
Por Carlos Eduardo Dias e Giovana Gama
A 34ª edição do Festival de Curitiba traz em sua programação uma imersão cênica e sonora que revisita o passado com um olhar contemporâneo. O espetáculo “20”, nova atração da Mostra Lúcia Camargo, propõe uma viagem crítica pelo Rio de Janeiro da década de 1920 a partir de uma perspectiva negra, misturando teatro, música e artes visuais.
Inspirada no choro, no jazz e no samba, a peça elabora uma crítica ficcional à história da obra “Tudo Preto”, de 1926, e da histórica Companhia Negra de Revistas. A idealizadora e diretora do projeto, Tina Longras, conta que o processo criativo nasceu de uma curiosidade sobre os paralelos entre o Brasil e o movimento norte-americano Harlem Renaissance, que reuniu artistas e intelectuais negros ao longo das décadas de 1920 e 1930. Essa pesquisa a levou a investigar e imaginar como os espetáculos da companhia brasileira foram recebidos em seu tempo.
A música atua como um dos pilares fundamentais da obra. Sob a direção musical de Muat, a peça resgata as influências de Pixinguinha, que foi o maestro original da companhia. Segundo o diretor musical, Pixinguinha rodou o mundo e foi “o grande construtor do que a gente conhece como música brasileira”, mesclando ritmos como os choros, o maxixe, o tango brasileiro e o que viria a ser o samba, somados às suas experiências com o jazz na Europa.
Reconhecimento e Prêmio Shell No ano de 2026, “20” foi consagrado com o Prêmio Shell nas categorias de melhor dramaturgia e melhor música. Ao refletir sobre a importância e o peso político desse reconhecimento no cenário atual, a diretora Tina Longras destaca uma diferença fundamental entre imagem e voz. “Há sim uma relevância muito grande de receber esse reconhecimento dos nossos pares. A gente fala muito sobre visibilidade, mas eu tenho para mim o desejo maior de ser ouvida do que de ser vista“, afirma.
Dando continuidade a essa revisão histórica, a equipe possui planos marcantes para os próximos meses. No dia 31 de julho, data que exata em que se completam os 100 anos da estreia original de “Tudo Preto”, os realizadores farão uma remontagem crítica da peça no Rio de Janeiro. “É um pouco de como a gente tem olhado para essas histórias. A partir de um posicionamento crítico e artístico”, pontua a diretora.
Para o público da capital paranaense, as apresentações de “20” ocorrem nos dias 2 e 3 de abril, às 20h30, no Teatro Jax, localizado no bairro São Lourenço. Os ingressos estão disponíveis através do site oficial ou na bilheteria física do Shopping Mueller.


