seg 18 out 2021
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Uso prolongado do celular e de redes sem fio pode fazer mal à saúde

Segundo o pesquisador Álvaro Salles, quanto maior o tempo
de utilização do celular, maior o risco à saúde.   Foto: Mariana Baú

A exposição por longo tempo a baixos níveis de radiação pode causar danos às células do corpo humano. É o que afirma a pesquisa “Efeitos Biológicos da Telefonia Celular e de Outros Sistemas de Comunicação Sem Fio”, do professor de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Álvaro Almeida de Salles. O trabalho, apresentado no início deste ano, mostra que o uso frequente do celular e a exposição às redes de internet sem fio podem alterar as estruturas de DNA do ser humano.

Os estudos foram realizados a partir de simulações e medidas dos campos eletromagnéticos nas faixas não ionizantes de radiação – aquelas que carregam menos energia. Além disso, o pesquisador analisou a absorção dessas faixas nos tecidos biológicos e a comparou com outros trabalhos científicos.

“Os principais resultados obtidos mostram que o uso frequente do celular ou das redes sem fio pode sim causar problemas à saúde humana, como, por exemplo, o desenvolvimento de tumores malignos, o câncer”, explica Salles. Segundo o professor, dois efeitos foram observados durante a pesquisa: o primeiro é chamado de agudo, causado por um nível alto de exposição por um curto período de tempo e o segundo é o crônico, aquele em que a pessoa passa horas por dia, durante muitos anos, submetida à radiação.

Salles afirma que o efeito crônico pode causar no indivíduo as quebras simples ou quebras duplas das cadeias de DNA, além de desequilíbrio na produção do oxigênio e de proteína nas células, e até choque térmico. “É difícil afirmar um limite de exposição abaixo do qual a radiação não afeta a saúde, e acima do qual os efeitos são danosos”, completa o pesquisador. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a radiação não ionizante como possivelmente cancerígena e, por isso, recomenda que a exposição a ela seja reduzida – enquanto outras pesquisas não forem realizadas.

De acordo com Salles, a taxa de risco cresce com o número de horas e anos que as pessoas passam com aparelhos celulares e redes sem fio. O estudo mostra que, em países que utilizam telefonia móvel há mais tempo, há um aumento no desenvolvimento de tumores cerebrais entre os usuários mais constantes dos aparelhos. “Geralmente, essa alteração coincide com o lado da cabeça em que o aparelho é normalmente utilizado”, garante o pesquisador.

Distância e tempo

Uma pesquisa realizada pelo Jornal Co:::unicação com 20 alunos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), comprovou um hábito comum entre os jovens brasileiros: 90% dos entrevistados admitiram dormir com o celular ao lado da cama e, 85% frequentam muitos lugares com redes sem fio. Esses hábitos, segundo o professor Álvaro Salles, podem aumentar os riscos à saúde, especialmente se o aparelho for usado encostado na cabeça por longos períodos. Os fabricantes também recomendam que os aparelhos não sejam operados a distâncias menores que 2 ou 1,5 cm de qualquer parte do corpo. Mas, de acordo com Salles, essas recomendações estão em letras miúdas, perdidas no manual de operação.

“O ato de usar fones de ouvido, viva voz e mensagens de texto deveria ser estimulado e amplamente divulgado pelos órgãos governamentais responsáveis pela saúde pública, pelos fabricantes e pelas operadoras”, instrui o professor. Segundo o pesquisador norte-americano Om Ghandi, a cada milímetro que a pessoa afasta o celular da cabeça, o nível de exposição à radiação cai de 10% a 15%. Ou seja, se o afastamento for de 1 cm, o índice baixa mais que 100%, o que deve reduzir os riscos à saúde.

Ainda de acordo com a pesquisa realizada com alguns alunos da UFPR, 60% acreditam que esses hábitos podem ser prejudiciais ao ser humano, mas, em contrapartida, apenas sete estudantes afirmaram que celulares e redes wi-fi podem “causar câncer”. A proposta de incentivo à utilização de acessórios ao invés desses aparelhos, para Álvaro Salles, é muito importante para disseminar os riscos causados pelos maus hábitos das pessoas. “Isso deve ocorrer o mais cedo possível, antes que seja tarde demais para recuperar os danos”, conclui o professor.

Em pesquisa realizada com 20 alunos da UFPR, 85% disseram frequentar lugares com redes sem fio. Foto: Divulgação/Portal Uol

Em âmbito internacional

Apesar da questão dos efeitos biológicos do celular dividir a comunidade acadêmica mundial, outros estudos também alertam contra os perigos da radiação não ionizante. Dois exemplos são: “Celulares e tumores cerebrais: 15 razões para preocupação”, da International EMF Collaborative e “Radiação celular: revisão científica sobre riscos de câncer e saúde infantil”, do Environmental Working Group (EWG). Ambos foram publicados este ano nos Estados Unidos.

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