qua 27 out 2021
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Ombudsman: Para evitar a derrocada

Para mim, escrever um texto estando com o espírito inquieto sempre foi algo difícil. Com certeza, caso estas linhas fossem escritas à caneta, seria difícil não forçar o papel até o ponto de rasgar. Parece até que o atraso da coluna – pelo qual me desculpo – foi para que eu estivesse assim: com raiva, frustrado e com uma sensação devastadora de impotência.

Nesta quinta-feira, 20 de novembro, o Paraná teve mais um “passaralho”, termo usado para definir demissões em bloco realizadas pelas empresas do setor jornalístico. Desta vez, ele ocorreu na Folha de Londrina e vitimou dois contemporâneos meus na faculdade de Jornalismo na UFPR. Em 2014, as dispensas feitas desta forma também ocorreram na Gazeta do Povo. Falando de veículos nacionais, a Folha de S.Paulo também realizou demissões recentemente, inclusive dos colunistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues (estas foram alvo de uma coluna da ombudsman Vera Guimarães – Razão e Insensibilidade)

A frequência das demissões assusta. A crise pela qual o setor passa também. Não há como negar que o panorama econômico é ruim e que as perspectivas não são nada animadoras. Para quem acabou de ser demitido, dar a cara a tapa em um cenário destes é um desafio a mais. E depois de um tombo, ainda por cima.

Além do drama dos que foram dispensados, há o dos que ficam. A responsabilidade pesa nos ombros, pois é necessário fazer o mesmo suco, só que com menos laranjas. Mais ainda: é preciso fazer mais suco, pois o período é de recuperação de terreno perdido e não somente de manutenção do público atual. Qual o futuro do jornalismo? A imprensa generalista está fadada a extinção? Daqui pra frente o negócio é focar em cobertura de nichos? São essas e muitas outras perguntas sendo feitas na busca por sair da crise. E poucas respostas são claras.

Navegando esse mar revolto, agora com a nova responsabilidade no Comunicação, penso frequentemente no importantíssimo papel desempenhado pela universidade. É nela que temos a chance de experimentar, inovar e até, porque não, sacudir o mercado da comunicação com novas formas de relatar um fato ou contar uma história.

Um dos caminhos é parar de falar para nós mesmos e voltar a falar para o leitor. Tenho visto, na minha ainda curta carreira, muitos colegas e veículos preocupando-se demais com a repercussão de suas matérias e reportagens entre os pares. O público é a nossa razão de existir e é ele que tem que estar convencido da importância do jornalismo para que o nosso ofício seja valorizado e o trabalho bem remunerado.

Outro caminho é diversificar em formato e distribuição. A revolução móvel nos coloca o desafio de informar com menos palavras, prendendo mais a atenção, e atingindo a audiência pretendida com mais velocidade. Entender esse mercado, que se transforma cada vez mais rapidamente, é certamente uma das chaves para o sucesso.

Qualquer o caminho que se aposte, tenho certeza de apenas uma coisa: os atuais estudantes de jornalismo terão um papel fundamental neste processo. Formados dentro de um mundo regido por uma lógica cada vez mais móvel e instantânea, sua chegada ao mercado vai significar uma oxigenação em termos de práticas e de ideias. E isto são coisas que o jornalismo precisa com urgência. E cada vez mais depender para sua própria sobrevivência.
PS: a semana difícil me fez ficar em falta com a seção “Pitacos”. Retomo ela, com as matérias desta quinzena e da próxima, na coluna seguinte.

Fabiano Klostermann é formado em Jornalismo pela UFPR. Começou sua carreira em 2006, cobrindo Esportes para a Gazeta do Povo, como freelancer. Em 2007, foi contratado pelo jornal O Estado do Paraná para atuar nas editorias de Cidades e Tecnologia. No mesmo ano,  mudou-se para São Paulo, onde atuou como redator, repórter e editor-assistente na editoria de Economia do Portal Terra. Em 2010, foi para a Editora Abril para ser editor de capa do portal Abril.com. Voltou a Curitiba em 2012 e, desde então, é editor de Vida e Cidadania na Gazeta do Povo.

Ombudsman
O ombudsman é um jornalista designado para a função de ouvidor de um jornal. É ele quem faz a crítica interna do veículo, quem recebe, analisa e repassa as críticas e sugestões dos leitores e quem produz, periodicamente, uma coluna com as reflexões referentes a esse trabalho. O cargo existe no Brasil desde setembro de 1989, quando a Folha de S. Paulo instituiu seu primeiro ombudsman.
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