dom 24 out 2021
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“Olho por olho, dente por dente”

Operações como as que mataram Matemático ou condenaram os irmãos Tsarnaev antes da hora revelam práticas tão condenáveis e cruéis quanto as do próprio crime
Foto:Reprodução

A violência bate à porta de cidadãos comuns todos os dias, seja com atentados terroristas ou balas perdidas. Com ela, crescem o isolamento e o medo, atrás de grades, câmeras de monitoramento, vidros escuros e cercas elétricas. Violência absurda: crimes brutais, assassinatos sem motivo aparente, morte de pessoas inocentes em covardes ataques terroristas.

Exemplos não faltam. O mais recente, exaustivamente explorado nos meios de comunicação, ocorreu em Boston, nos EUA. Três mortos, mais de 260 feridos. Entre os que não resistiram ao ataque, Martin Richard, de 8 anos.
Violência covarde, que indigna e faz duvidar da humanidade de quem a produziu. A crueldade, entretanto, partiu de gente de carne e osso, com cérebro e frieza para planejar o atentado. Segundo a polícia americana, dois irmãos: Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, imigrantes chechenos de 26 e 19 anos.
E, de toda a sociedade, também de carne e osso, partiu a “caçada”. O fato é que, perversos ou não, os dois irmãos foram condenados sem a certeza da culpa. O mais velho, Tamerlan, foi morto enquanto suspeito. Seu irmão foi baleado enquanto se escondia em uma lancha, no quintal de um morador de Watertown, nos arredores de Boston. O que se lamentou, contudo, não foi a resposta violenta à violência sem sentido, mas a perda do barco de Dave Henneberry, relíquia dos anos 1980, inutilizado após o confronto.

O que impera, em Boston e em tantos outros casos, é a cultura do “olho por olho, dente por dente”, instituída na Mesopotâmia há séculos e, mesmo com leis e progresso tecnológico, ainda não superada. A lógica é simples: matou, deve morrer. Ela está presente não só nos EUA e, infelizmente, muito mais vezes do que nos damos conta.

Outro caso recente veio a público no Brasil há poucas semanas. A execução de Márcio José Sabino Pereira, o Matemático, causou polêmica e críticas à polícia – ao contrário da conduta adotada em Boston, aplaudida durante a cobertura midiática maçante, especialmente na TV.
Imagens de 11 de maio de 2012, feitas pelo helicóptero da Polícia Civil utilizado na operação, revelam o fuzilamento de um carro na favela da Coreia, Zona Oeste do Rio de Janeiro. O risco de balear inocentes não foi levado em conta. O traficante, por sua vez, pagou com a morte pelos diversos crimes que cometeu, entre eles homicídios.

Operações como esta ignoram as condições que produziram Matemático, e que continuam produzindo outros semelhantes a ele Brasil afora. Ele mesmo já havia sido preso. Com o benefício do regime semi-aberto, em 2009 saiu para trabalhar e nunca mais voltou. Matemático foi executado sem direito a pagar por seus crimes, como manda a lei brasileira, e ingênuo é quem pensa que suas práticas morreram com ele. Rei morto, rei posto. Marcelo Santos das Dores, conhecido como Menor P, logo assumiu a chefia do tráfico na região. E, se tiver o mesmo fim, de imediato outro tomará seu lugar. É a lógica do tráfico.

Desconsiderando o sistema que o crime instituiu, na ausência do Estado, para combatê-lo a opção escolhida é usar das mesmas práticas, da mesma crueldade. A atitude não resolve o problema, perpetuando, apenas, um ciclo que perdura por décadas. Ao invés de pensar por que terroristas e traficantes parecem cada vez mais numerosos, responde-se com violência semelhante, de forma tão cruel quanto a atitude do bandido. O que vale, afinal, é a aparência de vitória contra questões que vão muito além de Matemático, ou de Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev. São feridas persistentes na sociedade, que, certamente, não se curarão enquanto o já ultrapassado método mesopotâmico do “matou, morreu” continuar lei.

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