seg 25 out 2021
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Projeto insere jovens em discussões sobre política

Em 2013, alunas do segundo ano do Ensino Médio conseguiram uma entrevista com o presidente da Assembleia Legislativa, Valdir Rossoni (PSDB) (Foto: Divulgação)

Aproximar estudantes do Parlamento, para que se tornem adultos mais críticos em relação à política, é o objetivo do projeto Theorein.  Criado em 2012 no Colégio Medianeira, o trabalho procura inserir a preocupação com o futuro político do Paraná em alunos do primeiro e segundo anos do Ensino Médio.

O Theorein foi idealizado pelo professor de filosofia Jerson Darif, 43. O projeto surgiu de uma inquietação do professor: ele observou jovens de 14 a 16 anos reproduzirem o discurso dos adultos, de que a política e o Estado não funcionam. Para Darif, a falta de acompanhamento do trabalho dos políticos e a constante veiculação de escândalos pela mídia afastam a população da vida pública. “Procurei uma maneira com que eles pudessem chegar mais perto dos parlamentares e tirar suas próprias conclusões, sem intervenções”, explica.

Atualmente o projeto conta com a participação do professor de filosofia do primeiro ano do Ensino Médio Carlos Torra e dos professores de geografia e história do Colégio Medianeira.

Passo a passo

O funcionamento do projeto é dividido em três trimestres, nos quais se busca formar  a consciência cívica dos alunos. No primeiro, os estudantes têm uma leitura teórica sobre o surgimento dos partidos políticos e fazem uma visita ao diretório de uma das organizações. O objetivo é  analisar se as pessoas que trabalham nos diretórios conhecem as ideias do partido.

No segundo semestre, os grupos, formados por seis alunos, buscam contato direto com um vereador – para os alunos do primeiro ano – ou um deputado – para alunos do segundo ano. Nesta etapa, eles devem monitorar as atividades do parlamentar: se comparece ao plenário, quanto recebe e quanto gasta, se já se envolveu em algum escândalo, entre outras questões. É preciso fazer um mapeamento de como o parlamentar atua e fazer um esforço para conseguir uma entrevista.

As atividades do terceiro trimestre são diferenciadas. Segundo o professor Jerson Darif, a proposta é estudar filosofia com música. “É um trabalho para perceber os movimentos de contestação política, que ocorreram no mundo a partir dos anos 1950, fazendo uma ponte com o Rock”, diz.

Construindo opiniões

Heloísa Nerone, 16, é aluna do segundo ano do Ensino Médio e já se interessava por política. Para ela, o projeto é importante porque o aluno é independente – os estudantes têm  autonomia para marcar entrevistas e ir até os políticos . “Entramos em contato com as pessoas da politica e temos a sensibilização sobre os poderes e suas funções. O trabalho não é pesado porque é muito dinâmico”, afirma.

Rodrigo Siguimura, 17, estudante de jornalismo da PUCPR, participou do projeto Theorein em 2012 e, na época, não tinha interesse pela política. Depois de passar pela experiência, Rodrigo planeja criar um programa político para promover a discussão sobre os candidatos, já que este é um ano de eleições. “Com o projeto, a curiosidade em relação à política aumentou. Tenho muito mais interesse por esse meio do que tinha antes”, diz.

Para o professor de Ciência Política da faculdade de Direito da UFPR, Fabrício Tomio,  esse tipo de projeto tende a aumentar o grau de engajamento dos alunos envolvidos. Tomio acredita que as atividades propostas são interessantes porque mostram aos estudantes o que os representantes fazem e como funcionam a Câmara de Vereadores e a Assembleia Legislativa. “Há um descompasso entre o que se acredita que os representantes fazem, o que se espera que façam e qual é o papel institucional deles”, complementa.

Duas alunas do projeto já garantiram que pretendem iniciar uma carreira política. Outros se inseriram em alas juvenis de partidos. Para o professor Jerson Darif, tão importante quanto essas atitudes são as discussões sobre política que têm se tornado mais corriqueiras. “Eles têm tido a percepção de que não podem ficar apenas com as narrativas que são construídas sobre os políticos, mas que devem pesquisar por conta própria”, conclui.

Heloísa Nerone é um exemplo disso. As eleições de 2014 serão a primeira em que votará. Apesar da inexperiência democrática, ela tem certeza de que é obrigação dos eleitores ir atrás dos candidatos. Heloísa acredita estar preparada para o primeiro voto. “A cada dois anos há eleição. Pesquisar é um esforço muito pequeno, considerando que os mandatos duram quatro anos”, diz.

Má vontade

A dificuldade do projeto está em sua própria essência: os políticos. Segundo Darif, a maioria dos parlamentares se recusa a falar com os alunos. Mesmo os assessores de imprensa, com quem  os estudantes devem entram em contato para colher as informações necessárias, são rudes.

De acordo com o professor, cerca de 80% dos parlamentares não respondem e-mails nem têm páginas no Facebook. Além disso, os que possuem perfis nas redes sociais não respondem e possuem sites desatualizados. “A indiferença dos políticos em relação aos alunos é muito saliente. A maioria não está preparada para ser questionada”, explica Darif.

Um caso que chamou a atenção do professor e dos alunos foi a recusa inicial de uma assessora de imprensa em ceder uma entrevista aos estudantes. Após saber que eram alunos do Colégio Medianeira, ela aceitou. Para Darif, a assessora recusou o encontro por imaginar que se tratavam de estudantes de escola pública.

De acordo com o professor da UFPR Fabrício Tomio não há motivo para tal recusa. Segundo ele a atitude não é razoável, e revela que os políticos em questão acham que não devem prestar contas a esses jovens. “Não sei se prestam contas para quem eles acreditam ser seus eleitores, muitas vezes não. No entanto isso implica um certo desdém na obrigação de fazer isso”, conclui.

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