seg 18 out 2021
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Por outros olhos

Um pequeno estúdio improvisado, uma mesa com quatro espelhos e maquiagens de todos os tipos, ladeada por duas grades pretas com perucas de todos os tipos e tamanhos. Fotografias de pessoas das mais diversas etnias estão expostas ao redor, atraindo curiosos que vão se aproximando do estúdio com certa hesitação. No meio de tudo isso está Morten Nielsen, artista dinamarquês e idealizador do projeto “Por outros olhos”, que ficou em exibição no Festival de Curitiba entre os dias 26 e 29 de março.

Morten Nielsen e sua equipe, Anja Gudmundsson e Anna Malzer no Memorial de Curitiba (Foto por Andréa Paccini)

Conversando aqui e ali, logo Nielsen convence quem está por perto a viver a experiência que seu projeto propõe. Com a ajuda da talentosa maquiadora Anja Gudmundsson, de apenas 20 anos, logo o voluntário muda radicalmente de aparência. Em quinze minutos, com uma pistola de airbrush carregada com base, lápis para olhos e um pouco de sombra, Anja rompe todas as barreiras de gênero e etnia.

A proposta do projeto “Por Outros Olhos” é refletir sobre as barreiras étnicas impostas pela sociedade, muitas vezes sem que percebamos. Ao mudar a aparência do público com maquiagem e alguns acessórios como perucas e lenços, é dada aos participantes a oportunidade de ver o mundo por meio dos olhos de alguém cuja etnia é diferente da sua. Após as transformações, o voluntário pode sair para uma caminhada e testar sua nova identidade nas ruas.

“É um projeto sobre etnicidade, interculturalidade e empatia”, explica Nielsen. As pessoas muitas vezes não se dão conta de como o outro está se sentindo, julgam suas atitudes e comportamentos e têm preconceitos por um gênero ou etnia diferente. Quando o participante caminha na rua sabendo que está com a pele mais escura do que a sua, por exemplo, consegue reparar os olhares que lhe são dirigidos e que muitas vezes não são amistosos. O voluntário sente na pele é ser alguém diferente dele mesmo, e isso gera a empatia.

 

A ideia

A ideia surgiu há três anos, quando Nielsen começou a questionar sua própria identidade étnica. Ele é um homem branco na Dinamarca e, como tantos outros, nunca havia cogitado ser diferente. Até que fez o papel de um paquistanês em uma peça de teatro do seu grupo, Glóbäl Stõrieš, pintando a pele com um tom de base mais escuro e colorindo os cabelos, a barba e as sobrancelhas. O resultado foi tão verossímil que levantou uma dúvida: as pessoas o veriam de forma diferente se ele fosse mesmo um paquistanês?

Para testar a teoria, Nielsen passou alguns dias caracterizado como o personagem andando pelas ruas de Copenhague. Ele reparou que o preconceito era maior do que ele havia esperado, então resolveu desenvolver o projeto “Por outros olhos”, na tentativa de aumentar a empatia e a tolerância entre as pessoas.

O seu trabalho começou com crianças em algumas escolas dinamarquesas. Turmas inteiras mudaram de etnia e muitas vezes até de gênero. As crianças foram fotografadas antes e depois da maquiagem e suas imagens hoje ajudam a divulgar o projeto. “A fotografia é uma das partes mais importantes desse trabalho”, afirma Nielsen. “É o meio de registrarmos as mudanças, de fazermos as pessoas olharem a si mesmas, e também de divulgar a ideia.”

A segunda fase foi realizada em grandes empresas da Dinamarca, nas quais os líderes eram a maioria homens brancos. A experiência foi muito similar ao que aconteceu nas escolas, só que dessa vez, os adultos saíram na rua e foram orientados a perceber os olhares que lhes eram direcionados. Muitos voltaram com uma nova percepção sobre as outras etnias.

Atualmente, o projeto se encontra em sua terceira e última fase, a fase de rua. O Brasil é o primeiro país não europeu que recebe a proposta.

 

A experiência

 Mas como se sente quem passa pela mudança? Mudar o tom da pele e os cabelos faz alguma diferença? A única maneira de se ter certeza é testando por si mesmo. A fila para participar do projeto estava grande, principalmente nos dois últimos dias, já que a divulgação local havia feito um bom trabalho durante a semana, mas com paciência e um pouco de sorte era possível passar pelo processo.

Com uma pistola de Airbrush, Anja transforma a aparência dos participantes (Foto: Francisco Camargo)

Tudo deve ser feito na ordem correta. Primeiro, a fotógrafa Anna Malzer tira uma foto do participante antes de passar pela maquiagem. Depois, ele senta-se na cadeira e escolhe o que vai ser: Louro? Árabe? Quando a escolha é feita, Anja Gudmundsson começa a maquiagem. A peruca, os acessórios e a pintura das mãos ficam por conta de Mayra Mino, convidada pelo Festival de Curitiba para ajudar o grupo dinamarquês.

Antes de testar o novo visual nas ruas é preciso tirar uma nova foto, agora com a aparência mudada, e entregar um documento de identidade. “É uma garantia de que você vai voltar para devolver os acessórios, mas também é uma maneira de dizer: agora você me entregou sua antiga identidade. Saia e explore com a nova que eu te dei.”, explica Nielsen.

Algumas orientações são necessárias: aja naturalmente, procure reparar nos olhares que lhe dirigem, olhe-se nos espelhos e vitrines conforme caminhar e, quando voltar, conte a experiência para Morten Nielsen.

 

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