qui 28 out 2021
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Pandemia marca retrocesso no combate ao câncer de mama no Paraná

Em 2020, número de mamografias realizadas pelo SUS no estado foi 44,5% menor do que em 2019

Em outubro, Curitiba foi iluminada de rosa: fachadas de prédios públicos e monumentos municipais receberam as cores da campanha de prevenção ao câncer de mama. A Prefeitura Municipal organizou eventos e a equipe da Secretaria da Saúde está promovendo aulas e bate-papos nas dez regionais da cidade ao longo do mês. O objetivo é a conscientização e instrução para as cidadãs realizarem os exames preventivos.

Na manhã de quarta-feira (6/10), foram realizadas aulas abertas para as cerca de 60 alunas do Centro de Esporte e Lazer do Bairro Novo. Representantes da Associação das Amigas da Mama, vítimas curadas do câncer, conversaram com as alunas e as orientaram para a realização do autoexame. 

Suzana Lima é moradora do Bairro Novo e participou do bate-papo. Aos 57 anos, a última mamografia realizada por ela foi aos 51. “Eu achava que a mamografia só era recomendada quando a gente percebesse alguma mudança no corpo, quando aparecesse algum nódulo ou algo assim. Eu sempre vi a campanha na TV, nos estádios de futebol, todos os lugares falam de Outubro Rosa, mas eu nunca tinha prestado atenção em como aquelas campanhas também são para mim, a gente sempre pensa que é para o outro”, pontuou.

Ainda que presentes em outdoors, nas redes sociais e em diversas iniciativas públicas e privadas, a campanha do Outubro Rosa não atinge todas as mulheres, e o câncer de mama é a neoplasia mais letal para as brasileiras: em 2019, mais de 18 mil foram vítimas da doença.

“As mulheres estão sempre correndo, falta tempo para fazer um check-up, parar e respirar fundo. E também, desde o início da pandemia, eu tenho evitado ir para consultas médicas por qualquer coisinha, só vou em caso de necessidade mesmo”, justifica Suzana.

Evasão clínica

Assim como Suzana, milhares de paranaenses deixaram de se consultar. Para a médica da família Caline Pockrandt, a evasão das clínicas médicas devido à pandemia pode se tornar mais letal do que o próprio coronavírus.

“Isso é grave. Infelizmente, a pandemia afastou quem precisava de acompanhamentos regulares e aqueles que fazem exames preventivos. Pessoas com comorbidades deixaram de se consultar e fazer seus exames de rotina pelo medo de contaminação, e com isso muitos diagnósticos tardios podem comprometer a recuperação do paciente. Mas neste momento a cidade tem total condição de cuidar dos cidadãos de maneira segura, mantendo os protocolos”, reforça a médica.

De acordo com o Instituto Oncoguia, 95% dos casos de câncer de mama são curáveis caso diagnosticados nos meses iniciais. Contudo, como aponta o Atlas da Mortalidade por Câncer, ferramenta de consulta do Ministério da Saúde, a letalidade da doença em 2019, ano anterior à pandemia, já estava em aproximadamente 30,25%.

No Paraná, a evasão dos consultórios médicos associada à sobrecarga do sistema de saúde resultou no ano com os piores índices de exames de prevenção e um aumento significativo das mortes por câncer de mama. Confira no infográfico abaixo.

Infográfico: Gabriel Tassi/Jornal Comunicação

Objetivos do desenvolvimento sustentável

A redução da mortalidade por câncer faz parte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) que compõem a Agenda 2030 da ONU, a série de objetivos que devem ser alcançados mundialmente até o fim desta década. Estabelecidos em 2015, os objetivos buscam reduzir em 30% o número de mortes prematuras causadas por doenças não transmissíveis, dentre elas o câncer de mama.

O Brasil ainda não atingiu a meta. Entre 2015 e 2019, último ano com registros divulgados, a mortalidade caiu em menos de 2%. Em Curitiba, a mortalidade não caiu entre 2017 e 2019, últimos três anos contabilizados. 

De acordo com o Relatório Resumido da Execução Orçamentária do Município de Curitiba (RREO), 25,5% do orçamento da Secretaria de Saúde foi destinado às políticas de saúde preventiva na cidade em 2020. Foi o menor percentual dos últimos quatro anos.

Ainda assim, a Secretaria da Saúde destaca que segue desenvolvendo políticas sanitárias para a redução dos índices, e que o maior empecilho é a conscientização para prevenção, tanto para câncer de mama, quanto para outras neoplasias. “Atualmente, não há fila de espera para mamografias na rede municipal de saúde. Curitiba oferece mensalmente mais de sete mil mamografias e o tempo de espera para a realização do exame é de no máximo duas semanas”, informou a Prefeitura, por meio de nota.

Gabriel Tassi
Estudante do curso de Jornalismo da UFPR.
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