sáb 16 out 2021
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Brincando de gari

Ele acordou cedo. Tomou café antes de todos acordarem no pequeno casebre e dirigiu-se à esquina; lá onde mora é o começo do itinerário da condução da firma. Enquanto se deixa levar pelo sono ainda acordado, embalado pelo trepidar da van, vislumbra os colegas embarcando. Joãos e Josés, com suas mochilas e marmitas, indo enfrentar mais um dia de trabalho solitário.

(Foto:  Tiago Cata/ flickr.com)
(Foto: Tiago Cata/ flickr.com)

Iguais a essa, existem muitas outras vans transportando, nos mesmos primeiros raios de sol, os cerca de 2.700 garis que trabalham pela cidade de Curitiba. Homens de todas as idades, é certo, mas há uma quantidade considerável de senhores – daqueles com mais de 55. Em grupos, eles descem de pronto na esquina para não atrapalhar o trânsito. São como paraquedistas que pulam do avião e seguem, sozinhos, sua rota.

Hoje, a área de José Francisco Almeida é pelo centro da cidade. E ele até prefere. Mais gente passando, mais conversas, mais sujeira – mais rápido o tempo passa. É assim que conta os dias. Um esforço tremendo para não olhar as horas e a esperança de que passe 30 minutos entre uma vassourada e outra.

Até a hora do almoço, tinha enchido oito sacos de lixo, visto um donzela que encantara seus olhos, levado esbarrão de um engravatado ao celular, ganhado cocada de uma amarga senhora, apagado as chamas de um lixo incendiado por uma bituca de cigarro e, entre uma coisa e outra, varrido 2 km de calçadas.

Partiu da Praça Santos Andrade, fez seu entorno, seguiu pela João Negrão, dobrou na Marechal Deodoro, fez os dois lados, chegou na Mariano Torres, andou cinco quadras para lá, varreu os dois sentidos, andou cinco quadras pra cá, virou na Nilo Cairo e parou, no início da subida, porque era hora do almoço.

Como o combinado com os colegas, foi em direção à outra esquina – com a rua Francisco Torres – onde há um dos melhores lugares da região para almoçar. Em frente a um escritório de advocacia grande, com uma entrada suntuosa, há um belo jardim de grama bem verde e macia. Quase no centro do quintal, uma árvore de copa ampla, com folhas largas e cheirosas, faz uma sombra convidativa à nossa preguiça latente. É ali que, por volta do meio dia e meia, vão chegando garis de todas as direções. Ao todo, são uns 13 serventes de limpeza. Cada um a seu gosto – na sombra ou no sol, encostado no muro ou empoleirado na árvore – eles abrem as marmitas num balé de tampas e tapwares.

Acabada a hora de descanso, bate as gramas da roupa e torna a subir a Nilo Cairo. Zig zag. Vai e volta, nos dois sentidos. Muitos sacos de lixos. Outra van passa e recolhe o que ele já juntou. E vai embora.

É final de tarde, está escuro quando Zé Francisco alcança a rua Ubaldino do Amaral.

***

Saio do trabalho às seis, como a maioria das pessoas. Sem titubear, me volto em direção ao estádio Couto Pereira e subo a rua Ubaldino do Amaral. Até a faculdade deve dar 15 minutos; 20, se eu estiver de moleza.

O vento gelado me força a caminhar depressa, mas me detenho numa figura à frente. De longe, é apenas uma estrutura alaranjada de onde sai algo em direção ao céu. À medida que me aproximo, desvio a atenção porque reconheço: é apenas um gari que se diverte com a vassoura, equilibrando-a no alto.

Procuro nos bolsos o telefone que toca e me distraio mais ainda. Ando, aparentemente, sem rumo; automático. Celular à orelha, conversa, conta o dia, como foi, como será…

Mas volto à realidade com uma pancada no braço. Uma pancada doída, admito. Recomponho-me do susto, desligo o celular na cara de quem quer que seja – já nem lembro quem – e procuro o que me atingiu. Havia alcançado o gari que brincava com a vassoura. E agora não brinca mais porque a deixou desequilibrar na mão e atingir meu braço. Vassoura tão pesada que suspeito até que a parte que segura as cerdas seja de concreto.

Completamente encabulado, o gari que se apresenta como Zé da Vassoura apenas me olha. Sinto, porém, que há um pedido de desculpas condensando em suas lágrimas. Sorrio para ele. Fique tranquilo, digo, está tudo bem.

A pressa que o frio me impunha, desapareceu. Conversando com Zé da Vassoura, que usa um moletom velho por debaixo do uniforme nada discreto, esqueço as mesquinharias desse mundo. Ele conta do seu dia e pede para eu multiplicá-lo pelo ano inteiro. É assim que vive, um dia após – e igual – ao outro.

Enquanto retomo meu caminho, a pressa de ir à aula me espeta a andar rápido, lembro do meu novo colega. Não há frio que uma boa conversa não aqueça; não há tristeza que bata a vontade de viver a vida.

Esfrego o braço dolorido – o nosso pacto de hematoma -, atravesso a rua e olho para trás. Lá está Zé da Vassoura (e agora entendo o apelido), com a companheira equilibrada na palma da mão e com o olhar de criança a imaginar a vassoura no céu.

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