Apoteose de luzes, sons e gestos. O corpo em cena é muito mais do que um instrumento. Chega a ser protagonista. “Arrebentação”, peça apresentada pela Companhia de Teatro da Universidade Federal do Paraná (UFPR) no Festival de Curitiba, representa o olhar atento e frágil de jovens vistos como “fora de curva” pelos familiares e pela sociedade em geral.
Nos dias 1º e 2 de abril, 25 artistas estiveram no palco do Sesc da Esquina para apresentar o espetáculo “Arrebentação”. A companhia, dirigida por Rafael Lorran, levou ao público um texto que emanou força, ruptura e distinção entre família e afeto. Entre o emaranhado de técnicas, vindas do teatro contemporâneo, as sessões deixaram as pessoas que por lá estavam em estado catatônico, transbordando o significado de “arrebentar-se”.
Para levar a perspectiva familiar e expandir ao tradicional, o espetáculo utilizou de elementos como a iluminação dinâmica e sonoplastia envolvente. A preparação corporal, de responsabilidade de Priscilla Pontes, era evidente no estado de jogo e ligação entre cada um dos atores e atrizes em cena. Foi possível desfrutar de uma peça que transcendeu o cênico ao lírico, à agitação e ao ballroom.
Com fundação em 1995 pelo professor Hugo Mengarelli, a Cia de Teatro da UFPR tem focado na preparação e formação do ator. Além de um grupo de teatro, a questão familiar é o que mantém o elenco unido. Ao longo de 2024, os atores se dedicaram intensamente aos ensaios para a preparação do espetáculo “Arrebentação”, reunindo, no palco, dedicação e emoção.
“A temática e a vivência familiar para mim se relaciona no próprio teatro. Já que aquele coletivo, por um ano, foi minha família”, descreveu Maria Eduardo, atriz da companhia.

Para Nathalia Walker, que fez parte do elenco de 2024, a experiência tem sido transformadora. “Nossos amigos podem ser nossa família. O ambiente profissional, às vezes, é tratado como um lar. Nos lugares que ocupamos criamos raízes e nos familiarizamos com as pessoas”, destacou.
A temática universal se relaciona de maneira única com cada ator no palco. “São 25 pessoas muito diferentes umas das outras, assim como na vida”, descreveu uma das artistas do espetáculo, Larissa Lopes. Em sua segunda participação no Festival de Curitiba, a atriz contou que sua emoção no palco continua tão intensa quanto da primeira vez.
Entre os relatos que atravessam cena e realidade, a atriz Fabiene compartilhou um processo de cura. Integrante da companhia em 2024, encontrou no teatro um caminho de superação, após sua mãe ser diagnosticada com Alzheimer. “Tenho muito orgulho deste trabalho. Apesar do sofrimento, faria tudo de novo. “Arrebentação”toca em feridas que precisam ser escancaradas”, concluiu.

O espetáculo emocionou tanto quem interpreta quanto quem assiste, em uma narrativa viva da autoficção. Além de reafirmar o teatro como espaço de encontros, pertencimento e transformação.
Ficha técnica
Direção e Dramaturgia: Rafael Lorran
Elenco: Alessa Artigas, Amanda Afonso, Camila Elen, Colombina Gasparelo, Constantino Julio, Fabiene, Gustavo Wesley, Ira Dorsey, Jessé Furquim, Juan Augusto, Larissa Lopes, Levi Hilgemberge, Luques Oliveira, Márcio Barbosa, Maria Eduardo, Mikaela Sampaio, Murilo Marochi, Nathalia Walker, Noe Carvalho, Pam Santos, Pauline Celestino, Poliana Stange, Rafaella Sidoruk, Silvester Neto, Valéria Batista
Preparação Corporal: Priscilla Pontes
Preparação Vocal: Manu Santos
Direção Musical: Nelson Sebastião
Composição e Produção da Trilha Sonora: Leonardo Gumiero
Consultoria de Figurino: Patrícia Cipriano
Iluminação: Juliane Rosa
Operação de Trilha: Gabriel Gonçalves.
Por Ana Halat e Nayara Almeida