Ao abrir um bombom que costumava ser o favorito da infância, surge o sentimento de que algo mudou. A sensação ao morder a barra não é a mesma, o derretimento na boca parece mais gorduroso e a embalagem, curiosamente, parece bem menor do que a que habita as memórias. Talvez você já tenha passado por uma experiência parecida.
Se você se identificou e acha que a explicação está no amadurecimento do seu paladar, saiba que essa não é a única razão. Muito mais do que apenas uma impressão nostálgica: o chocolate como conhecemos está passando por uma mutação. O motivo? Uma crise sem precedentes na cadeia do cacau.
Sabor de alta histórica na economia
A queda na oferta de cacau, impulsionada pela crise climática e a produção centralizada em países africanos, fez o preço da commodity atingir a alta histórica em dezembro 2024, com o valor da tonelada chegando a U$12 mil, uma cifra quase três vezes maior em comparação com o mesmo mês em 2023. O aumento repentino do preço da saca ocasionou uma crise global do cacau, impactando desde as grandes indústrias até os pequenos negócios no mundo todo. Os ecos dessa crise reverberaram no Brasil, atingindo diretamente o mercado nacional de chocolate e derivados e gerando debates no Congresso.
Aproximadamente 60% da produção global de cacau está centralizada na África Ocidental, dividida entre Costa do Marfim (39%), Gana (14,5%) e Nigéria (6,3%). Em 2023, o El Niño ocasionou secas e temperaturas mais elevadas que o normal na região, o que impactou diretamente a lavoura. “Essa elevada concentração agrava a instabilidade dos preços porque qualquer problema climático, sanitário, político ou logístico nos principais produtores afeta imediatamente a oferta global. Eventos como secas, excesso de chuvas, pragas, envelhecimento dos cacaueiros, restrições de fertilizantes ou instabilidade institucional podem provocar quedas na produção mundial”, afirma o economista Junior Garcia.
E até mesmo pequenas quedas na produção do cacau, inferiores às registradas a partir de 2023, podem provocar impactos expressivos nos preços. “A demanda global por chocolate apresenta relativa estabilidade e crescimento no longo prazo. Assim, pequenas reduções na oferta podem gerar fortes elevações de preços, porque o cacau possui baixa elasticidade de oferta no curto prazo: novos plantios levam anos para entrar em produção”, completa Garcia.
Mudanças climáticas
No centro dessa tempestade econômica está o fator climático. O cacau é uma cultura extremamente sensível. Fenômenos como o El Niño trouxeram secas prolongadas e estresse hídrico, enquanto o La Niña trouxe excesso de chuvas que favorecem proliferação de doenças na planta.
Assim, a crise climática aparece como um dos principais causadores de baixas produtivas, por proporcionar menor estabilidade do clima e aumentar a incidência de eventos climáticos extremos. “O excesso de chuva ou a estiagem interferem em dois processos. O primeiro seria a pré-colheita, que a gente fala que é a produção do cacau. Porque acaba trazendo mais pragas, doenças e dificuldades para o desenvolvimento saudável da plantação. Tudo isso vai interferir na qualidade do grão final, na manufatura da amêndoa do cacau no pós-colheita”, explica o engenheiro agrônomo Roney Smolareck.
Para o produtor, o desafio é técnico e financeiro. O engenheiro agrônomo faz uma analogia com o preparo de uma carne para explicar o processo de secagem da amêndoa do cacau: se o fogo for muito alto, a parte externa vitrifica e o interior permanece úmido e “cru”, comprometendo o sabor final.
Um lote com umidade acima do padrão de 7,5% pode perder quase 3% de seu valor comercial apenas na correção de peso, um prejuízo determinante em tempos de margens apertadas,aponta Smolareck. “Não dá só para ficar esperando o clima, o produtor tem que investir na melhoria dos processos para trazer benefícios”, defende.
Produção alternativa
É nesse cenário que um método agroecológico do plantio de cacau, chamado “cabruca”, ganha espaço no debate de produção consciente. O sistema cabruca é uma técnica tradicional de cultivo de cacau em que os cacaueiros são plantados sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, preservando parte da vegetação original.
Desenvolvido principalmente no sul da Bahia, o modelo busca conciliar produção agrícola e conservação ambiental, reduzindo o desmatamento e mantendo a biodiversidade da floresta. “O Brasil possui condições naturais e capacidade técnico-científica para ampliar a produção de maneira sustentável”, projeta Júnior Garcia.
“Todo o processo, desde a derrubada, desde a colheita, desde a seleção das cabaças, a fermentação, tudo é feito na comunidade”, conta a produtora Katyana Xipaya. Iniciativas de bioeconomia, como a dela na Volta Grande do Xingu, mostram o poder de transformação social dessa cadeia: uma amêndoa vendida como commodity por R$15 o quilo pode gerar até R$700 em valor agregado quando transformada em chocolate artesanal dentro da própria comunidade indígena. “Tendo o negócio no meio da Amazônia, a gente pode mostrar a nossa sustentabilidade, mostrar produto e origem. Aquele produto ali é originário de um produto indígena onde a gente está de mão com sustentabilidade, que a nossa plantação é toda cuidada de forma diferente, sabe?”, acrescenta.
O advogado Arystides Athaide, especialista em ESG — do inglês Environmental, Social, and Governance, é um conjunto de diretrizes que mede o impacto ambiental, social e a transparência administrativa de uma empresa —, alerta que o método cabruca possui limitações para aplicação em larga escala industrial, embora seja considerado um dos modelos de cultivo menos agressivos ao meio ambiente. Segundo ele, a produtividade reduzida do cabruca o impossibilita de atender sozinho à demanda global por cacau.
O impacto nos grandes e nos pequenos negócios
As grandes indústrias produtoras de chocolate, como Mondelez e Procter & Gamble, encontraram várias maneiras de “driblar” a alta nos preços do cacau. Uma das soluções foi substituir o insumo tradicional por ingredientes semelhantes. “A indústria tende a ampliar o uso de substitutos mais baratos, como gorduras vegetais alternativas, aromatizantes artificiais, açúcar e outros aditivos. Em muitos casos, ocorre redução do teor efetivo de cacau nos produtos, especialmente nos segmentos de menor valor agregado. Essas estratégias são adotadas mais para os produtos baratos ou populares”, explica o economista Garcia.

Esse novo “jeitinho” adotado pelas grandes indústrias virou objeto de legislação depois de provocar debates no Congresso Nacional, que estabeleceu parâmetros legais para o que será considerado chocolate verdadeiro ou “fake”. A Lei Federal 15.404/2026, sancionada pelo Presidente da República em maio, determina que os chocolates devem possuir no mínimo 35% de conteúdo sólido de cacau. A regra é válida para os produtos brasileiros e importados e as empresas do setor terão 360 dias para se adaptarem às novas condições.
Outra estratégia utilizada para mascarar o aumento nos custos de produção é a “reduflação”. Esse processo consiste em diminuir o peso, volume ou quantidade e manter, ou até mesmo aumentar, o preço de um produto para segurar a margem de lucro sem assustar o consumidor final.
O advogado Guilherme Sayevicz Habib, especialista em direito do consumidor, alerta que a reduflação pode configurar prática abusiva se não for comunicada claramente. “A legislação não impede que empresas reajustem preços, alterem fórmulas ou adaptem produtos diante de crises econômicas ou aumento do custo de matérias-primas. O que a lei exige é transparência adequada. Quando mudanças relevantes são feitas de forma silenciosa, mantendo aparência visual semelhante e dificultando a percepção da alteração, pode haver violação ao dever de informação e ao princípio da boa-fé”, explica Habib. Para o também advogado especialista em direito do consumidor, Luigi Bertoldo, “esse fenômeno mascara a inflação e prejudica o planejamento financeiro doméstico, já que o impacto no orçamento não é detectado diretamente no total do cupom fiscal, mas sim na durabilidade e quantidade do produto.”
Diferentemente dos grandes do mercado do chocolate, que dispõe de um arsenal de alternativas para manterem os lucros em alta, o segmento de chocolaterias artesanais, formado em maior parte por pequenos negócios, passa por uma situação muito mais amarga e menos lucrativa.
Esse é o caso das irmãs Rafaella e Bibiana Schneider, responsáveis pela chocolateria curitibana Cuore di Cacao. A empresa trabalha com o método “bean to bar”, em que há controle integral da produção do chocolate, da seleção e cultivo do cacau até o produto final, priorizando chocolates mais puros e com maior qualidade.

“A crise do cacau teve fortíssimo impacto sobre o custo direto dos chocolates, pois as amêndoas de cacau tiveram seu custo dobrado ou até triplicado e a manteiga de cacau chegou a custar até 5 a 8 vezes mais que antes da crise. Tivemos de ajustar preços e reduzir margens de lucro para atravessarmos o período de maior impacto”, destaca Rafaella Schneider.
O relato de Julian Caron-Lys, dono da chocolateria Utopia Tropical, segue na mesma linha. “Antes da crise, comprávamos cacau na faixa de R$30 a R$35 por kg. Durante a crise, esse valor chegou a cerca de R$90 por kg, sem considerar frete. No bean-to-bar, ainda existe uma perda natural de 25% a 30% do peso durante o processo, o que amplifica ainda mais o impacto do aumento do preço da matéria-prima. Na prática, o custo de produção quase dobrou. Porém, não foi possível repassar integralmente esse aumento ao consumidor”, conta.
Um futuro doce ou amargo?
Em 2026, o preço da tonelada do cacau parece ter entrado em trajetória de estabilização, sendo cotado atualmente em cerca de US$3.844, com tendência de queda. Ainda assim, essa redução pode demorar a chegar ao consumidor final, considerando que muitas indústrias e chocolaterias ainda trabalham com estoques adquiridos no período de alta.
A nova legislação também traz maior segurança ao consumidor, que agora terá a garantia de saber se os chocolates nas prateleiras são ou não compostos apenas por gordura vegetal, aromatizantes e açúcares.
O movimento bean-to-bar (do grão à barra) cresce justamente nessa brecha, atraindo consumidores que, cansados da “reduflação” sensorial das grandes marcas, aceitam pagar mais por um produto que ainda guarda o sabor original do fruto.
O futuro do chocolate, portanto, será decidido tanto no laboratório quanto na floresta. Entre a transparência exigida pelo Código de Defesa do Consumidor e a resiliência dos sistemas agroecológicos, o desafio é garantir que o prazer de abrir um bombom não se torne apenas uma memória nostálgica, mas um ato que sustenta um ecossistema inteiro.A maior incerteza do mercado do chocolate continuará sendo o clima. Em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, garantir a estabilidade da cadeia do cacau dependerá, cada vez mais, da capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
Pauteiros: Alana Morzelli Siqueira; Alice dos Passos Lima; Ana Clara Osinski; Giuliano Carbonari Boneti e Isadora Dias Kovalckzuk
Texto: Luísa de Cássia e Manoel Salvador
Entrevistas: Gustavo Gomes, Manoel Salvador, Marya Marcondes e Vitor Beninni
Infográfico: Luísa de Cássia
Reels: Marya Marcondes no roteiro e edição (com Gustavo Gomes como cinegrafista)
Edição e revisão final: Marya Marcondes
Orientação: Cândida de Oliveira



