O que preocupa os criadores do movimento é simplesmente a ocupação do local. Mais dia ou menos dia, a volta da população pode acabar dispersando a pequena “cracolândia” que está se formando dentro do parque. Ideias como trazer exposições e pequenos shows musicais também são promessas para dialogar com os jovens e convencê-los de que o Passeio Público, afinal, é de todos nós.

Mais do que uma simples reforma

A vendedora Patrícia Oliveira está desacreditada quando o assunto é mudança. “Não adianta mudar os objetos e a estrutura, as mesmas pessoas vão continuar aqui”. E critica o #ocupeopasseio: “olhar para trás não vai mudar a situação dos mendigos daqui, não dá pra ressuscitar o passado”.

Já para Enéas, apesar do movimento ter nascido da nostalgia das reuniões da década de 1970, a ocupação não tem nada de melancólico. “Isso aqui não é para velhos sentarem, tomarem cerveja e ficarem dizendo ‘que saudades daquele tempo’, é um retomada para suprir as demandas atuais do parque”. Por demandas atuais, Enéas cita uma programação tanto para jovens como para a terceira idade, abertura de um espaço de discussão, lançamento de livros, etc.

Quanto tempo vai durar essas reuniões, eles não sabem. “Não acredito em planejamento a longo prazo, o objetivo é criar a consciência de retomar o lugar”, diz o escritor. Por enquanto a máxima que ainda impera é a da vendedora Patrícia Oliveira: “Aqui tem de tudo, morador de rua, drogado, bêbados, famílias, pessoas com problemas mentais, espirituais, casalzinho apaixonado, estudantes, estudante maconheiro. Pra mim o Passeio Público é um bom lugar para passar a palavra de Deus. Vai ver é isso que tá faltando por aqui”.

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