qua 27 out 2021
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Procuram-se segredos

O homem que passa na frente do Shopping Mueller está com pressa. Ele veste um terno preto e tem ar de executivo. “Eu fumo maconha”, confessa a dois jovens que seguram uma placa feita com uma folha de caderno. Nela, lê-se: “Conte-me um sonho ou segredo”.

Alguns veem a placa e preferem não dizer nada, mas pelo menos parecem achar curioso ou engraçado. Tem gente que faz cara de quem  se lembrou de um segredo que não quer contar nem para si mesmo. Não vai contar para um estranho. Muito menos para dois.

O que você revelaria para duas pessoas que nunca viu antes?
Foto: Luiza Pollo Mazurek

 

“Mas eu nunca te vi na vida”

Dois desconhecidos, na rua, querem saber algo sobre você. Pouca gente sabe alguma coisa sobre eles. Mariana Mós tem 17 anos e raspa o cabelo desde os 15 porque gosta. Nicolas Bevilacqua tem a mesma idade e um corte de cabelo tradicional. Preferiu o cigarro como transgressão. “Mais ou menos duas carteiras por dia”, revela.

Isso é mais do que qualquer um sabe sobre eles, já que nenhum dos dois se apresenta. Eles só seguram a placa com um sorriso convidativo.

Os curiosos se aproximam, e os corajosos fazem confissões. “A melhor parte é você poder contar um segredo pra alguém que você nunca mais vai ver na vida”, defende Mariana. “Quem disse que eu nunca mais vou te ver?”, rebate um desconfiado. A garota prefere deixar os curiosos à vontade. Ela e Nicolas só se manifestam quando percebem que alguém “está se coçando” para contar alguma coisa. Nos outros casos, Mariana conta que é melhor esperar alguém tomar a iniciativa. “Eu acho a abordagem muito agressiva”, explica.

No calçadão da Rua XV, uma moça passa com as amigas. Ela fica curiosa, mas segue o caminho. Depois de alguns minutos, dá meia-volta e parece ter alguma coisa para dizer. Mariana e Nicolas convidam-na com um sorriso. Ela arrisca. “Meu sonho é ter gêmeos. Se eu não casar até os 35 anos, vou fazer uma inseminação artificial. Combinei com o meu melhor amigo que ele vai ser o pai, já que ele é gay, mas também quer ter filhos”.

 

Curiosidade e interação

A iniciativa surgiu em uma tarde no final de 2012. Mariana soube de um projeto nos Estados Unidos de um homem que se dispunha a ouvir histórias de quem passava na rua. Ela decidiu reproduzir a ideia aqui em Curitiba, mas pedindo que as pessoas contassem segredos ou sonhos.

Alguns desconfiados querem saber quais são as intenções dos jovens curiosos. “É uma forma de interação”, responde Mariana, que acredita que Curitiba é uma cidade onde é difícil manter um projeto como este. “As pessoas precisam aprender a retribuir sorrisos aqui”, desabafa. “Quando eu for para São Paulo, vou fazer a mesma coisa. Tenho certeza que lá muito mais gente vai querer interagir”, completa a garota, que nasceu na capital paulista.

 

Sem julgamentos

Depois de alguns minutos de conversa, todo mundo acha que Mariana quer estudar Psicologia. Com alguns dos confidentes, ela comenta sobre correntes teóricas bem específicas da área com muita segurança. Mas se engana quem pensa que ela quer fazer do passa-tempo uma profissão. “Meu sonho é ser redatora. Vou fazer Publicidade”, conta. Já Nicolas ainda está indeciso. Os dois fazem cursinho, mas não estudam juntos. Mesmo assim, tentam se encontrar sempre que podem para passar a tarde com os amigos ou caçar segredos.

“As pessoas às vezes só querem contar alguma coisa para alguém que não vai julgar nada do que ela disser”, teoriza a jovem. Nicolas concorda, enquanto fuma um cigarro. “Vou acender um agora porque ninguém vai vir falar com a gente se eu estiver fumando”. Ele sorri para todo mundo que parece querer se aproximar. Nicolas é confiante. Confiável.

 

Livro aberto

Enquanto algumas pessoas abaixam a cabeça para passar ao lado do casal de amigos, outras têm a urgência de conversar. A adolescente que gosta de comer tatu de nariz é uma delas, assim como o garoto que sonha em fazer sexo em uma montanha-russa. Aliás, o menino com quem ele anda de mãos dadas confidencia com um sorriso que acabou de ser pedido em namoro.

O escritor americano Chuck Palahniuk explica, no livro Diary, de 2003, essa vontade de mostrar quem somos. “Everything is a self-portrait. Everything is a diary”.

Se você gosta de segredos visite o site PostSecret.

Para contar alguma coisa para Nicolas e Mariana, é só ficar atento às redondezas do Shopping Mueller e ao calçadão da Rua XV.
De vez em quando eles aparecem por lá à caça de segredos.

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