qui 21 out 2021
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O intercâmbio é você quem faz

Com um projeto de enviar 101 mil bolsistas para estudar fora do país, o programa Ciência sem Fronteiras virou o desejo de muitos universitários. Porém, três anos de projeto e mais de 71 mil bolsas depois, criou-se um receio quanto ao modo em que o sistema é implantado. Uma carta da Universidade de Southampton, no Reino Unido, foi enviada aos alunos brasileiros da instituição, reclamando que esses estudantes vão para o exterior para viajar e não comparecem às aulas, colocando a credibilidade do programa em prova. A Universidade europeia logo voltou atrás e disse que a carta não deveria ser enviada a todos os alunos, mas sim a pequenos casos pontuais. Contudo, um acompanhamento dos estudantes enviados pelo Programa não é realizado por nenhum órgão brasileiro. Assim, a dúvida persiste: qual é a intenção dos alunos que viajam pelo Ciência sem Fronteiras. O Jornal Comunicação conversou com alguns estudantes brasileiros que estão fazendo intercambio para saber a opinião deles quanto a essa questão.

A seleção

Para quem acha que o processo seletivo é muito rígido, muito se engana. Para Paulo*, intercambista da Techinische Universitiät Dresden, na Alemanha, o processo foi fácil e deveria ser bem mais rígido. A estudante Jaqueline Eich, que está frequentando a mesma Universidade, concorda: “Na verdade eu estava pouco preparada, as foi muito fácil conseguir o intercâmbio, tanto é que tiveram muitas pessoas que vieram pra cá junto comigo sem saber nada de alemão, então foi apenas se inscrever, ter notas regulares na faculdade e provar que você tem um nível baixo de alemão”.

Jaqueline Eich, no quarto em que mora na Casa de Estudantes, em Dresden, Alemanha. Foto de Arquivo Pessoal
Jaqueline Eich, no quarto em que mora na Casa de Estudantes, em Dresden, Alemanha. Foto de Arquivo Pessoal

E o Governo?

Segundo os estudantes, a parte que cabe à universidade de origem é apenas a homologação dos contratos e comprovantes de frequência e notas. Fora isso, nada mais é feito pelo aluno. Para Mariana*, intercambista da University of Derby, na Inglaterra, o contato é mínimo “a faculdade lá do Brasil mantém muito pouco contato, pediram apenas para mandar as matérias que irei cursar aqui”, conta. E o mesmo ocorre com Paulo e com Jaqueline, que tiveram apenas que comprovar as notas regulares para ingressar no programa.

Já por parte do Governo o acompanhamento é mais duradouro, mas também não vai muito além do esperado. “O governo não faz um acompanhamento muito de perto, só solicitam documentos que comprovem algumas coisas quando chegamos ou quando voltamos para o Brasil”, diz Paulo.

Mas antes mesmo de sair do país, alguns estudantes encaram problemas com uma falta de organização do Governo Brasileiro. Jaqueline reclama que as informações demoraram a chegar, mas que depois, o Governo auxiliou bem: “Você fica até os últimos instantes sem ter nada acertado, mas o governo teve parceria com a escola de línguas e com a universidade de lá”.

Universidades Brasileiras X Universidades Estrangeiras

O sistema de ensino no exterior se difere muito do encontrado no Brasil. No caso das faltas, por exemplo, apenas a University of Derby, onde Mariana estuda, tem uma cobrança na presença. “O aluno pode faltar apenas três vezes em cada aula, independente do motivo”, ela explica. Mas já na Technische Universität Dresden a quantidade de faltas depende da matéria, em algumas o estudante pode faltar quantas vezes quiser, mas em outras a presença é mais rígida.

Dinheiro

O dinheiro da Bolsa que estudantes recebem é um tema bem contraditório quando o assunto é o Ciência Sem Fronteiras. Segundo os dados do programa, os bolsistas recebem 800€, o equivalente a R$2mil, para a alimentação, moradia e gastos com a faculdade e o dia a dia. Primeiramente, o Governo pede os comprovantes de gastos com passagem, seguros saúde e material didático mas, após isso, não existe uma grande cobrança financeira: “O governo apenas da o dinheiro, o que cada um faz não interessa a eles”, conta Mariana. Ela e Jaqueline tem a mesma posição quanto ao valor: é o suficiente para sobreviver por lá e que  sabendo cuidar do dinheiro, os alunos conseguem sim usar o dinheiro em viagens. “Da pra pagar moradia, comida e até uma cerveja de vez em quando e, se a pessoa economizar, ela consegue tranquilamente fazer uma viagem”, diz Jaqueline. E Paulo ainda completa: “Sobrar ou faltar dinheiro vai de cada um, é uma questão de saber administrar”.

Viagens

Outro ponto relevante nesse debate é a fama do programa de ser o “Férias Sem Fronteiras”: os estudantes vão para o intercâmbio para aproveitar o dinheiro do Governo Brasileiro e  viajar pela Europa.

Os alunos contam que ao escolher optar pelo intercambio, pensaram primeiramente na experiência, mas também nas viagens que poderiam fazer. Paulo, por exemplo, aproveitou para viajar durante as férias e feriados. Jaqueline faz o mesmo, aproveita também os finais de semana para conhecer os locais próximos da cidade onde vive. E Mariana ressalta que a experiência do intercâmbio vai muito além de só assistir às aulas: “Não posso dizer que vim apenas pelo estudo, porque estaria mentindo, é claro que não vou ficar só viajando, vai muito da consciência do aluno também, mas eu concordo que tem que viajar o máximo que der, porque o intercâmbio não é apenas estudar”, conta ela.

BOX

O que pode ser melhorado segundo os estudantes:

Jaqueline Eich (tem 20 anos e estuda na Technische Universität Dresden – Alemanha) Mariana*(tem 20 anos e estuda na University of Derby – Inglaterra)  Paulo* (tem 22 anos e estuda na Technische Universität Dresden – Alemanha)
“Acho que eles poderiam melhorar a forma de esclarecimento de todo o processo, além ter uma cobrança maior dos alunos e fazer um método de seleção mais eficiente.” “O governo tem que ter um maior controle sobre os alunos que estão aqui fora, como cobrar notas excelentes em todas as matérias. Sinto que a gente é ‘jogado’ aqui, sabe? Porque o governo tem a meta de mandar 101 mil estudantes e só isso que importa pra eles, e não a qualidade que esses estudantes irão fornecer.” “O governo tem que começar pelos órgãos que administram os intercâmbios, pois eles são bastante desorganizados. Isso já seria um grande passo e com o tempo o resto vai melhorando.”

 

*Mariana e Paulo são nomes fictícios. Os estudantes preferiram não se identificar.

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