sex 22 out 2021
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Roberto Requião: “Está uma bagunça”

foto  Requião
Com 73 anos, Requião tem formação em Direito, Jornalismo e Urbanismo.

Roberto Requião, candidato pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), é uma das figuras de maior evidência na política paranaense. O candidato iniciou a carreira como Deputado Estadual em 1982, e, desde então, ocupa cargos públicos. Foi prefeito de Curitiba em 1985 e governador do Paraná em três oportunidades. Desde 2010 assume o cargo de senador.

Em entrevista ao Jornal Comunicação e ao Jornal Brasil de Fato, Requião fala sobre reforma política, democratização da mídia e políticas para as universidades estaduais. O candidato também critica a atual gestão de Beto Richa (PSDB) nas áreas da indústria, educação, segurança pública e comunicações. Sobre a saúde no estado, polêmico, Requião afirma: “o Richa não implantou nada”.

O governador Beto Richa tem divulgado que o legado dele é uma industrialização do Paraná. Como o senhor avalia isso no estado e também nacionalmente, uma vez que se fala em desindustrialização no país?

Roberto Requião. Uma piada. A agência Moody´s colocou o Paraná em zona de risco. Estávamos em zona estável do ponto de vista econômico e agora estamos em zona de risco para investimento. Não aconteceu nada aqui. O Beto Richa apareceu no canteiro de obras da Klabin, dizendo que era um sinal de industrialização. Quem montou aquele canteiro da Klabin foi o Lula na minha presença, com dinheiro do BNDES. Ele (Richa) falou da Renault, que começou no meu governo e foi consolidada no governo (Jaime) Lerner. O Beto não fez nada. E a queda do Paraná é muito grande em velocidade de queda industrial. Nós saímos do sétimo lugar para o primeiro, no meu governo, e já estamos no terceiro de novo e vamos cair no sétimo até o fim do ano. Durante o período em que fui governador o PIB aqui cresceu 20,84%. No governo do Beto Richa o PIB cresceu qualquer coisa como 12%. Caiu pela metade. Estamos em um processo de desindustrialização. Nacionalmente, estamos vendo há vinte e tantos anos uma falta de crescimento no desenvolvimento industrial do país. Uma retração e um aumento do agronegócio. Nós não temos condições de competir com a Ásia com os preços. Então, essas bilateralidades liquidam definitivamente as possibilidades de crescimento industrial do Paraná, a não ser que sejam feitas com países no mesmo padrão de desenvolvimento, e isso está na América do Sul. Quem compra mais do Brasil é Argentina e Colômbia. Os EUA e China não compram nada, China vende e compra commodities. A Aliança do Pacífico é mais uma simulação, um fantasma, não vejo nada de concreto nisso. Nós tínhamos que continuar interagindo com a América do Sul.

Os movimentos sociais entregaram o resultado do Plebiscito Popular por uma Constituinte do sistema político, que alcançou cerca de oito milhões de votos. Qual a sua avaliação sobre a reforma política e uma Constituinte Exclusiva?

O Brasil precisa de um governo que cuide da economia. Reforma política no Brasil para mim é proibir a doação privada de empresas para campanha eleitoral.

Mas não é necessária maior participação da sociedade?

O problema do governo é o próprio governo. O problema do governo são os financiamentos de campanha. É só você olhar as quantias que as empresas estão dando para os partidos. O PT, hoje, é o que mais arrecada porque está no governo. E você vê qual é a razão principal da política impopular. Quem recebe um bilhão e duzentos milhões de um grupo empresarial não vai nunca agir contra ele e fica dizendo que não pode fazer nada porque não tem uma reforma política. É claro que pode se mudar alguma coisa, mas não é verdadeiro. Não acredito nisso. Reforma política com Banco Central dependente dos bancos? E quero dizer para você que o Banco Central é dependente no governo do Lula, da Dilma. Quando no Lula era o Meirelles o presidente do Banco Central, só não era nominalmente, mas (o Banco Central) era dependente dos bancos e independente do governo.

E a proposta que agora ressurge com a candidatura de Marina Silva de independência e autonomia do Banco Central?

Eu acho uma droga isso, mas é exatamente o que faz o PT. O Meirelles teve total independência no Banco Central, tanto que os bancos tiveram maior lucro do mundo nesse período. É preciso limitar o capital financeiro no mundo, não só no país. E não é só eu que digo isso, o Papa diz também. Não se pode servir a Deus e a Mamon ao mesmo tempo. E Mamon, em hebraico, é dinheiro. O domínio do capital financeiro e dos bancos está escravizando países como a Espanha, Itália, Portugal, Grécia. A dominação do capital financeiro é evidente, com o sacrifício para a economia e os povos desses países todos. A Marina coloca explicitamente, mas não difere nada do que foi o Meirelles no Banco Central.  Eu não vou embarcar nessa conversa.

O senhor vai manter o modelo herdado do governo Beto Richa na Saúde, de ampliação das terceirizações e falta de investimento estipulado em Lei?

O Richa não implantou nada. Ele parou os 44 hospitais que eu construí e simula tudo com cinco helicópteros com uma cruz vermelha pintada na calda, em um estado com 11 milhões de habitantes, e com os hospitais parados. Por exemplo, eu deixei um hospital em Telêmaco Borba (região Centro do estado) com 95% pronto, que está parado há quatro anos. Sou absolutamente contra a terceirização. Temos que colocar os hospitais públicos para funcionar. Sobre o investimento, eu, por exemplo, não investi no começo os 12%. Porque não tinha estrutura, só se eu transformasse em salário e terceirização. Eu construí treze hospitais novos, reformei mais 31 hospitais ampliados, montei as clínicas da mulher e da criança, inaugurei 119 e deixei 90 prontas para inaugurar, numa rede de 250. Criei uma estrutura para funcionar. Se isso funcionar, os 12% não chegam mais. A idéia era essa. Só que o Beto parou essa estrutura. Sem estrutura e sem investimento. Ele tem um programa de terceirização, só.

Queremos sua avaliação sobre a necessidade de democratização dos meios de comunicação no país e uma avaliação sobre a política do governo Beto Richa em relação à Rádio e TV do estado e à mídia pública?

Ele acabou com tudo isso. Não tem política. Gastou 600 milhões de reais nesses três anos em propaganda. Agora, a minha política é o projeto do Senado, já aprovado e na mesa da Câmara, que garante direito de resposta, daí já está praticamente resolvido o problema. Daí o problema é o monopólio econômico das redes de televisão, a propriedade cruzada e tudo mais. Mas é um problema econômico. Porque se a Globo disser um desaforo para mim, e eu puder responder no dia seguinte, eu desmoralizei o Jornal Nacional. Na mesa da Câmara e o Henrique Alves não põe em votação, está em regime de urgência, aprovado no Senado. O Paraná optou pela rede privada de comunicação, onde ele compra opinião e praticamente desativou a Tv estatal. Não acredito em lendas. A televisão do estado abre espaços para movimentos sociais, sindicatos, igrejas, foi o que eu fiz. Mas é uma TV do estado, abrindo espaço para os movimentos sociais, até da Telesur, para quebrar o monopólio da pluralidade. (No meu governo) a TV volta a ser o que era.

O despreparo e preconceito de alguns profissionais da Saúde Pública impedem o acesso das pessoas LGBTs à saúde pública e integral previstos em Lei. Qual a sua proposta para saúde da população LGBT, na medida em que o Paraná não realiza cirurgia de mudança de gênero.

Eu sou presidente de honra do grupo LGBTs. Eu acho que acima de tudo o respeito e nós temos que botar a estrutura a funcionar. Não tem especificidades. Tem que funcionar a estrutura. Nós não temos hospitais para nada mais. Estão todos parados. Você me pergunta o que eu vou fazer com esse tipo de cirurgia e eu te pergunto, eu tenho que cuidar da saúde pública de uma forma geral para chegar nisso também. Precisamos dar uma mexida na formação dos médicos. Nossos médicos hoje estão saindo da universidade para abrir uma boutique de imagem da medicina. Temos que alterar a formação. Mas isso, cá entre nós, está sendo feito já. A Dilma trouxe os cubanos, mas abriu 21 mil vagas em faculdades de ensino. Tem que ampliar isso.

Um tema que não aparece nos debates sobre o sistema prisional no Paraná: é preciso ruptura com as empresas de alimentação que são contratadas pelo estado e fornecem alimentação estragada para os presídio no estado?

É preciso gestão e fiscalização. Se o Estado aceita, vai assim. Está uma bagunça. Puseram 4500 presos a mais nas penitenciárias sem aumentar uma cela. Está superlotado. Não tem manutenção. O sistema automático de controle portas de celas e galeria não funciona. O número de agentes é precário. No levante de Cascavel (Oeste do estado) tinham nove agentes para 1100 presos. Você quer o quê nesse processo? Sem sabonete, sem papel higiênico, o PCC festejou seu aniversário no dia 31 do mês passado com bolo e salgadinho na Penitenciária de Piraquara. E eu acabo de saber que estou proibido de dizer isso pela Justiça Eleitoral. Não é dose para elefante?

E o que seria feito de imediato nessas penitenciárias?

Gestão, governo, autoridade. E tem que mudar o regime prisional. 43% dos presos no Brasil são prisões provisórias. O cara não foi condenado, nem indiciado e muito provavelmente a maioria nem vai ser. E se for vai ser condenado a um ano e já passou cinco presos. Os juízes autorizam prisão provisória sem justificar, por prazos ilimitados. Tem um projeto meu que já está tramitando, de exigir, primeiro, decreto de prisão provisória motivada. Por um determinado prazo em relação ao crime imputado. Só podem ser renovadas por uma câmara do tribunal, não podem ser renovadas por um juiz singular. 43% dos presos são de prisões provisórias. Só existe isso no Brasil. É jabuticaba e prisão provisória, dois produtos originalmente brasileiros.

Qual é a sua avaliação sobre a implementação das UPSs nas periferias de Curitiba e do estado?

É uma coisa que pode ser usada em determinado momento ou não. Só um módulo policial, não é UPS. Aqui em Curitiba existia, não deu certo acabou. Agora em determinadas circunstancias você pode utilizar uma UPS. Ela espreme a criminalidade para outros lugares. Sai de um lugar vai para o outro. Isso não significa que não deva ser usada em determinadas situações de crise. Você veja o que está se tornando a UPS no Rio de Janeiro. Estupro, assassinato de pobre.

Em relação às universidades estaduais, qual seria uma proposta para pensar no funcionamento do ensino superior, visto que elas não tem autonomia de gestão e financiamento.

Que bom, né? Porque se não transformavam tudo em salário e não funcionava mais. Ela tem que ter autonomia pedagógica, didática, mas tem que haver uma contenção. As universidades, no período em que fui governador, tiveram o maior investimento da história do Paraná. E a tal autonomia financeira de gestão fez com que um professor de Física ganhasse em uma universidade dois mil reais e na outra doze. Transformou tudo isso em uma bagunça única e eu equalizei isso, estabeleci salários comuns para as universidades públicas. Não podemos viver de lenda. Autonomia didática e pedagógica é necessidade absoluta. Autonomia financeira: como é que funcionava? Elas iam para um dissídio coletivo. O juiz era professor da universidade, o advogado da universidade era o professor da universidade. E o Estado pagava a conta. Você não pode ter uma autonomia financeira, uma autonomia absoluta de gestão financeira com o Estado pagando a conta sem poder interferir no processo.

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