dom 31 maio 2026
HomeDestaquesOcupação Nova Primavera completa 13 anos de luta e resistência coletiva  

Ocupação Nova Primavera completa 13 anos de luta e resistência coletiva  

A comunidade Nova Primavera, na Cidade Industrial de Curitiba, está sem risco de despejo, mas também sem previsão de regularização

Em uma cidade conhecida pelo urbanismo, a ocupação Nova Primavera expõe o outro lado de Curitiba: o das comunidades que sobrevivem à margem da regularização. Sem direitos garantidos, seus moradores vivem o contraste entre o discurso da “cidade modelo” e a realidade precária.  

A partir da década de 1970, a criação do bairro Cidade Industrial de Curitiba (CIC) impulsionou o crescimento urbano da capital. O projeto tinha como objetivo atrair empresas e trabalhadores para uma região planejada, voltada à produção e ao desenvolvimento econômico.  No entanto, muitas famílias que migraram para o local não receberam apoio do Estado nem das empresas, precisando se organizar por conta própria para garantir moradia e condições mínimas de vida. Sem alternativas, parte delas passou a ocupar áreas irregulares, muitas próximas aos rios Barigui, Belém e Passaúna. 

Atualmente, a CIC é o bairro mais populoso de Curitiba, com 172.510 habitantes, segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O bairro abriga um amplo conjunto de vilas e comunidades, que expõem as desigualdades históricas do processo de urbanização da cidade. 

A Nova Primavera é uma dessas comunidades que nasceram da necessidade e da resistência. A ocupação começou a se formar em 2012. “A dificuldade foi enfrentada desde o começo. Entramos no meio do mato, sem luz, sem água e sem comida, tentando uma moradia digna”, relata Adevaldo Quirino, mais conhecido como Chocolate, morador e uma das lideranças da comunidade. 

Segundo um dos coordenadores do Movimento Popular por Moradia, Paulo Bearzoti Filho, que esteve desde o início auxiliando na organização da comunidade, a maior parte dos primeiros moradores vieram de outros bairros de Curitiba e da Região Metropolitana. “Hoje, há uma boa porcentagem de migrantes, sobretudo do Pará e Amazonas, e também imigrantes haitianos”, explica. Atualmente, a Nova Primavera abriga cerca de 400 famílias. 

Desde então, a comunidade se estruturou coletivamente. Os próprios moradores ergueram casas e instalaram redes de saneamento, água e energia. “A organização é feita assim. Quando a gente fala em união, é colaboração das famílias, isso que você está vendo, o que está acontecendo hoje”, completa Chocolate. 

Histórico de ocupações em Curitiba 

Durante a década de 1970, Curitiba passou por um intenso processo de transformação urbana. Sob a gestão de Jaime Lerner — que foi prefeito em três mandatos (1971–1975, 1979–1983 e 1989–1992) — e com Roberto Requião no governo do estado, a capital paranaense se consolidou como referência nacional em planejamento e sustentabilidade. Projetos como a implantação do sistema integrado de transporte coletivo e ações voltadas à preservação ambiental ajudaram a construir a imagem de uma “cidade modelo”. Mas, enquanto o reconhecimento crescia, outro fenômeno urbano se expandia em paralelo: o das ocupações. Entre as décadas de 1970 e 1990, Curitiba viu surgir diversas ocupações irregulares, resultado direto do aumento populacional e da falta de acesso à moradia. 

A professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Celene Tonella, pesquisadora do tema, explica que sua tese de doutorado teve como foco as ocupações urbanas curitibanas das décadas de 1980 e 1990. Entre elas, a Ferrovila, que se tornou símbolo da luta por habitação na capital. 

Com o fim da ditadura militar e a redemocratização, marcada pela eleição presidencial de Tancredo Neves e a posse de José Sarney, o Brasil atravessou um período de instabilidade política e econômica. “Houve uma mudança muito radical na economia. Surgiram os planos econômicos, o mais conhecido foi o Plano Cruzado, de 1986, que congelou preços, aluguéis e salários”, relembra Tonella. 

O plano logo revelou suas limitações. “Com o descongelamento dos preços, os aluguéis dispararam, enquanto os salários continuavam defasados. O impacto foi sentido primeiro nas periferias”, afirma a pesquisadora. Sem condições de pagar o aluguel, muitas famílias passaram a se estabelecer em terrenos públicos e privados, criando assim, as ocupações.  

A ocupação da Ferrovila surgiu em 1991 e marcou um dos episódios mais emblemáticos das lutas por moradia em Curitiba. O movimento ocupou toda a faixa de linha férrea que atravessava a região central da cidade. Segundo Tonella, o terreno da ferrovia estava prestes a ser vendido ao então Banco Bamerindus. O risco de privatização da área despertou a mobilização popular. “De um dia para o outro, cerca de três mil famílias ocuparam todo o trecho da ferrovia, dando origem à chamada Ferrovila”, conta a professora.  

No Natal de 1991, os moradores da Ferrovila ficaram sem água e decidiram protestar na Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba, pedindo água e dignidade. “Naquele momento, para as associações de moradores, o Requião era visto como aliado, enquanto Lerner queria desocupar esses espaços”, recorda Tonella. 

A Ferrovila marcou o início de um cenário de intensas ocupações urbanas em Curitiba. Segundo Tonella, em 1989 já havia mais de 180 ocupações em terrenos públicos e cerca de 40 em áreas particulares, totalizando aproximadamente 10 mil famílias acampadas.  

A partir dos anos 2000, o número de ocupações urbanas na capital continuou a crescer. De acordo com dados da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), divulgados em 2024, Curitiba conta com 322 favelas e um déficit habitacional superior a 90 mil moradias. O levantamento aponta que 43.461 famílias vivem nessas favelas e outras 7.400 em 93 loteamentos irregulares. Além disso, 58.781 famílias aguardam por uma casa da Cohab, o que evidencia a urgência por soluções habitacionais na capital paranaense.  

Nova Primavera e os desafios

Um dos maiores problemas enfrentados pelas ocupações é a falta de regularização. Esse processo é lento e muito específico. Na Nova Primavera, segundo Bearzoti, permanece uma questão de propriedade, já que a área ocupada ainda pertence, formalmente, ao Grupo Damiani de Engenharia.  

De acordo com ele, tem havido algum diálogo por meio da Comissão de Conflitos Fundiários, mas muito pouco. Não há um processo de diálogo efetivamente em curso para se firmar a regularização da Nova Primavera. 

“Viver tantos anos sem regularização, mesmo sem o risco iminente de despejo, significa, basicamente, uma vida muito mais precária e, no limite, sem um pleno acesso à moradia digna”

Paulo Bearzoti, MPM

Sem regularização, os moradores vivem apenas com o básico. “Viver tantos anos nessa condição, mesmo sem o risco imediato de despejo, significa enfrentar uma vida muito mais precária e sem pleno acesso à moradia digna”, afirma Bearzoti.  

Parte desse processo de regularização também surge do reconhecimento, por parte da própria cidade, da existência das favelas. Durante décadas, prevaleceu em Curitiba a ideia de “desfavelamento” — ou seja, a negação da existência dessas comunidades. As políticas habitacionais tinham um caráter higienista, voltadas a “limpar” a cidade dessas áreas em vez de integrá-las. 

“Em Curitiba, a maioria das favelas acontece ao longo dos rios, são menores, dispersas, mas ainda assim em grande quantidade. E nos primeiros anos, a política de urbanização de favelas não existia, era uma política que queria simplesmente acabar com esses espaços. As famílias eram removidas e enviadas para outros municípios, numa tentativa de eliminar as favelas. Mas isso nunca foi eficiente, porque o problema não era enfrentado de fato”, explica a arquiteta e urbanista Ana Gabriela Teixeira, mestre em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Paraná.  

Hoje, a comunidade completa 13 anos de resistência, mas ainda sem reconhecimento oficial, o que dificulta o acesso a direitos básicos. Falta fornecimento regular de água e energia elétrica, saneamento básico, coleta de lixo e pavimentação. Além da precariedade estrutural, os moradores não têm registro de propriedade, não podem usar o imóvel como garantia e, muitas vezes, nem mesmo possuem um comprovante de endereço. “Isso os deixa sujeitos a todo tipo de preconceito associado às ocupações e assentamentos não regularizados”, destaca Bearzoti. 

A regularização é fundamental, principalmente, para garantir dignidade habitacional. Segundo Teixeira, ela representa mais do que o direito de permanecer no território, é também uma forma de aliviar os custos e ampliar o acesso a serviços essenciais. “Quando há regularização, quem assume a manutenção é a companhia pública, no caso de Curitiba, a Sanepar e a Copel. É um engano achar que elas não querem acessar a rede regular. Pelo contrário, querem sim ter infraestrutura, sabem que terão mais qualidade e segurança, e que poderão acionar a companhia em caso de problema”, explica. 

É necessário que o poder público avance em políticas habitacionais concretas e no reconhecimento das comunidades que há anos lutam por moradia digna. Para a urbanista, o processo ideal de regularização deveria incluir uma etapa de melhorias habitacionais, com a aplicação da Lei de Assistência Técnica, por meio da disponibilização de arquitetos e engenheiros, que auxiliem os moradores na elaboração de projetos e na realização das obras. A proposta busca aprimorar a estrutura das moradias e garantir condições seguras de acesso ao esgoto, à água e à rede elétrica. 

“Hoje falamos mais de urbanização, mas precisamos discutir seriamente melhorias habitacionais, olhar para dentro do lote. Esse é um desafio em todos os municípios: como aplicar de fato a Lei de Assistência Técnica. Ainda assim, acredito que os estudos, a pressão e a consciência popular sobre o caminho certo fazem efeito para que as políticas públicas aconteçam”, afirma Teixeira. 

Essas comunidades, incluindo a Nova Primavera, também “ensinam a resistência, a resiliência, a força de vontade para viver de maneira mais digna. Ensinam também, pelo seu oposto, a farsa do mito da cidade modelo, a farsa do planejamento pleno, já que o planejamento e a cidade modelo existem para uma parcela da população, mas estão muito longe de existir para toda a população”, reforça Bearzoti.

Ocupação Nova Primavera. Fotos: Amábili Gomes.

NOTÍCIAS RELACIONADAS
Acessar o conteúdo