
Foto: Divulgação/ Curitiba Olímpica
Uma mutação genética pode tornar difícil a prática de esportes para algumas pessoas. É o que sugere pesquisa realizada pelo fisiologista Rodrigo Dias, do Instituto do Coração de São Paulo (Incor). Os estudos mostram que uma alteração no gene responsável pelo fluxo sanguíneo e pela absorção do oxigênio pode prejudicar o abastecimento dos músculos com nutrientes – processo que é essencial para a prática esportiva.
Durante levantamento do código genético realizado com mais de 1.200 pacientes do Incor, 8% dos analisados apresentaram uma mutação genética na enzima Óxido Nítrico Sintase (NOS), que não sintetizava corretamente a molécula de óxido nítrico (NO). Deste modo, a artéria não dilatava e dificultava a respiração.
Segundo o pesquisador, o aumento ou a diminuição do fluxo sanguíneo apenas sugere um maior ou menor rendimento. “A ligação da mutação ou não da enzima com a capacidade física de atletas é apenas uma hipótese. Não existe a comprovação de que quem tem a mutação é pior para determinada prova ou terá fadiga precoce”, afirma Dias.
O estudo também motivou uma parceria com a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PM-SP). Diferente de atletas que já possuem alta capacidade de adaptação, o trabalho com a PM vai procurar alterações genéticas, através do mapeamento de aproximadamente 25 mil genes. “O código genético dos novos recrutas da polícia será analisado antes e depois do treinamento, lendo o genoma para identificar qual gene carrega a capacidade de adaptação”, explica Dias. Assim, pretende-se encontrar quais genes – ligados à massa muscular, gordura ou capacidade dos músculos – trabalham diferente após o exercício.
A descoberta também analisa a possibilidade de doenças cardíacas e a facilidade de sofrer lesões musculares, além da dificuldade de recuperação dos atletas que possuem a mutação. “Nunca será possível um parecer unânime e único”, conclui Dias.

do código genético. Foto: Divulgação/Curitiba Olímpica
DNA Olímpico
Um programa recém-lançado pela Secretaria de Esporte do Paraná promete aperfeiçoar o treinamento e preparação dos atletas às competições esportivas nacionais e internacionais. Lançado no dia 23 de agosto, o projeto DNA Olímpico pretende identificar o talento específico de jovens atletas a partir da criação de um banco de dados biológicos do genoma humano. A iniciativa vai analisar os genes relacionados ao desempenho e à velocidade, como é o caso da proteína Alfa-actinina 3, que pode estar ligada à explosão e força muscular.
De acordo com o coordenador do projeto e pesquisador do Instituto Paranaense de Ciência do Esporte (IPCE), Antônio Carlos Dourado, a proposta busca detectar os talentos de cada jovem e direcionar o treinamento para estimular aptidões. “Isso não significa que aquele que não possuir determinadas proteínas não será atleta, mas que receberá um treinamento específico. O objetivo é procurar o máximo aproveitamento dentro do esporte que o atleta já pratica, e não definir ou segregar os jovens de acordo com seu código genético”, reforça Dourado.
Inédito no Brasil, o programa é de longo prazo. Apenas dentro de 10 anos será possível observar, na prática, o aumento do rendimento e a conquista de resultados a nível internacional dos atletas que receberam treinamento especializado. Os jovens que vão participar da coleta de dados têm entre oito e 18 anos, e fazem parte dos programas estaduais de incentivo ao esporte – como o Talento Olímpico do Paraná (TOP), Segundo Tempo Modalidades, Jogos Escolares (Jeps) e Jogos da Juventude (Jojups).
Financiado pela Fundação Araucária, o projeto traz um debate ético sobre a possível exclusão dos atletas geneticamente menos aptos. Para o pesquisador Rodrigo Dias, ainda não existe a possibilidade de detectar talento esportivo com base na análise genética. “Não há como prever o futuro esportivo de uma criança com base no gene. Nenhum profissional pode falar que apenas a genética manda, nem que apenas a dieta e o treinamento são capazes de alterar qualquer coisa. Nunca é somente um ou o outro”, avalia.
Debate
A preocupação é reforçada por atletas paranaenses que se consolidaram no esporte desde a infância. Para o recordista dos Jogos Universitários do Paraná na modalidade Salto em Altura, Henrique Isidoro, os testes podem acontecer nos primeiros anos do jovem dentro do esporte, mas não o treinamento específico. “A criança deve ter a oportunidade de experimentar o esporte, desenvolver habilidades e decidir por si mesma, através do amadurecimento, qual modalidade lhe dá mais prazer”, diz o atleta. A opinião é compartilhada por Dourado. “A promoção a um atleta de alto rendimento dependerá do bom encaminhamento, do ritmo de treino e, principalmente, do prazer pela prática”, analisa.
Segundo Dourado, a Secretaria do Estado abrirá edital para as universidades que se interessarem em realizar o estudo. O órgão fará o acompanhamento, junto da Fundação Araucária, para que não ocorra desvio de função.