seg 18 out 2021
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De casa para NASA

Duília de Mello foi premiada com o Diáspora Brasil e escolhida como uma das 10 mulheres que mudaram o país (Foto: Tommy Wiklind/Nasa)
Duília de Mello foi premiada com o Diáspora Brasil e escolhida como uma das 10 mulheres que mudaram o país (Foto: Tommy Wiklind/Nasa)

Pesquisadora associada à NASA Goddard Space Flight Center, Duília de Mello foi escolhida como uma das 10 mulheres que mudaram o Brasil pelo Barnard College/Columbia University em 2013 e, no mesmo ano, recebeu o Prêmio Diáspora Brasil. Duília é professora de Física e Astronomia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Washington e autora do livro Vivendo com as Estrelas e outros 100 artigos científicos.

Graduada em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a professora é pós-doutorada e referência mundial em Astrofísica Extragaláctica. Mulher, nascida nos anos 60 em uma cidade do interior de São Paulo, ela mostra a brasileiras e brasileiros que nenhum sonho é impossível.

Jornal Comunicação: O que são as Bolhas Azuis e como a senhora chegou à descoberta?

Duília de Mello: As Bolhas Azuis são berçários de estrelas encontrados nos arredores de galáxias que estão em processo de colisão. Fiz a descoberta utilizando um telescópio ultravioleta da NASA e, depois, utilizei o telescópio espacial Hubble e o telescópio gigante Gemini para saber mais sobre elas. Hoje sabemos que são estrelas bem jovens e que se formaram de detritos deixados pelas galáxias durante colisões.

 

O satélite astronômico artificial Hubble revolucionou a Astronomia. Com ele, Duília descobriu as Bolhas Azuis, aglomerados de estrelas fora das galáxias (Foto: acervo pessoal)
O satélite astronômico artificial Hubble revolucionou a
Astronomia. Com ele, Duília descobriu as Bolhas Azuis, aglomerados de estrelas fora das galáxias (Foto: acervo pessoal)

JC: Explique o que é a Supernova 1997D, sua outra importante descoberta.

Mello: Uma supernova é uma estrela que acaba de explodir. O interessante da descoberta é como foi feita. Eu estava sozinha observando em um telescópio no Chile quando vi uma estrela que não deveria estar no campo em que estava observando. Eu poderia ter simplesmente continuado a fazer o que estava fazendo e não ligar para a estrela intrusa. Mas a minha curiosidade levou à descoberta.

JC: Em sua opinião, o governo brasileiro incentiva a astronomia como deveria?

Mello: A Astronomia brasileira é jovem e pequena. Somos apenas 600 astrônomos, mas o número cresce rapidamente e o Brasil começa a investir na área. Já fazemos parte de vários telescópios internacionais e estamos, também, desenvolvendo instrumentação no país.

JC: O que você diria para as jovens cientistas que, um dia, sonham chegar aonde você chegou?

(Pergunta enviada pela estudante de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná, Talitha Pires).

Mello: Um cientista utiliza a curiosidade para fazer perguntas e o conhecimento para procurar as respostas. A carreira de cientista demanda muita dedicação e persistência, mas é também muito recompensadora. Recomendo aos jovens não se esquecerem do motivo que os levaram a escolher a carreira que escolheram, participarem de congressos internacionais sempre que possível e manterem um contato permanente com o público que não é da área.

JC: O que você acha dos cursos de graduação em Física/Astronomia no Brasil?

(Pergunta enviada pela estudante de Física da UFPR, Bruna Pascual).

Mello: As universidades brasileiras formam excelentes físicos e astrônomos. Mas é necessário fazer mestrado e doutorado antes de ser considerado profissional na área. Muitas universidades brasileiras oferecem pós-graduação de ótimo nível e os doutores brasileiros conseguem competir igualmente no mercado internacional.

JC: Que áreas de pesquisa podem vincular a Astrofísica e a Biologia, dentro ou fora do Brasil?

(Pergunta enviada pela estudante de Ciências Biológicas da UFPR, Camila Pereira).

Uma das áreas mais procuradas atualmente é a Astrobiologia. Os cientistas desta área se perguntam como ocorreu a vida na Terra e procuram por vida em outros planetas. Há muito que se fazer neste campo desde que começamos a descobrir centenas de planetas ao redor de outras estrelas.

JC: Quais as maiores dificuldades para uma cientista conseguir trabalhar com Astrofísica?

(Pergunta enviada pela estudante de Ciências Biológicas da UFPR, Camila Pereira).

Mello: A Astrofísica é uma área muito dinâmica, com muitas descobertas, então é necessário estar sempre a par dos últimos resultados. Uma dificuldade é que a publicação dos resultados ocorre muito rapidamente, para que outros não publiquem antes. Isto faz com seja um campo muito competitivo, mesmo estando dentro de grupos de colaboradores, que deveriam se ajudar.

JC: Em quais áreas da Astronomia há uma maior atuação/investimento no Brasil? Há realmente a necessidade de sair do país para poder se dedicar a pesquisas?

(Pergunta enviada pela estudante de Física da UFPR, Marina Raboni Ferreira).

Mello: O Brasil tem tradição em várias áreas de Astronomia, desde Planetas até Cosmologia. Não é necessário sair do Brasil para se dedicar à Astrofísica. Eu sou uma exceção, e os que não saíram fazem Astronomia de bom nível. Estamos começando a desenvolver a área de instrumentação e vejo nessa área o maior desafio da Astronomia brasileira atual.

JC: Em um artigo publicado pela professora da Universidade de Yale, Eileen Pollack, discute-se sobre a falta de mulheres no campo da ciência em áreas como Física, Química e Matemática. Você já passou por alguma situação de preconceito de gênero?

(Pergunta enviada pela estudante de Física da UFPR, Marina Raboni Ferreira).

Mello: O preconceito existe no mundo todo, mas nunca passei por nada muito expressivo. Passei por aquelas chateações do dia a dia, piadinhas de mau gosto, ou até uma nota mais baixa por ser mulher, mas nada que tenha me prejudicado. Faço parte de uma rede de mulheres na NASA e na Universidade e acho isso importante para aprendemos a lidar com certas situações e evitar certos problemas. Assim como já recebi ajuda das mais experientes, agora passo isto para a próxima geração.

A supernova, estrela que acaba de explodir, foi descoberta pela astrofísica em 14 de janeiro de 1997 e foi a quarta descoberta no ano – por isso leva no  nome a letra D (Foto: Acervo pessoal)
A supernova, estrela que acaba de explodir, foi descoberta
pela astrofísica em 14 de janeiro de 1997 e foi a quarta descoberta no ano – por isso leva no
nome a letra D (Foto: Acervo pessoal)

 

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