qui 29 set 2022
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Tensões entre China e EUA apresentam consequências para Brasil

Comércio brasileiro com a China deve ultrapassar recorde histórico de faturamento de US$ 140 bilhões. No entanto, possibilidade de conflito armado em Taiwan afetaria negativamente a economia mundial

No último sábado (27), a China enviou uma “patrulha de preparação de combate” a Taiwan, em resposta à visita de congressistas americanos à ilha. Uma guerra na região poderia ter consequências imprevisíveis, inclusive para o Brasil, que têm China e Estados Unidos como principais parceiros comerciais.

Apesar de as relações entre China e Taiwan sempre terem sido conflituosas, a tensão começou a aumentar no sudeste asiático nos últimos meses. O caso faz parte de um contexto maior de disputa pelo domínio na região envolvendo americanos e chineses, que tem gerado uma incessante troca de farpas entre os dois países – e tem incluído até o lançamento de mísseis.

A China não reconhece Taiwan como um país independente, mesmo que tenha um Estado próprio desde 1949, democrático e aliado aos Estados Unidos. Essa aliança é uma das principais preocupações do governo chinês, que anunciou a intenção de reconquistar Taiwan em outubro. Logo em seguida, os Estados Unidos já deixaram claro que apoiariam a ilha em um possível conflito armado contra os chineses.

Desde então, o sudeste asiático se divide entre aliados americanos – países como Coreia do Sul, Japão, o próprio Taiwan, além da Austrália (pertencente à Oceania) – e chineses, cujos principais aliados são Coreia do Norte e Vietnã. Contudo, a tensão afeta relações em todo o planeta, inclusive no Brasil.

Até o momento, as consequências desses conflitos têm sido positivas para o comércio brasileiro, como aponta Adilar Antonio Cigolini, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná. “Não é uma questão só de agora. Desde que o ex-presidente Trump estabeleceu tarifas alfandegárias e restrições aos produtos chineses, houve também restrições a produtos estadunidenses pelos chineses”, explica. 

As taxas comerciais entre os dois países afetaram principalmente os produtos agropecuários, área em que o Brasil e os Estados Unidos têm certa semelhança, acabando por aumentar a exportação brasileira para a China. Este ano, a expectativa é que o comércio sino-brasileiro ultrapasse o recorde histórico de US$ 140 bilhões.

Estar em meio a tensões entre China e Estados Unidos não é uma situação exatamente favorável para o Brasil do ponto de vista político, tendo em vista que essas nações são essenciais para o comércio brasileiro. A China é o principal parceiro econômico nacional, seguido por Estados Unidos, Argentina e União Europeia.

Saber encontrar uma posição que não perturbe nenhum dos lados é essencial neste contexto, de acordo com o professor Renato Perissonotto, do Departamento de Ciência Política da UFPR. Ele classifica os acontecimentos recentes como uma Segunda Guerra Fria, semelhante à que aconteceu no século XX entre Estados Unidos e União Soviética. 

“É uma situação de conflito potencial, mas, como os dois são muito fortes, um tem medo de atacar o outro. Uma guerra entre Estados Unidos e China geraria efeitos catastróficos com relação à economia”, afirma.

Conflitos entre China e Estados Unidos

De cada lado do conflito, as duas maiores potências mundiais buscam alianças políticas e econômicas. Como em um jogo de xadrez, China e Estados Unidos travam ações a fim de conquistarem mais aliados para si. O objetivo não é apenas ser a maior economia do planeta – é, principalmente, ser maior do que seu adversário. 

“A China joga com paciência, não tem pressa e tem ganhado espaço. Já é uma potência econômica com relações muito bem estruturadas no espaço mundial, o que preocupa os Estados Unidos”, expõe o professor Adilar Cigolini.

Os Estados Unidos surgiram como a maior economia mundial após o término da Segunda Guerra Mundial e permanecem nesta posição até o momento. Já a China, que possui um governo comunista desde 1949, atravessou um processo de abertura ao capital estrangeiro nos anos 1980. Hoje, seu regime – conhecido como socialismo de mercado – mescla características socialistas na política e princípios mercadológicos na economia. 

Existem estimativas de que a China poderá ultrapassar economicamente os Estados Unidos ainda na década de 2020. Porém, no caso de um conflito no sudeste asiático, ela estaria em piores condições do que os americanos. Enquanto os Estados Unidos oferecem suporte econômico e militar nas proximidades do território chinês, as alianças da China se concentram principalmente na América Latina e na África. 

“Os Estados Unidos mantêm como aliados os países ao redor da China porque eles também têm medo. Para mim fica claro que a China não possui o poder que gostaria de ter no sudeste asiático”, comenta Alfredo Kleper Lavor, economista com experiência em comércio exterior.

As chances de acontecer de fato uma guerra são muito baixas, segundo os especialistas, já que seria um movimento arriscado, com potencial de desestabilizar economicamente as duas potências. “Se olharmos para o passado, um conflito armado não parece ser completamente descartado. Mas a China se arriscaria num movimento mais brusco, considerando todos os riscos, pela posse de Taiwan?”, questiona Adilar.

Por que Taiwan

Taiwan e China sempre estiveram em conflito. Em 1945, a China se dividia entre o partido nacionalista (Kuomintang) e o comunista (Partido Comunista Chinês). Derrotados na Guerra Civil Chinesa, os nacionalistas migraram para Taiwan a fim de implantar o sistema capitalista de produção. A chamada “China continental”, por sua vez, tornou-se comunista, como é até hoje.

Desde os anos 1950, Taiwan possui um Estado próprio, independente da China, e é plenamente aceito como um país – menos para os chineses, que ainda desejam o domínio da região. O governo de Xi Jinping ameaça constantemente invadir a ilha, mas, desde setembro deste ano, as intimações se tornaram cada vez mais agressivas.

De acordo com o ministro da Defesa de Taiwan, as tensões militares entre os dois países são as piores dos últimos 40 anos. No início de outubro, um dos porta-vozes do Escritório de Assuntos de Taiwan da China, Zhu Fenglian, anunciou que as pessoas que apoiarem a independência de Taiwan sofrerão punições do governo chinês.

Apesar dos conflitos que enfrenta e de ter se industrializado depois do Brasil, a ilha é hoje um dos polos comerciais mais importantes do sudeste asiático. Em 2020, seu Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 2,98%, ultrapassando o crescimento do PIB chinês, que totalizou 2,3%. 

Confira mais informações sobre o desenvolvimento e a industrialização de Taiwan, sua relação com a China e a posição do Brasil no conflito atual no podcast a seguir:

Isabela Stanga
Estudante do curso de Jornalismo da UFPR.
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