sáb 20 abr 2024
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A invisibilidade do cinema brasileiro

Sempre presente em festivais internacionais, o cinema brasileiro despertou o interesse dos críticos com diferentes abordagens, desde obras de comédia a dramas que expunham a realidade social do país. Com a estreia de “Os Sertões”, de 1912, a sétima arte passou a chamar a atenção da classe média brasileira, composta principalmente por brancos e estrangeiros. Assim, a indústria cinematográfica passou por transformações e adaptações, de acordo com a estrutura sociocultural vigente.

Após o Golpe Militar de 64, o Cinema Novo surge como uma resposta ao descontentamento de um grupo de cineastas brasileiros diante das constantes opressões enfrentadas por artistas e diretores. Baseado no Neorrealismo Italiano, a vertente tinha a proposta de apresentar a chamada “arte engajada”, movida pela vontade de romper com os tradicionais valores sociais e culturais da época. Essa corrente trouxe clássicos reconhecidos pela crítica especializada, como “Vidas Secas” e “Cinco Vezes Favela”, que, apesar de terem recebido diversas indicações a festivais internacionais, ainda não são considerados “filmes clássicos” por boa parte da população brasileira.

Neste ensaio, exploraremos os constantes desafios enfrentados pela indústria cinematográfica nacional e o impacto das medidas de distribuição pouco amplas, apesar do histórico brilhantismo artístico brasileiro. Ainda, será analisada a dificuldade em desenvolver uma produção nacional, e a recorrente falta da iniciativa governamental em divulgar a arte, especialmente na era da internet.

No entanto, houve tentativas de estimular a produção e divulgação de filmes nacionais, visando fornecer às produções culturais incentivos fiscais e facilitar o financiamento.

A Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993), criada durante o processo de redemocratização, estabelece mecanismos de renúncia fiscal e permite o investimento de empresas e pessoas físicas em projetos aprovados pelo Ministério da Cultura. Assim, a produção cinematográfica e audiovisual do país não ficaria restrita aos investimentos públicos já escassos, estimulando a criação de filmes, entre outras produções.

Também pertencente ao Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), a Lei Rouanet abrange um escopo mais amplo, fornecendo financiamento a artistas e produções culturais, como a música, teatro, dança, cinema, entre outros. Nos últimos anos, a lei tem sido alvo de constantes ataques e boicotes, resultando em grandes cortes na captação de recursos.

Essas leis foram iniciativas extremamente importantes para promover as atividades cinematográficas brasileiras e garantir maiores recursos para a cultura, dada a necessidade de ação privada para suprir a falta de investimentos públicos robustos.

É notória a resposta do setor audiovisual à retomada das produções com a Lei do Audiovisual. De acordo com a Ancine (Agência Nacional de Cinema), do ano de 1995 a 2008, o número de filmes produzidos nacionalmente passou de 14 para 79, aumento significativo que representa a melhora da economia do setor. Apesar disso, o aumento da produção não reflete no público dos filmes nacionais, afinal, um filme depende da audiência. Em comparação ao ano anterior, por exemplo, 2021 perdeu cerca de 91% de público e renda de filmes nacionais, diferente de filmes internacionais, que aumentaram o público e renda no mesmo período em 61%, de acordo com dados da Ancine.

Esses dados comprovam que, apesar das medidas de investimentos às produções nacionais, a falta de divulgação resulta em pouca procura do público. Filmes pouco explorados comercialmente não disputam com grandes produções Hollywoodianas nos cinemas, criando assim uma distância indiscutível dos brasileiros com a cultura nacional em relação aos estrangeiros.

Além das salas de cinema, as plataformas de streaming também apresentam um reduzido número de filmes brasileiros em seus catálogos, com apenas 6% na Amazon Prime Video e Netflix. Esse resultado também pode ser apresentado em plataformas brasileiras, como os canais Globo e o Globoplay, que possuem 30% e 57% de conteúdo nacional, respectivamente.

A chamada Cota de Tela surge como uma tentativa de proteger o cinema nacional do domínio das grandes produções estrangeiras. A regulamentação garante uma cota mínima de salas de cinema reproduzindo filmes nacionais diariamente, com a cota variando em relação ao dia.

No entanto, a adoção dessa regulamentação depende da política do governo em vigência e pode não ser implementada, como no ano de 2021. No mesmo ano, o filme “Homem-Aranha: Sem Volta pra Casa” chegou a ocupar 90% das salas de cinema. Ainda, o investimento para ampliar a propaganda do filme é essencial para garantir um bom público nos cinemas. De acordo com o cineasta Paulo Sérgio Almeida, em entrevista ao G1, um lançamento nacional precisa de, no mínimo, R$ 1,5 milhão em campanhas de marketing para desempenhar satisfatoriamente nos cinemas, valor alto para a maioria das produções.

Por fim, é necessário implementar uma regulamentação no setor cinematográfico e do streaming, com o objetivo de diminuir a presença quase exclusiva das grandes corporações nas produções audiovisuais, que tendem a não priorizar filmes de médio porte, por exemplo. Como a Lei do Audiovisual da Espanha, que, com sucesso, define uma série de regulamentações que incentivam o cinema local.

Uma proposta federal importante seria garantir a presença de filmes municipais e estaduais em cinemas regionais, incentivando as pequenas produções que, atualmente, não têm acesso às principais telas.

O desafio de desenvolver uma maior qualidade de distribuição e exibição de produções nacionais é de natureza complexa e profunda, exigindo abordagens audaciosas e um governo disposto a transformar a realidade atual. Afinal, um filme só alcança seu público por meio de investimentos e incentivos.

Ficha técnica:

Produção: Giuliano Carbonari Boneti

Edição e Publicação: Chananda Buss

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