seg 18 out 2021
HomeCidadeWebséries representam novo nicho do mercado audiovisual brasileiro

Webséries representam novo nicho do mercado audiovisual brasileiro

Quatro bilhões de horas em vídeos assistidas, um bilhão de usuários ativos e mais de 3,1 milhões de horas de conteúdo postado – tudo isso mensalmente. Essas são as impressionantes marcas atingidas pelo YouTube, maior plataforma online de compartilhamento de vídeos do mundo. Oferecendo grande visibilidade e nenhum custo extra para veiculação de conteúdo, o site tem chamado a atenção de pequenas produtoras e se estabelecendo como o principal reduto das webséries. Os seriados virtuais, atualmente, representam uma fatia considerável da indústria cultural brasileira.

Como o nome sugere, as webséries – ou webshows – são seriados hospedados e compartilhados no ambiente virtual, em plataformas de armazenamento de vídeos. A produção pioneira do gênero foi a série americana Homicide: Second Shift, drama policial que estreou em 1997 e funcionava como um complemento ao sucesso da TV estadunidense Homicide: Life on the Street.

No Brasil, o boom aconteceu em 2011, quando produtoras brasileiras apostaram suas fichas em episódios piloto curtos, mas com ares de produção hollywoodiana, que foram postados na internet com o objetivo de atrair patrocinadores. Dessa leva, surgiram destaques como #E_VC?, O Demônio não Sabe Brincar e o estrondoso sucesso 3%, considerada até hoje uma das referências do gênero. Desde então, os sites de armazenamento de vídeos tem sido portas de entrada para produtores, diretores, atores e roteiristas iniciantes. Hoje, já existem diversas produtoras audiovisuais especializadas em mídia online.

Os sonhos e os percalços

Websérie sobre zumbis é um dos grandes sucessos paranaenses do gênero
(Foto: Divulgação)

Inspirado pela franquia Resident Evil, o ator e diretor curitibano Everson Wess reuniu alguns amigos para anunciar que pretendia criar uma série sobre zumbis e contava com a participação deles no elenco. Naquele momento, a websérie Lifeless – Sem Vida dava seus primeiros passos. Assistida aproximadamente 16 mil vezes e com cerca de 4 mil curtidas em sua fanpage, a produção vem se destacando como um dos maiores sucessos paranaenses do gênero. O criador e roteirista comemora não apenas pelos bons números, mas pelas dificuldades que foram vencidas até aqui. “Quando comecei a escrever, não tínhamos nem equipamento. Desde o primeiro script até o início das gravações, foram oito meses, porque precisávamos juntar dinheiro para comprar uma câmera”, conta Wess.

O universitário Allan Ferraz também levanta a questão da necessidade de lucro como uma das dificuldades para as webséries se manterem fora da internet. “Um dos motivos pelos quais essas séries tem mais espaço online é que na TV há a lógica de mercado, do lucro e da audiência. Roteiros que saem do convencional não se sustentam na televisão”, opina o estudante de Comunicação Social que, há poucos meses finalizou a produção de seu primeiro projeto que saiu do papel – o  episódio piloto de EXtrema Paixão, um suspense envolvendo um serial killer e um relacionamento obsessivo.

Perspectivas

Lifeless revolucionou o gênero a nível nacional ao ser a primeira websérie brasileira a tratar do universo dos mortos-vivos, uma grande tendência da indústria cultural norte-americana. A história de um grupo que sobrevive em um mundo pós-apocalíptico composto por uma população majoritariamente zumbi já ganhou até mesmo as salas da Cinemateca de Curitiba em junho deste ano. Mesmo com todo o sucesso, a produção de webséries continua difícil porque os editais e incentivos voltados ao conteúdo online ainda são escassos e, quando existentes, pouco divulgados.

 

 Apesar das dificuldades, o panorama tem mudado e o gênero tem, aos poucos, conseguido seu reconhecimento. Em 2014, as séries Orange is the New Black e House of Cards, ambas produzidas pela Netflix – empresa americana que oferece produtos audiovisuais pela internet – estiveram entre os grandes destaques em número de indicações ao Emmy Awards, considerado o Oscar da televisão. No Brasil, a RioFilmes lançou, em parceria com o YouTube, um edital prevendo a distribuição de R$1,5 milhão para a produção de até 30 webséries.

 Allan Ferraz, que pretende continuar a produção de EXtrema Paixão e tocar novos projetos em breve, aposta que a tendência é o mercado de webséries continuar se expandindo. “A flexibilidade é um bônus muito grande na vida moderna. A websérie você pode assistir quando quiser sem que isso interfira na sua rotina. Também não existe a necessidade de ficar ali, parado em frente a TV”, diz.

 Para Everson Wess, as oportunidades decorrentes dessa popularização do gênero bateram à porta duas vezes. “Fui recomendado em uma escola pelo Fernando Severo e ganhei um curso de direção”, conta, referindo-se ao cineasta que tem no currículo produções como Olhar Contestado e Curitiba Zero Grau. Á Lifeless também foi oferecido um espaço na grade da TV Transamérica. Entre Wess e esse sonho, entretanto, ainda existe um obstáculo. “O problema é que teremos que pagar pelo espaço. Agora nosso objetivo é correr atrás de patrocínio, nos profissionalizarmos e investirmos dinheiro na série”, afirma.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Populares

Comentários recentes