A apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso de Moda na Universidade Positivo de Giovanna Lipinski, 20 anos, sobre moda periférica, nesta segunda-feira (24), reacendeu discussões sobre como brechós têm se tornado um dos principais espaços de criação, experimentação e entrada no mercado para jovens da moda em Curitiba. 

O debate coincide com a expansão acelerada desse segmento no Paraná. Segundo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – Sebrae Paraná, somente em 2024 foram abertas 132 novas empresas do ramo de brechós no Paraná,  número que supera a média anual de 90 registros observada nos últimos cinco anos. O movimento não é isolado. Ooutro levantamento do Sebrae  mostra que, entre 2014 e 2024, o segmento cresceu mais de 87%, com avanço de 88% no ritmo de novas aberturas.

O crescimento do setor abre espaço para que novas profissionais formadas em moda encontrem um campo de atuação em expansão. Para Giovanna, o mercado curitibano ainda é fechado: “Existe uma panelinha, em que as oportunidades circulam sempre entre as mesmas pessoas. Essa área, infelizmente, exige indicação, a presença constante nas redes sociais e muita experiência prática, o que nem sempre é acessível”, diz. Segundo ela, muitos jovens profissionais acabam trabalhando de graça para conseguir visibilidade, o que precariza o setor.  “Sem alguém que abra portas, é difícil conquistar espaço, mesmo com talento e formação,” destaca.

Laboratório criativo

Em um mercado que, historicamente,  concentra vagas no fast fashion ou em grandes marcas, os brechós surgem como alternativa para estilistas, produtoras de moda e criadoras de conteúdo desenvolverem trabalhos autorais e próximos do público. É o caso da estudante de Letras Bruna Anelise, 26 anos.  

Integrante de um brechó no centro da cidade, para ela, a moda vai muito além das tendências.  “Trabalhar com brechó é também uma relação política, algo que o mundo está vivendo agora. É sobre ser sustentável e  me expressar, de ser quem eu sou e de sempre explorar mais o que posso fazer de novo,” afirma. ”

Bruna vê nos brechós não só um enfrentamento ao fast fashion, mas também uma porta de entrada para o mercado de moda. Além de ser professora particular de inglês, ela cria conteúdo para a rede social pessoal e profissional sobre moda plus size, o que  atrai novas peças e clientes para o perfil do brechó.

“É uma oportunidade para quem gosta de atendimento, para quem ama moda, para quem cria conteúdo e até para novas investidoras. Vejo um grande potencial nisso. Ainda existe uma ideia antiga sobre brechós, de que são lugares com roupas ‘fubangas e velhas’ que exigem garimpo. Mas aqui mantemos tudo organizado, com um espaço agradável e um atendimento cordial. Quando juntamos isso com criatividade e uma linha editorial que atrai pessoas apaixonadas por moda, o resultado é incrível,” relata Bruna. 

Bruna Anelise, professora e criadora de conteúdo de moda. Foto: Vitória Smarci.

Giovanna, que também é consumidora de peças de segunda mão,  enxerga dois lados de uma moeda para o consumo sustentável: “Temos na cidade dois tipos de brechó, o brechó raiz, onde ainda se garimpa as roupas, e o brechó de ricas, com peças usadas poucas vezes e revendidas por preços altos”. Para ela, a “gourmetização” desses espaços transforma os brechós em ambientes voltados principalmente para a elite.

O TCC apresentado por Giovanna discute a moda periférica como ferramenta de humanização e reconhecimento cultural. O trabalho analisou a estética maximalista e suas conexões com o funk, o rap e o trap, questionando a ideia de que a moda é historicamente construída “de ricos para ricos”. Ela e suas colegas entrevistaram artistas e aprofundaram estudos sociológicos sobre consciência de classe, mobilidade e representatividade.

“O trabalho tenta propor uma alternativa à hipersexualização feminina, transformando elementos de fetiche em empoderamento,” explica. Para Giovanna, a moda é um “vetor de mobilidade” nas periferias, capaz de abrir caminhos profissionais e narrativos para quem historicamente teve suas expressões marginalizadas. Defende que, ao reconhecer e valorizar essas estéticas, a moda contribui para tornar culturas periféricas mais visíveis e respeitadas.

Reportagem: Vitória Smarci | Edição: Sophia Martinez | Orientação: Gabriel Bozza