Curitiba envelhece mais rápido que a média nacional

Projeções indicam que, em duas décadas, idosos serão o dobro do número de jovens no Paraná, exigindo preparação individual e coletiva para essa transição

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Solidão afeta um em cada três idosos segundo relatório da OMS. Créditos: Nicole Ribeiro

O envelhecimento populacional — impulsionado pela queda da natalidade e pelo aumento da expectativa de vida — deixou de ser preocupação distante. Projeções mostram que, nos próximos anos, haverá mais idosos que jovens no Paraná e no Brasil, cenário que exige planejamento de cidades, instituições e famílias.

No estado, dados do IBGE analisados pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) apontam que, em 2027, a população com mais de 60 anos deve ultrapassar a de pessoas com menos de 15. O índice de envelhecimento será de 100,1 e para 2046, a previsão é que chegue a 200 — o dobro de idosos em relação à jovens. Na lógica, quando o índice é maior que 100, indica que o número de idosos é maior que o de jovens. No Brasil, a inversão está prevista para 2029, quando o índice passará de 81,3 para 102,2.

PREPARAÇÃO PARA A VELHICE

Mais do que dados, o envelhecimento programado traz desafios sociais e psicológicos. Para além da saúde e da economia, especialistas defendem que é preciso repensar como a sociedade lida com a velhice, para melhor atender não apenas os idosos de hoje, mas também os do futuro. A psicóloga Samara Carvalho destaca que o etarismo, reforçado por dinâmicas capitalistas que associam valor à produtividade, dificulta a reinvenção após a aposentadoria.

“O preparo começa com a valorização dessa fase. A velhice também tem importância e aspectos positivos. Nem todos têm a oportunidade de chegar até lá”, diz. Samara defende a criação de projetos que incentivem conversas sobre trabalho, lazer e hobbies, além de programas institucionais que preparem para a aposentadoria. Famílias também devem atentar para o aspecto psicológico. “Atividades como pintura ou desenho podem estimular prazer e convivência. É essencial que o idoso se sinta útil”, completa.

A psicóloga complementa que, entre os principais desafios da velhice, está o enfrentamento da solidão. Relatório da Comissão sobre Conexão Social da OMS mostra que ela afeta uma em cada seis pessoas no mundo, estando associada a 871 mil mortes anuais. Entre idosos, a proporção é de um em cada três. Estudo publicado na revista Nature Mental Health indica que a solidão aumenta em 31% o risco de demência e em 15% a probabilidade de comprometimento cognitivo. “Ela pode levar a depressão e ansiedade, pois falta incentivo para buscar atividades além do trabalho”, explica Samara Carvalho.

CURITIBA ENVELHECE ANTES

Segundo o estudo Cenários da Cidade – Curitiba Longevidade, elaborado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), a capital registra envelhecimento acima da média nacional. Em 2021, 16,93% dos curitibanos tinham 60 anos ou mais, frente a 14,69% no país. Para 2030, a projeção é de 21,9% na capital contra 18,73% no Brasil. A tendência corrobora com estimativas do Ipardes, que calculam que, em 2050, um quarto da população curitibana terá mais de 60 anos.

O diretor de pesquisas do Ipardes, Julio Suzuki, comenta que o aumento da população idosa vai gerar impactos no planejamento urbano e social, como a maior demanda por serviços de saúde. “Isso implica em mudanças nas políticas públicas e no perfil do gasto público. A população que financia o Estado do bem-estar social tende a diminuir, enquanto o contingente de beneficiários vai aumentar”, explica.

Segundo Suzuki, Curitiba apresenta estrutura etária mais envelhecida que municípios da Região Metropolitana e de outras áreas do Paraná. Ele acrescenta que, o fenômeno se repete em todo o país, com dinâmicas distintas conforme cada região. Em alguns locais, por exemplo, o saldo migratório motivado por uma busca de qualidade de vida acelera o processo.

O Ipardes também conduz uma pesquisa sobre o perfil de cuidadores de idosos em Curitiba. “Na maioria dos casos, o cuidado é feito por parentes ou amigos, com ou sem remuneração. Queremos identificar esse perfil para oferecer subsídios às secretarias e até propor uma política de remuneração a cuidadores”, afirma. O levantamento deve ser concluído até o fim do próximo ano.

Fonte: Projeção populacional (2025-2050) Ipardes

FUTURO IMEDIATO

Para os especialistas, enfrentar o envelhecimento populacional exige ação multissetorial e imediata. “Precisamos ver as pessoas como indivíduos que ainda têm possibilidade de viver e explorar. É necessário dar voz aos desejos e abrir espaço para descobrir quem somos agora”, conclui Samara Carvalho.

Confira a conversa completa com a Psicóloga Samara Carvalho.