sex 22 out 2021
HomeOpiniãoNão é comigo, meu amigo

Não é comigo, meu amigo

Em caráter emergencial, a população das Filipinas precisa de água potável, alimentos, medicamentos e material sanitário.
Foto: Aaron Favila/ AP

 

A memória humana é curta, pífia, para não dizer intransigente. De fato, esquecemos tudo. O almoço do dia anterior, o dia do aniversário do melhor amigo e até o que fomos pegar na geladeira num domingo à tarde. A rotina e as preocupações do momento matam a lembrança do que passou (do tipo que acabou de passar).

É bem verdade, no entanto, que nosso esquecimento generalizado vai muito além. Daquilo que nos diz respeito (ou que, ao menos, disse um dia), esquecemos os sonhos, as ideologias e as vontades. Se a respeito de fatos particulares a memória padece, imagine a respeito do que acontece com os outros… deixamos de lembrar tão logo ficamos sabendo.

O outro existe

Das últimas notícias envolvendo conflitos, desastres ambientais e mesmo grandes violações de diretos humanos, quais você se lembra? Em alguma destas situações você se dispôs a fazer alguma coisa? Não duvido que sim, mas será que foi o suficiente? Ninguém é indiferente ao que acontece no mundo. Nós lutamos, nos indignamos, compartilhamos, mas, por fim, esquecemos.

Foi o que aconteceu durante a divulgação do documentário “Kony2012”, da ONG norte-americana “Invisible Children”. Lançado em 2012, o vídeo teve mais de 98 milhões de visualizações no Youtube, só na versão oficial. No período, o mundo se mobilizou pela causa e muitos usaram o espaço urbano para pedir atenção às chamadas crianças-soldado. Hoje, a Organização das Nações Unidas (ONU) considera a existência de mais de 250 mil crianças que atuam em conflitos no mundo. A causa foi esquecida, mas o problema não foi resolvido.

É em situações como essa que nossa memória, sem dúvida, peca. Contudo, nossa falha vai além: esquecemos depois e somos passivos na hora. Mais de 11 mil pessoas morreram no Japão após os terremotos e o tsunami que abalaram o país em 2011. No mesmo ano, enchentes e deslizamentos de terra desalojaram 35 mil pessoas no Rio de Janeiro. Situação semelhante aconteceu no estado de Santa Catarina. Na Síria, antes do uso de armas químicas chocar a opinião pública mundial, aproximadamente 100 mil pessoas já haviam morrido, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Agora, no mês de novembro de 2013, é a vez das Filipinas. Dados do governo do país garantem que a passagem do tufão Hayan deixou mais de 5 mil mortos e que 12 milhões de pessoas foram diretamente ou indiretamente afetadas.

Notícias como o número de mortos, pessoas afetadas, casas destruídas aparecem por toda parte. Nas redes sociais, surgem pessoas falando da importância de ajudar o próximo, divulgando imagens que, garantem, cada vez que forem compartilhadas “renderão 10 centavos às vítimas” do desastre da vez. Mas por que relutamos tanto em ajudar? Militar pela causa nas redes sociais e doar comida e peças de roupa parece ser o suficiente para a culpa da passividade ir embora e ficar a paz e o silêncio. Até mesmo porque, “eu não tenho nada a ver com isso, mesmo”. É a síndrome do “já fiz a minha parte. Não posso fazer mais nada”. Sejamos honestos: nós podemos.

Filipinas

Um tufão classificado na categoria cinco, a mais elevada na escala de Saffir-Simpson, atingiu as Filipinas no dia 08 de novembro. O tufão Hayan, ou Yolanda, destruiu a região de Visayas, com maior incidência na cidade de Tacloban. A situação foi tão séria que o Google criou uma página especial de apoio (disponível em www.google.org/crisisresponse/2013-yolanda/index.html) e o Facebook se uniu à Cruz Vermelha para pedir doações em dinheiro às vítimas. Por meio da mensagem “Doe agora para o socorro de emergência nas Filipinas”, publicado no “feed de notícias” da rede, os usuários foram incentivados a contribuir com R$ 5.

Até agora, apenas 40% do total pedido pela ONU (US$348 mi, aproximadamente R$800 mi) foram arrecadados. O valor se destina à ajuda humanitária. Segundo a Organização, 1,5 milhão de crianças correm o risco de desnutrição e 800 mil mulheres grávidas necessitam de ajuda alimentar. Apesar de parecer elevado, o valor é pequeno comparado a outras movimentações financeiras a nível mundial. Para se ter uma ideia, o filme “Gravidade”, lançado em 04 de outubro deste ano, arrecadou, somente na estréia nos Estados Unidos, 55,6 milhões de dólares (R$127). De acordo com a produtora Warner Bros, mais de 500 milhões de dólares foram gastos nas bilheterias de todo o mundo para assistir o filme. As Filipinas só precisam de 70% deste valor. E olha que os R$ 5 pedidos pela Cruz Vermelha não pagam nem o ingresso do cinema.

E o que eu tenho a ver com isso?

Segundo as autoridades filipinas, a falta de apoio logístico é tamanha que a prefeitura da cidade de Tacloban foi obrigada a usar o mesmo caminhão que distribuía comida para recolher corpos. Estamos falando de pessoas que, no momento, precisam de tudo. Pessoas que não têm mais uma casa para voltar quando “tudo isso passar”.

Do que eles precisam? Água potável, alimentos, medicamentos, material sanitário. E, antes de considerar cada um destes itens como “ajuda humanitária em geral”, devemos prestar atenção na importância de cada um. Milhares de desabrigados não têm água à vontade. Os médicos missionários que estão no país não conseguem contribuir de fato, dada a falta de medicamentos. Os alimentos são escassos e a falta de higiene permite a proliferação de doenças.

Avião sobrevoa a cidade de Tacloban: mais de 5 mil mortos.
Foto: Nicolas Asfouri/AFP

Como posso ajudar?

Os primeiros carregamentos de suprimentos já chegaram no país. O problema é que a ajuda vem até onde o dinheiro permite. Alguns países decidiram enviar auxílio de forma unilateral, mas muitas ONGs sérias também se mobilizaram para receber arrecadações e organizar envio de voluntários. Confira como você pode contribuir:

Cruz Vermelha das Filipinas

Além de ajudar no resgate de várias vítimas, a Cruz Vermelha aceita no site doaçõesem dinheiro. Tambémé possível utilizar cartão de crédito com o PayPal.

Site: www.redcross.org.ph/donate

ONG All Hands

A ONG está recrutando voluntários na página do Facebook. Além disso, há uma parte do site da organização destinada a doações para compra de alimentos e medicamentos. É possível doar de qualquer lugar do mundo através de pagamento em cartão de crédito pelo PayPal.

Link para doação: www.secure.commonground.convio.com/allhands/donate/

Médicos Sem Fronteiras

Você também pode ajudar os Médicos Sem Fronteiras a enviar materiais médicos para tratar feridos doando no site em dinheiro, débito automático ou cartão de crédito.

Site: www.msf.org.br/

Ivolunteer

Uma boa opção para quem quer ajudar e não pode doar dinheiro é o programa de voluntariado oferecido pela ONG Filipina Ivolunteer, que visa reunir não somente voluntários filipinos, mas do mundo todo. No site da fundação há uma área específica para quem quiser se candidatar e escolher as atividades que se interessa em participar.

Site: www.ivolunteer.org/

Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas

O programa está recolhendo alimentos para serem entregues nas Filipinas. Quem quiser ajudar pode entrar no site da organização para se cadastrar.

Site: www.wfp.org/

Unicef

A Unicef também recebe doações do mundo todo via Internet. As doações podem ser feitas pelo sistema PayPal em cartão de crédito.

Site: www.unicef.org.br/

NROC

O NROC, National Resources Operations Center (Centro de Operações de Recursos Naturais), também está reunindo voluntários para ajudar o país. Para colaborar é possível se inscrever na página do Facebook.

ONGs “World Vision” e “The Salvation Army”

As Organazações também estão arrecadando doações para unir esforços às Nações Unidas. Ambas aceitam qualquer valor, via cartão de crédito.

 

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Populares

Comentários recentes