seg 18 out 2021
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Teatro em Curitiba traz reflexão sobre as mulheres e grupos LGBTs

“Um em cada quatro brasileiros acredita que a mulher que usa roupa curta merece ser atacada”, diz pesquisa do Ipea. “Medo de agressão faz gays andarem em grupo em SP”, aponta manchete da Folha de S. Paulo. A vulnerabilidade de grupos sociais, como o de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgêneros (LGBTs) e o feminista, aparece com frequência estampada em dados de pesquisas e notícias de jornais.

Nesse contexto, o Festival de Teatro de Curitiba de 2014, que ocorreu de 25 de março à 6 de abril, cumpriu a função dramaturga de levantar temas que precisam ser discutidos pela sociedade curitibana. Para isso, o evento abordou temáticas que envolvem as questões de minorias sociais, como a população LGBT e as mulheres.

Apoiadas por coletivos como o Transgrupo Marcela Prado  (associação de transexuais e travestis de Curitiba), os temas foram abordados em mais de 15 peças no Festival. O destaque dessa edição foi a inovação dos enredos e a presença de montagens de São Paulo e Porto Alegre na amostra.

Segundo Rafaelly Wiest, presidente do Transgrupo, a peça Transgressões foi divulgada pela organização porque cumpria a função de desconstruir o estigma que paira sobre a temática LGBT. “Nós apoiamos o projeto porque ele tinha muita informação. Esse perfil ajuda a desmistificar a caricatura que se construiu ao redor dos gays, lésbicas e transexuais”, conta Rafaelly.

Será que eu sou?

Para contextualizar o espetáculo, elementos da Copa do Mundo integraram o novo cenário da peça
(Foto: Divulgação)

O espetáculo Será que eu sou?, exibido entre os dias 27 de março e 04 de abril, abordou a relação entre dois amigos que se reúnem para assistir um jogo de futebol. No início, ambos parecem heterossexuais, mas, na adrenalina do primeiro gol, eles trocam um beijo. A partir daí, a cada gol repete-se a mesma ação.

Ao longo da peça, eles descobrem outros fatos que indicam a tendência deles à homossexualidade. Mesmo assim, ambos negam a descoberta temendo a reação da sociedade. Além de garantir o humor da peça, o impasse revela a crítica do enredo.

Segundo Jair Ranyelle, ator da peça, a intenção é alertar como os preconceitos que a sociedade constrói são capazes de impedir a união de um casal homossexual. “Nós tentamos, através da dramaturgia, quebrar o preconceito e mostrar o drama para um casal gay ficar junto”, conta Jair.

A peça, que já havia sido exibida outas 14 vezes, foi adaptada para ser apresentada no Festival. Bryan Kraufczyk, que também atua no espetáculo, conta que o cenário ganhou mais recursos estéticos para remeter à Copa, como a cortina verde-amarela. As alterações também agregaram mais simbologias, como explica Bryan: “Quando meu personagem se assumia gay, eu colocava fitas rosas na cortina, o que trazia uma simbologia maior à peça.”

Corpos de fogo, peles de anjo

Masturbação, casamento e solidão são alguns dos tabus femininos explorados na peça
(Foto: Divulgação)

Exibida entre os dias 26 e 28 de março, a peça Corpos de fogo, peles de anjo emocionou o público. Com um texto e atuação impecáveis, ela mostrou a desigualdade de direitos entre homens e mulheres, bem como a repressão de sentimentos que as mulheres enfrentam.

A obra abordou o olhar que a civilização ocidental tem sobre o sexo feminino. “As mulheres são lembradas na História por dois motivos: Ou por serem loucas, ou como paisagens”, conta a personagem Virgínia durante a peça. A loucura é um dos fios condutores da poética na trama. Do início ao fim, os desejos, necessidades e sensações das personagens se confundem com a loucura refletida no imaginário feminino.

Segundo o diretor do espetáculo, Nilceu Bernardo, a ideia não se baseou exatamente na ideologia feminista, porém abordou indiretamente a temática: “Nunca tivemos em mente fazer uma peça feminista, exatamente com esse termo, mas acho que atendemos esse quesito quando perseguimos uma pesquisa que falasse de um universo em que não se tem uma liberdade plena”.

A peça experimental retratou personalidades cotidianas, ressaltando a força delas no ideal que buscavam. Desse modo, o espetáculo fez um esboço da transformação da mulher na sociedade contemporânea e contribuiu para reflexão sobre o papel dela no contexto atual.

Um dos auges da peça foi a homenagem, em três vozes, às mulheres do cotidiano brasileiro: “Salve Sabrina, salve Mariana, salve Joana D’arc, salve Leda.”. Em coro, as personagens se uniam num círculo e proclamavam os nomes de mulheres importantes, algumas por serem marcos da História Mundial, outras por viverem suas lutas cotidianas.

Yuri Duarte, expectador de Corpos de fogo, peles de anjo, conta que o enredo não teve nenhum “momento de queda” – do início ao fim a peça cativou o público. Duarte ainda ressalta a reflexão que a peça trouxe: “Era muito emocionante. Em vários momentos as personagens me lembravam as mulheres da minha família, porque elas eram guerreiras e batalhadoras que enfrentam desafios, como minha avó e minha mãe”.

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